Como funciona o esquema da tarifa dinâmica falsa criado por motoristas e motociclistas de app no CE

Motoristas que se recusavam a entrar na associação criminosa são pressionados e ameaçados pelo grupo criminoso.

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
Foto que mostra diversas motocicletas e um carro estacionados em uma rua de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza. Ao lado dos veículos estão motociclistas e motoristas de aplicativo.
Legenda: Grupo de motorista se reúne em endereços determinados para manipular a tarifa de corridas.
Foto: Reprodução/Polícia Civil.

A prisão de um motorista de aplicativo em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, no último dia 31 de março revelou novamente um esquema onde motoristas e motociclistas que fazem Uber e 99 forjam tarifas dinâmicas para lucrar mais em cima das corridas. A investigação da 1ª Delegacia de Polícia Civil de Aquiraz aponta ainda que trabalhadores que se negavam a entrar na ação ilegal eram ameaçados. 

Segundo o relatório policial, ao qual o Diário do Nordeste obteve acesso, o caso começou a ser investigado após denúncias anônimas, reclamações de clientes e boletins de ocorrência, que serviram de base para uma ação policial na região do Porto das Dunas. Os policiais encontraram de sete a oito motoristas reunidos de forma suspeita para supostamente para praticar o esquema.

Ao perceberem a presença policial, a maioria fugiu, e o único que permaneceu no local foi Francisco Thalison de Oliveira Varela, motorista de carro por app, autuado por estelionato majorado. Segundo a investigação, a prática configura crime contra a ordem econômica, onde são formados acordos entre os suspeitos para a fixação artificial de preços. 

Com o suspeito, e também em veículos próximos, foram apreendidos um total 14 aparelhos celulares, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS), além de dois carros e uma motocicleta. O fato reforçou a suspeita contra ele e o grupo de condutores. 

Durante interrogatório na Delegacia Metropolitana de Aquiraz, Thalison confirmou que fazia solicitação de corridas falsas para enganar o algoritmo da Uber, e revelou ainda que é uma prática comum entre motoristas, que se reúnem em um endereço específico e desconectam seus aplicativos. Ele declarou, porém, que não conhecia o grupo de condutores que fugiu da abordagem policial. 

No dia seguinte à prisão, 1º de abril, Thalison passou por audiência de custódia e teve liberdade provisória concedida mediante ao pagamento de uma fiança de R$ 1.621. Ele também ficou obrigado a manter o endereço atualizado e a comparecer a todos os atos do processo sempre que intimado, de acordo com decisão do juiz Victor Nogueira Pinho, do 7º Núcleo Regional de Custódia e das Garantias, sediado em Maracanaú. 

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Tarifa dinâmica 'fake' 

Motoristas e motociclistas se reúnem em pontos específicos da cidade para manipular tarifas dinâmicas, que são mais caras e colocadas em prática pelas empresas de transporte particular de aplicativo quando há uma demanda maior de viagens em dias e horários específicos. É comum, por exemplo, que em grandes eventos na cidade, como shows, ou dias chuvosos, a tarifa entre em prática. 

Montagem com três capturas de tela de um aplicativo de transporte por mapa, exibindo áreas com tarifa dinâmica na Região Metropolitana de Fortaleza. Em todos os mapas aparecem manchas em tons de roxo indicando valores adicionais sobre a tarifa.
Legenda: Motoristas e motociclistas forjavam as tarifas dinâmica e enquanto eles estavam nas áreas mais caras, ganhavam extra.
Foto: Reprodução/Relatório Policial.

O grupo usava outros celulares com contas nas plataformas para solicitar várias corridas na mesma região, e logo depois cancelavam, fazendo o aplicativo ativar o preço mais alto

Em nota, a  Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), representando as empresas Uber e 99, informou que não é autorizado "nenhum tipo de prática que busque manipular a dinâmica de preços das corridas, como a solicitação e o cancelamento intencional de viagens". (Leia nota na íntegra abaixo).

"As plataformas possuem sistemas que buscam inibir práticas fraudulentas que, quando detectadas, são punidas inclusive com o banimento das contas. As empresas associadas contam com equipes que estão em diálogo constante com o Poder Público, de forma transparente e colaborativa, para contribuir com iniciativas que busquem avanços na segurança para todos os usuários, e colocam-se à disposição das autoridades para colaborar com a investigação", pontuou a Associação. 

