Aliança entre empresário e CV para controlar provedores deixou escola no Ceará sem internet

Técnicos que tentaram restabelecer o serviço foram ameaçados pela facção criminosa em Caucaia.

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
Montagem com duas imagens: à esquerda, fachada da Escola Estadual Rotary Clube, no bairro São Miguel, em Caucaia, com muro e placa de identificação; à direita, poste com caixas de equipamentos de internet, com destaque em vermelho para uma caixa preta identificada como “Framnet”.
Legenda: Instituição de ensino teve conexão afetada em meio à tentativa da facção de controlar os provedores de internet em bairros de Caucaia.
Foto: Reprodução.

Uma das ações do empresário Francisco Ítalo Bezerra Lima, preso por se aliar ao Comando Vermelho (CV) para extorquir e ameaçar donos de provedores, deixou uma escola pública de Caucaia sem internet desde março, segundo documentos obtidos pelo Diário do Nordeste.

O homem é filho dos donos da empresa de internet FramNet, acusada de estar em conluio com o grupo criminoso, e foi preso ao desembarcar em Fortaleza nessa segunda-feira (20). A reportagem procurou a defesa do empresário, mas não houve resposta até a publicação da matéria.

A operação, baseada em informações de inteligência policial, denúncias anônimas via WhatsApp e depoimentos de testemunhas sigilosas, desvendou que o provedor pagava taxas ou "arregos" entre R$ 10 mil e R$ 25 mil por mês ao CV, segundo documentos da investigação. 

A facção, que busca monopolizar o ramo de provedoras de internet de bairro, teria causado a interrupção do acesso à rede na Escola Estadual Rotary Clube, localizada no bairro São Miguel/Parque das Nações, em Caucaia, na Grande Fortaleza. Técnicos da empresa OndaNet, paga pela Seduc, tentaram reparar os danos, mas teriam sido ameaçados por criminosos

Técnicos foram ameaçados 

De acordo com uma investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), o caso ocorreu no dia 19 de março. Um dos técnicos de internet chegou a desistir do trabalho por medo das ameaças da facção, pois ele morava perto do local. 

Os técnicos tentaram resolver a situação da internet da escola em duas ocasiões, segundo a Polícia: no dia 24 de março e no dia 1º de abril. Ameaças foram realizadas, inclusive, na sede da empresa OndaNet. 

Em nota, a Secretaria da Educação (Seduc) informou que está em processo de implantação do Cinturão Digital para garantir a conectividade na unidade de ensino, mas não citou os ataques a técnicos de reparo.

"A medida visa assegurar que a instituição conte com uma infraestrutura de rede robusta e segura, essencial para o suporte às atividades pedagógicas e administrativas da comunidade escolar", diz nota. 

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Ataques contra provedores

No dia 6 de janeiro deste ano, a organização orquestrou um ataque de grandes proporções que destruiu pelo menos 100 equipamentos que distribuem fibra óptica para o município de São Gonçalo do Amarante e adjacências. O Diário do Nordeste apurou que cerca de três mil clientes foram afetados à época. 

Um empresário, de identidade preservada, revelou que o prejuízo inicial era estimado em quase R$ 250 mil. 

Desde o ano passado, ataques contra provedores em diversas cidades do Ceará acontecem com mais frequência. Caucaia é um dos municípios com mais registros e já foi alvo de algumas ações policiais contra o crime. 

Com o objetivo de coibir a prática criminosa, as Forças de Segurança do Ceará deflagraram a "Operação Strike", que, em quase um ano, já prendeu 100 suspeitos envolvidos, entre eles empresários à frente de provedores clandestinos.

 

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