Histórias de pescador: sobreviver a naufrágio e vencer medo do mar é lida de quem vive das águas

No dia Dia do Pescador, 29 de julho, a trajetória de que tira sustento da pescaria. No Ceará são mais de 55 mil homens e mulheres que vivem da pesca

Legenda: Mulheres se tornam protagonista na atividade pesqueira
Foto: Cáritas/Divulgação

"Tenho orgulho de ser pescadora". A frase com tom de empoderamento é da pescadora Maria Arnelina de Castro Neta, hoje com 41 anos. Há uma década e meia ela iniciou, nas águas do Açude Arneiroz, essa trajetória pioneira em sua família. "Sou a primeira mulher pescadora e me sinto muito feliz assim"

Para celebrar o Dia do Pescador, comemorado neste 29 de junho, o Diário do Nordeste reuniu histórias de pessoas que extraem o sustento das águas e mudam a vida através da pesca.No Ceará, são mais de 55 mil homens e mulheres que vivem do ofício de São Pedro, santo que divide o di ade homenagens.

Para esta mulher pescadora as águas começaram a mudar em 2006. A saúde financeira da família não estava boa e Dona Maria se viu "na obrigação" de ajudar seu companheiro Borges Salviano, que até então pescava sozinho.

"Ele não tinha ajudante, até porque a gente não tinha condições de pagar por um. Mas precisava expandir a pesca, em alguns momentos a gente passava dificuldade em casa, então me senti na obrigação de ajudá-lo", relembra.

Para entrar nas águas não foi fácil. Ela primeiro teve que vencer um grande medo: não saber nadar. Até hoje, revela Maria, ela não aprendeu, mas esse obstáculo não a impediu que ela iniciasse sua trajetória na atividade.

Até então totalmente leiga na pesca, ela diz ter contado com experiência e calma do esposo. "Antes eu só sabia tratar o peixe e ajudava a vender. Já cheguei até a trocar [o peixe] por comida. Mas aí ele foi me ensinando, fui aprendendo e pegando o gosto", detalha a pescadora.

Hoje já solto linha, gelo o peixe, enfim, faço todo o processo sozinha, se for preciso. E tenho muito orgulho disso. Me sinto feliz em poder ajudar em casa e melhorar a condição de nossa família.
Maria Arnelina de Castro Neves
Pescadora

Rotina de pescadora

A rotina dentro das águas começa cedo. Às 5 horas ela e o esposo já estão entrando dentro do reservatório para armar a rede de pesca. O processo é minucioso.

"A gente fica até por volta das 10h, 11 horas". Ao sair do açude, Dona Maria, assim como tantas outras pescadoras, inicia a segunda jornada. "Faço almoço, arrumo a casa, ajeito as coisas dos meninos, tudo isso tem que ser feito até 17 horas". 

Neste horário o casal retorna ao açude para retirar a rede e contabilizar o que fora pescado. 'É chegado a hora de descansar?', pergunto. Dona Maria esboça um sorriso e afirma: "Não temos tempo para isso. Precisamos tratar o peixe e deixar no ponto de vender".

A rotina pesada não é motivo de lamento. "Pelo contrário, é sinal que a gente vai ter dinheiro para criar nossos filhos, dinheiro para colocar comida dentro de casa", comemora Maria, mãe de dois filhos. Eles não pescam. 

Legenda: Pescadores artesanais no açude Realejo, em Crateús
Foto: Cáritas/Divulgação

Superação 

A trajetória de Dona Maria é de superação. A mais complicada, segundo conta, é "nunca ter aprendido a nadar". "Aqui no [açude] Arneiroz tem muito vento e como ele está cheio, acaba formando umas ondas fortes, a canoa balança bastante e o medo de cair é diário", revela. 

Para driblar o medo,  não deixa perder de vista uma imensa boia, feita  'câmara de ar' de pneus. "Sempre a coloco dentro da canoa. Ela e Deus me protegem na pescaria".

Diante da proteção divina, Maria projeta o futuro dentro das águas. Após 15 anos desempenhando a atividade pesqueira, ela diz querer ir além.

"Primeiro eu queria que não houvesse mais preconceito. Muitas pessoas olham para essa profissão com vergonha e não há motivo para isso. Sou muito feliz, tenho orgulho e gostaria que todos entendessem a importância dessa profissão".
Maria Armelina
pescadora

Ela diz que também quero aprender novas coisas todos os dias. "Já aprendi a fazer bolinha de peixe, hambúrguer de peixe. A intenção é aprender a agregar valor ao pescado", ensina.

Há quatro anos a Cáritas Diocesana de Crateús passou a desenvolver atividades de apoio a pescadores e pescadoras da região. A formação continuada realiza cursos, palestras, encontros, oficina de culinária - onde  aprendem a agregar valor ao pescado - e trabalhados artesanais.

Hoje são mais de 800 pescadores e pescadoras associados e engajados no projeto da Cáritas que, no ano passado, foi selecionado como uma das 10 soluções mais inovadoras do Brasil. "[A pesca] mudou não só minha vida, como a de minha família e a de tantas outras aqui que vivem da pesca. Por isso sinto tanto orgulho da minha atividade", conclui Dona Maria. 

Legenda: O jovem Daivid começou a aprender a pescar aos 12 anos de idade, com a supervisão de pescadores mais experientes do Arneiroz
Foto: Arquivo Pessoal

Nova geração

O "preconceito" e "resistência" aos quais Maria Arnelina se refere não se encaixam à trajetória do jovem Daivid Quitério Lô, de apenas 15 anos. Há três ele começou a dar seus primeiros passos na atividade, sob a supervisão de um pescador experiente na região. 

