Ceará tem 18,4 mil perfis de DNA em banco nacional que auxilia em crimes e desaparecimentos

Estado lidera identificações de desaparecidos no Brasil e fortalece investigações criminais por meio de cursos de educação continuada sobre genética forense para peritos e outros agentes.

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
(Atualizado às 15:40)
Pessoa de costas, com jaleco escrito “Polícia Científica”, operando equipamento automatizado em laboratório da Pefoce, em Fortaleza.
Legenda: Banco de Perfis Genéticos ajuda a resolver crimes sexuais, roubos e casos de pessoas desaparecidas.
Foto: Kid Júnior.

Digitais, saliva, sêmen, traços de sangue e roupas manchadas são algumas amostras que ajudam a solucionar uma série de crimes, além de encontrar pessoas desaparecidas, por meio do DNA. No Ceará, a coleta desses vestígios serve para laudos periciais e vai direto também para o Banco Nacional de Perfis Genéticos (BNPG), onde já foram inseridos até 1º de março deste ano 18.425 perfis. O banco reúne informações de 22 estados e do Distrito Federal, parte da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG).

Nesse último foi sábado (25), foi celebrado o Dia do DNA, em referência ao dia em que, em 1953, os cientistas Francis Crick e James Watson publicaram um artigo na revista Nature, descrevendo a estrutura de dupla hélice do ácido desoxirribonucleico, o que conhecemos atualmente como DNA. 

O DNA é uma molécula presente em todos os seres vivos e encontrada em estruturas celulares obtidas por fragmentos mínimos do corpo. Essas amostras na Perícia Forense servem como ferramenta crucial no uso da genética no trabalho pericial em campo e em laboratórios

Pensando em incrementar os bancos genéticos e educar servidores, entre os dias 14 e 24 de abril, a Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará (Aesp/CE), em conjunto com a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), ministrou, em Fortaleza, o Curso de Genética Forense Básica e Aplicada para agentes de segurança.

Aula de curso de genética forense na sede da Perícia Forense do Ceará com equipe multidisciplinar em sala.
Legenda: Aesp e Pefoce promoveram curso de genética forense básica e aplicada para agentes de segurança.
Foto: Kid Júnior

Em entrevista ao Diário do Nordeste, a perita legista e farmacêutica Tainá Osterno, integrante do Núcleo de Perícia em DNA Forense (NUPDF), informou que as aulas buscam expandir as áreas de conhecimento e atuação da categoria, pois o campo da genética "se atualiza muito rapidamente". Os alunos aprenderam conceitos genéticos básicos e como obter e analisar perfis genéticos, além das regras para a inserção no BNPG.

"Os servidores da Pefoce precisam dessa educação continuada para que o aprendizado deles seja constante, porque sempre temos novos softwares, novos critérios interpretativos e novas metodologias", pontua.

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Osterno explica de que forma o DNA pode ser recolhido em cenas de crimes, e aponta que é um exame complexo, apesar do tamanho dos vestígios. Atualmente, no Ceará, há a coleta de DNA em crimes e em presídios, com o perfil genético de condenados, que é obrigatória por lei.

Perícia da Perícia Forense do Estado do Ceará falando na frente da porta do setor abertura de casos forenses.
Legenda: Análise de DNA é ferramenta crucial do trabalho de peritos.
Foto: Kid Júnior.

"Os perfis genéticos são colocados na rede integrada e os vestígios podem confrontar entre si, ligando casos. Um vestígio de um crime pode dar match (combinar) com o perfil de uma pessoa condenada, colaborando para elucidar alguns crimes. No laboratório, a gente tem a criminologia biológica, os crimes sexuais e as identificações humanas [pessoas desaparecidas]", pontua.

Túlio Oliveira, diretor de Ensino de Perícia da Aesp, e coordenador do Curso de Genética Forense Básica e Aplicada, destacou o caráter técnico e social do curso, e ressaltou que ele é feito em integração com as diversas Forças de Segurança, como a Polícia Militar, a Civil, o Corpo de Bombeiros e Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp). 

"O curso de genética vai muito além da técnica para trazer a justiça às famílias sem resolutividade. O programa de condenados, por exemplo, traz perfis genéticos encontrados de acusados que não tinham sido ainda confirmados e que possam já estar nas unidades prisionais", indica. 

Ceará é 1º lugar em identificação de desaparecidos no Brasil 

Para a perita Tainá Osterno, toda essa cadeia genética, junto com a educação de peritos e outros agentes, "ajuda muito a Segurança Pública". Ela afirma que o foco do Núcleo de DNA Forense é também o trabalho social, com a identificação humana.

