Escultor cria obras de arte a partir de sucata no interior do Ceará; veja imagens

Inspirado na infância, quando criava seus próprios brinquedos com flandre, Edismar Arruda hoje cria animais em tamanho real com sucata de ferro

Escultor cearense cria réplicas de animais em tamanho real
Legenda: Escultor cearense cria réplicas de animais em tamanho real
Foto: Arquivo pessoal

Elefante, girafa, leão, peixe, cavalo, entre outros animais. Todos em tamanho real. O que começou como hobby, se tornou a principal fonte de sustento de Edismar Arruda, morador de Jaguaribara, interior do Ceará. O sucesso como artesão o fez largar o trabalho de metalúrgico em uma empresa e se dedicar às esculturas. 

A história de Edismar começou em 2001, quando os moradores da antiga Jaguaribara foram removidos de suas casas, que seriam inundadas pelo Açude Castanhão. Enquanto as águas colocaram um fim na trajetória de dezenas de famílias naquele lugar, para o jovem de até então 14 anos, o recomeço também significava uma oportunidade. 

Na nova cidade, ele conseguiu um prometido emprego de ajudante de mecânico. Mais que o salário de R$ 60 mensais, aquele ofício representava a primeira experiência que o ajudaria a se tornar um talentoso escultor de ferro. 

Legenda: Escultura de elefante demora cerca de três meses para ficar pronta
Foto: Arquivo pessoal

Infância

Seu pai, canoeiro e agricultor, e sua mãe, lavadora de roupas e agricultora, tiveram oito filhos na antiga Jaguaribara. Apesar de não passar dificuldades, como admite Edismar, sua vida não foi fácil. As roupas eram divididas entre os irmãos. Seus brinquedos, ele mesmo fabricava com flandre. 

“Como fabricava as coisas, tinha vontade de trabalhar em uma oficina. Foi aí que fui atrás de um emprego”, lembra o escultor. Na antiga cidade do interior, ele vendia dindin nas ruas desde os 12 anos. Ali, conheceu um mecânico e pediu-lhe um trabalho. “Não posso lhe empregar, porque as coisas são poucas, mas prometo que quando chegar na nova Jaguaribara, arrumo emprego pra você”, foi o que ouviu. 

Legenda: Escultura de cavalo criada por artista cearense
Foto: Arquivo pessoal

Assim que a nova Jaguaribara - cidade planejada - foi inaugurada, Edismar correu atrás do que lhe foi prometido. Conseguiu. Aos 14 anos, mantinha uma rotina de trabalhar e estudar na oficina mecânica. Lá, desenvolveu a técnica que hoje garante sua renda: soldar. 

Ao completar 18 anos, decidiu ir para São Paulo, tentar a sorte como muitos retirantes cearenses, em busca de uma renda melhor. Na mesma época, oportunidades de emprego foram abertas com as obras do Eixão das Águas - canal responsável por levar as águas do maior reservatório cearense até a Região Metropolitana de Fortaleza. 

Com currículo de baixo do braço, Edismar se arrumou todo para a entrevista para trabalhar na construtora responsável pelo Eixão. Lá, outros 30 rapazes lutavam pelas 17 vagas na firma. Enquanto o engenheiro explicava que o serviço era “muito pesado”, como lembra o artesão, os concorrentes iam desistindo. “Eu já estava desanimado e fui o primeiro a ser chamado”.

Ao entrar na sala de entrevista, a frustração foi ainda maior: de estatura baixa e magra, logo constataram: Edismar não aguentaria o trabalho. Já preparado para ouvir um “não”, outro funcionário da empresa interviu: “Você sabe o tamanho de um jumento? Não é baixinho? Existe animal mais trabalhador que um jumento?”, provocou ao engenheiro que conduzia a entrevista. 