Comecei a pescar de anzol com 12 anos. De lá pra cá não mais parei. É minha grande paixão e quero evoluir cada vez mais.
David Quitério
Jovem-aprendiz

A evolução veio. Ainda na condição de jovem-aprendiz, Daivid hoje pesca em canoas, nos açudes de Arneiroz. Acompanhado de pescadores mais velhos, ele se mostra feliz com o aprendizado e revela querer seguir a profissão do pai. 

Durante a pandemia, com a suspensão das aulas presenciais, Daivid conta que tem passado a maior parte do tempo pescando. "Saio de casa às 5 horas da manhã e, a tarde, retorno para buscar a rede de pesca". Neste intervalo, ele estuda e cumpre as atividades escolares.

Sobre o futuro, o jovem mostra maturidade na resposta: "quero viver da pesca. É um ambiente em que me sinto bem, sei que poderei sustentar minha futura família, além de ser um trabalho digno e honesto". 

Legenda: No Ceará, a maioria dos pescadores se concentra em 26 cidades do Estado, entre elas Icapuí e General Sampaio.
Foto: Natinho Rodrigues

Sucessão ameaçada

As águas salgadas do mar de Icapuí, cidade do litoral leste cearense, foram responsáveis pelo sustento de três gerações da família Freitas. O pescador Evânio Santos de Freitas, conhecido como Rui, aprendeu a pescar aos 13 anos, com seu pai, Pedro Germano. Ele, por sua vez, teve como 'mestre', o avô de Rui, Seu Nieli, experiente e respeitado pescador no Município há quase um século.

A sucessão para a quarta geração familiar, no entanto, é incerta. Rui conta que "as águas já não estão para peixe", como antes. No início da atividade, há quase 30 anos, ele relembra que o valor apurado advindo da pesca era suficiente para "qualquer pescador criar sua família, hoje já não é mais possível".

Tenho um filho de três anos e uma menina de seis. Não sei se quero que eles sigam essa mesma profissão. Acho que se continuar assim, a tradição familiar será quebrada.
Evânio Santos de Freitas
Pescador

Hoje Rui conquista cerca de um salário mínimo, mas confessa que alguns de seus amigos não "conseguem apurar nem 600 reais". Para complementar a renda da pesca, Rui faz artesanato com materiais recicláveis e também realiza esporadicamente trabalhos como pintor. 

A queda na renda dos pescadores de lagosta do litoral cearense deve-se, segundo ele, a pesca ilegal, feita com equipamentos de mergulho, chamados de compressores de ar, o que é proibido por lei.  "A lagosta sumiu. A gente tem pescado só água", aponta Evânio.

Legenda: Rui é pescador artesanal. Vai ao mar com manzuá, uma espécie de gaiola feita para capturar lagosta
Foto: Natinho Rodrigues

O que conseguimos em dois, três meses, eles (pescadores ilegais) conseguem em poucos dias. Além do prejuízo, há também o impacto ambiental. A lagosta não consegue se reproduzir, está sumindo do litoral.
Evânio Santos de Freitas
Pescador

Em um dia considerado "bom", Rui consegue tirar do mar cerca entre 10kg a 15 kg de lagosta, "Há uns dez anos era cinco vezes mais do que isso", rememora. 

Perigos ao mar

Evânio Santos compartilha com Maria do medo das águas. Motivo pelo qual se soma à resistência de ensinar o ofício ao seu filho. "A gente sai de casa 4 da manhã e, dependendo do vento, voltamos 5 ou 6 da tarde. Às vezes, é preciso dormir no mar. Em dias de ventos fortes, é bem perigoso", conta.

As embarcações utilizadas na pesca artesanal são de pequeno porte e movidas a vento. Em quase três décadas de pescaria, Rui já vivenciou seis naufrágios.

"Em um deles, ainda quando era jovem, tive que nadar por mais de 5 horas. Só me salvei porque era jovem, tinha fôlego. Fosse hoje, não teria sobrevivido", avalia. Em outro episódio, conta que um dos pescadores ficou preso ao barco "e foi salvo por milagre".

Legenda: Os barcos utilizados pelos pescadores artesanais do litoral cearenses são, em sua maioria, movidos ao vento
Foto: Natinho Rodrigues

Risco de naufrágios, noites dentro de pequenos barcos e pouca renda. Tripé que seria suficiente para fazer desistir da profissão, não para o experiente pescador.

"Nossa história de vida se confunde com a pesca. Mesmo diante tudo isso, não me arrependo da minha profissão e, mais, digo que amo o que faço. Me sinto bem. Sei que poderia ser melhor, sei que se houvesse fiscalização da polícia para coibir a pesca ilegal ou apoio do governo para pagar um auxílio, a gente viveria melhor, mas mesmo assim, amo ser pescador", finaliza. 

SAIBA MAIS

A data 29 de junho celebra-se o Dia de São Pedro, apóstolo de Jesus que era pescador. O Santo virou padroeiro dos pescadores e, por esta razão, a data foi escolhida para comemorar o dia do pescador. Para os mais devotos, São Pedro representa proteção aos pescadores e boa pescaria.

No Ceará são inúmeras as possibilidades da pesca. A atividade é realizada em água salgada e doce - açudes e rios - e dentre as várias modalidades, destacam-se a pesca artesanal, marítima e industrial. No Estado, segundo a Federação dos Pescadores do Ceará (FEPESCE), mais de 55 mil profissionais sobrevivem da atividade pesqueira.

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