Fachada do Núcleo de Perícia em DNA Forense da Pefoce, em Fortaleza.
Legenda: O Núcleo de Perícia em DNA Forense funciona na sede da Pefoce, em Fortaleza.
Foto: Kid Júnior.

Ela explica que a identificação humana é feita a partir de familiares, principalmente os de primeiro grau, como pais, mães, irmãos e filhos. Os parentes doam seus perfis genéticos, que são inseridos no banco nacional e cruzados com os dados de RMNIs. 

O relatório mais recente da Rede Integrada de Perfis Genéticos, divulgado em novembro de 2025, colocou o Ceará no 1º lugar de estados que mais identificam pessoas desaparecidas no Brasil, desbancando São Paulo e Mato Grosso. 

Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, foram feitas 28 identificações a partir do cruzamento genético entre familiares de pessoas desaparecidas e restos mortais não identificados (RMNIs). Nove correspondências foram obtidas pela comparação entre RMNIs e pessoas condenadas na Justiça.

A eficiência do campo no Ceará vem também da tecnologia: desde janeiro de 2025, a Pefoce usa o Spectrum, analisador genético de alta tecnologia, capaz de processar até 384 amostras de DNA simultaneamente e que já é usado no FBI. 

 
Perfis genéticos do Ceará no banco nacional Total
Condenados 13.414 
Coletas por decisão judicial  1.318
Vestígios 1.306 
Referências de pessoas desaparecidas (familiares e referências diretas) 1.268 
Restos mortais não identificados 1.041 
Pessoas vivas de identidade desconhecida 76 
Restos mortais identificados 2

Fonte: Dados de 01/03/26 da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG).

Em 2023, o Estado também foi 1º lugar no BNPG em relação ao cadastro da população carcerária, fruto de parceria entre a Pefoce e a Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP). A quantidade de detentos que tiveram o perfil genético coletado representava 90% de todos os presos com condenação judicial no Ceará. 

A SAP informou ao Diário do Nordeste nesta sexta-feira (24) que, desde quando a lei determinou a coleta de perfis genéticos de condenados, já foram realizadas sistema penitenciário cearense aproximadamente 15 mil coletas de perfis genéticos

Banco de Perfis Genéticos do Ceará é ferramenta estratégica

O Banco de Perfis Genéticos do Ceará, administrado pela perita criminal Teresa Cristina Lima da Rocha, tornou-se uma ferramenta estratégica de apoio às investigações criminais em nível nacional. Ao Diário do Nordeste, a profissional de perícia forense falou da realização de comparações automáticas, feitas semanalmente, entre vestígios encontrados em crimes e perfis de condenados ou suspeitos. 

Quando há uma correspondência exata entre dois perfis, o sistema registra o chamado "match", e as autoridades competentes são acionadas. Teresa comenta que a integração entre os bancos estaduais desvenda vários elementos de crimes como furtos e roubos a bancos, por exemplo.

"Casos de roubo a banco têm muitos matches entre vestígios daqui do Ceará e vestígios de São Paulo, por exemplo. Assim também como crimes sexuais, que dão muito match com condenados, porque é um crime recorrente, né?, explica a coordenadora.

Foto da perita Teresa Cristina, coordenadora do Banco de Perfis Genéticos do Ceará da Pefoce. Ela está sentada em uma mesa com as mãos cruzadas enquanto concede uma entrevista.
Legenda: Teresa Cristina é coordenadora do Banco de Perfis Genéticos do Ceará.
Foto: Kid Júnior.

A perita relembra um caso de um assalto a uma relojoaria em Fortaleza, em que um perito coletou sangue no local e essa amostra ficou no banco por anos, até que foi achada uma combinação na Paraíba. Cristina conta que o estado paraibano havia feito um mutirão no sistema penitenciário, e um condenado que cumpria pena lá havia participado do crime em Fortaleza.

Também são possíveis correspondências entre vestígios de crimes distintos, o que permite à polícia identificar um padrão criminoso e associar diferentes ocorrências a um mesmo autor, mesmo que ele ainda não tenha sido identificado formalmente.

Teresa Cristina pontuou que o volume de perfis inseridos deve aumentar, pois outros estados já estão em preparação para começar a fazer parte da iniciativa nacional. Outro ponto que deve contribuir é a Lei 15.295/2025, sancionada em dezembro de 2025, que torna obrigatória a coleta de DNA de todos os crimes. Anteriormente, só eram coletados perfis de pessoas condenadas por crimes mais graves, como estupro e homicídio, por exemplo. 

Com a expansão do banco e o aumento do volume de perfis inseridos, a expectativa é de que o sistema tenha um papel cada vez mais relevante na elucidação de crimes, na identificação de criminosos reincidentes e no fortalecimento da investigação criminal no Ceará e em todo o País.

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