Legenda: Artista cearense faz obras de animais no interior
Foto: Arquivo pessoal

A constrangedora analogia foi suficiente para empregá-lo. Lá, ele permaneceu por sete anos, inclusive saindo do serviço pesado de carregamento de areia para o cargo de soldador. “Se enganaram com minha aparência”, brinca o escultor, ao lembrar o episódio. 

Metalúrgica e começo do sonho

Com o dinheiro ganho na construtora, comprou um terreno e montou sua própria metalúrgica, onde trabalhava aos domingos, enquanto mantinha o seu emprego. Com o ganho de clientes, largou definitivamente o cargo de soldador e se dedicou ao seu próprio negócio. 

Foi na sua metalúrgica que em momento de inspiração, relembrou sua infância e fabricou uma miniatura de uma moto com sucata. Não satisfeito com a pequena réplica, deixou largada em sua oficina. “Não gostei, sinceramente”, admite. 

Entretanto, um cliente se interessou pela pequena escultura e provocou Edismar. “Tem gente que só vive disso, rapaz. Isso é arte de sucata”, sentenciou. “Aí eu fui pesquisar mais sobre isso e me encantei com o que vi”, lembra. Nisso, Edismar começou a fazer miniaturas de animais e pessoas com 30 centímetros. 

As miniaturas o levou às feiras da Central de Artesanato do Ceará (Ceart), mas as vendas eram pequenas. “Cansei de participar, ir e voltar em carro próprio sem vender nenhuma peça”. Tudo mudou com um jacaré em tamanho real feito de correntes, deixado na loja da Ceart. “Um dia, o telefone tocou. Ele viu a peça e queria comprar. Como lá tem muita visita, ofereci um segundo jacaré. Ele gostou e já veio comprando nove peças”. 

Legenda: Cearense faz obras de arte no valor de até R$ 45 mil em Jaguaribara
Foto: Arquivo pessoal

A criação

O sucesso do jacaré despertou seu desejo por peças maiores. Hoje, Edismar fabrica, por exemplo, um elefante de três metros de altura e duas toneladas. Já sua girafa, alcança quase cinco metros de altura e 1,2 tonelada. Um vídeo de seu trabalho ganhou as redes sociais neste mês e, desde então, vem recebendo dezenas de pedidos. “Ainda não caiu a ficha”, confessa. 

Dependendo da escultura, o processo de criação é demorado. Um leão, como exemplifica, pode ficar pronto em dois meses. O elefante demora cerca de três meses. Antes de tudo, Edismar imprime as imagens, faz as medidas e desenha no chão. Em seguida, faz um contorno com ferro e vergalhão, estrutura que, assim como um prédio, possa sustentar as duas toneladas. “Aí saio fazendo a linhagem do animal, os contornos e saio preenchendo com peças automotivas”, explica o artesão. 

Cerca de 90% do seu trabalho são com sucatas de peças automotivas, mas também utiliza resto de construção, pregos e até mesmo faca, garfo ou colher. “O ferro em geral que encontrar, que vejo que dá pra soldar”. Todo processo de soldagem é feito com eletrodo revestido e para o acabamento ficar mais bonito, como os detalhes de um olho, por exemplo, faz os traços com micro retífica. 

O sucesso das obras de Edismar o fez entregar nessa segunda-feira (11) seu último trabalho como metalúrgico. “Não vou mais fazer, porque a demanda de escultura ficou enorme”. Ao seu lado, outros três funcionários, que antes realizavam serviços como a fabricação de portões e grades de ferro, agora trabalham erguendo leões, girafas e touros de metal. “Futuramente, podemos ter mais três artistas”, comemora o escultor. 

Seu sonho, porém, é criar um parque temático em Jaguaribara só com suas peças. "Que as pessoas venham, tragam sua família, tirem foto”, projeta. Além disso, deseja viajar para outros lugares do Brasil e do mundo, visitando outros artistas plásticos que admira, como Rodrigo Gallo, Leandro Melo e Kifer Ferraz. “A partir de hoje, vou só trabalhar com escultura”, diz animado. 

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