O motorista que foi preso explicou aos policiais em interrogatório que, com a manobra, se uma corrida está com valor adicional de R$ 22 em determinada área, o trabalhador receberá esse valor somado ao preço real da corrida paga pelo passageiro, que se for R$ 8, acaba gerando R$ 30 em uma única corrida. As áreas de alta demanda ficam destacadas com uma cor diferente, e enquanto o condutor estiver naquela região, vai ganhar extra. 

De acordo com as diligências, os motoristas possuem preferência pelos seguintes locais, todos na Região Metropolitana: 

  1. Rua Barracuda, Porto das Dunas, Aquiraz-CE;
  2. Próximo ao Mercadinho Antenas, na Rua Medusa, 1639, Porto das Dunas, Aquiraz-CE;
  3. Rua Marlin Azul, próximo ao Posto de Combustível Shell, situado na Av. Litorânea, Porto das Dunas, Aquiraz-CE;

A preferência por pontos na Região Metropolitana de Fortaleza se dá pois são regiões com menor fluxo motoristas e motociclistas, o que torna mais fácil a prática da falsa tarifa dinâmica.

Esquema criminoso contínuo 

Inclusive, essa não foi a primeira operação da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) que teve esse esquema criminoso como alvo em Aquiraz. No dia 17 de agosto de 2025, um grupo de 15 motociclistas de aplicativo foi preso em flagrante por usar perfis falsos para aumentar a demanda e conseguir preços mais elevados. 

Além da solicitação corridas fabricadas, esse grupo também simulava pedidos de trajetos curtos, que eram recusadas pelos comparsas e aceitas em seguida por outro integrante que visava ganhar bonificação na plataforma.

À época, prisões foram motivadas pela denúncia de um motorista que foi ameaçado por não aceitar entrar na associação criminosa. Esta nova operação também foi motivada por uma denúncia de trabalhador de aplicativo, e foi feita em setembro do ano passado, fato que demonstra a continuidade da operação da tarifa dinâmica falsa

Nesse último caso, o denunciante expôs à polícia que foi entregar uma encomenda próximo ao Beach Park e disse que após a corrida foi abordado por motociclista, com a exigência de desligar o aplicativo para não interferir na dinâmica da região. Quando ele se recusou, o primeiro motoqueiro chamou outros colegas para pressioná-lo. 

Associação de motociclistas repudia violação de regras

Ao Diário do Nordeste, a Associação dos Motoboys e Trabalhos por Aplicativo do Estado do Ceará (AMOT-CE), afirmou que "repudia qualquer conduta que viole as regras das plataformas, prejudique os usuários ou comprometa a credibilidade da categoria".

A entidade disse que acompanha "com atenção" a investigação, e entende que "a manipulação de tarifas por meio de cancelamentos indevidos não representam a imensa maioria dos trabalhadores por aplicativo, que atuam de forma honesta, digna e responsável para garantir seu sustento". 

Reforçamos que defendemos a valorização da categoria, com mais direitos, melhores condições de trabalho e também responsabilidade no exercício da atividade. A AMOT-CE apoia que eventuais irregularidades sejam devidamente investigadas e, caso comprovadas, que os responsáveis respondam conforme a lei. Destacamos ainda que é fundamental evitar generalizações que possam prejudicar toda a categoria, composta por milhares de trabalhadores que prestam um serviço essencial à população.A associação segue à disposição para contribuir com o diálogo institucional e com iniciativas que promovam mais transparência, justiça e respeito no setor.
Em nota
AMOT-CE

Já a Associação dos Motoristas de Aplicativo (Amap Ceará), que representa os condutores de automóveis, informou que não vai se manifestar sobre o assunto "por questão de segurança e por se tratar de um assunto de polícia e de abrangência maior". 

NOTA AMOBITEC NA ÍNTEGRA 

A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) informa que as associadas operam modelos de negócio que buscam equilibrar as demandas dos usuários por viagens com a oferta de motoristas. Fatores como tempo e distância dos deslocamentos, categoria do veículo escolhido, nível de demanda no horário e local específico, entre outros, podem influenciar nos valores das viagens. 

Não é autorizado pelas empresas nenhum tipo de prática que busque manipular a dinâmica de preços das corridas, como a solicitação e cancelamento intencional de viagens. As plataformas possuem sistemas que buscam inibir práticas fraudulentas que, quando detectadas, são punidas inclusive com o banimento das contas.  

As empresas associadas contam com equipes que estão em diálogo constante com o Poder Público, de forma transparente e colaborativa, para contribuir com iniciativas que busquem avanços na segurança para todos os usuários, e colocam-se à disposição das autoridades para colaborar com a investigação. 

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