Entenda quais fatores elevam as chances de êxito do 'lockdown' no combate à pandemia da Covid-19

Ceará tem 5 cidades em isolamento social rígido. Medida é considerada radical, por especialistas, mas necessária para conter a transmissão da doença.

Legenda: Lavras da Mangabeira foi um dos municípios que adotaram o isolamento social restritivo.
Foto: Divulgação

Lavras da Mangabeira, Baturité, Capistrano, Pacoti e Quixadá. São essas as cinco cidades cearenses que decretaram, diante do aumento vertiginoso de infecções, isolamento social rígido. Ao justificaram a implantação do lockdown mesmo após a flexibilização do decreto estadual, gestores argumentaram que a decisão tinha por objetivo central frear a transmissão dos casos. Mas, até que ponto o isolamento restritivo é eficaz? Quanto tempo ele deve durar? Quais fatores aumentam a chance de êxito?

O Diário do Nordeste conversou com três especialistas que elucidam essas questões. Entre esses profissionais, há uma unanimidade: quando bem feito, o lockdown é sim bastante eficaz contra a disseminação do novo coronavírus.

Pesquisas científicas, realizadas em todo o mundo, corroboram a avaliação dos especialistas ouvidos por nossa reportagem e desnudam as elucubrações contrárias à medida. Um desses estudos, publicado na revista Nature, estima que três milhões de vidas tenham sido salvas pelas restrições realizadas em 11 países europeus. 

Lockdown efetivo precisa durar, no mínimo, 15 dias

Das cinco cidades cearenses que atualmente estão com lockdown vigente, nenhuma delas terá duração de 15 dias. Este ínterim, segundo a virologista, epidemiologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Caroline Gurgel, seria o tempo mínimo recomendado para que o isolamento social rígido começasse a surtir efeito, na prática.

A professora universitária e epidemiologista da Associação Brasileira de Epidemiologista de Campo (ProEpi), Daniele Queiroz, também avalia que "para que a cadeia seja quebrada e ocorra redução real da transmissão, são pelo menos duas semanas de total isolamento". 

O epidemiologista Antônio Lima concorda que o tempo "de resposta" adequado surja após um período que varia de 15 a 21 dias, mas, ele pondera que este "tempo é empírico".

"Para as pequenas cidades, cuja população é bem reduzida, um isolamento rígido de dez dias, por exemplo, pode trazer resultados. Claro que o ideal seria um tempo um pouco maior, mas devemos sempre observar caso a caso. Em grandes metrópoles, como Fortaleza, é diferente. O isolamento tem que ser por mais de duas semanas para que impacte na redução da transmissão comunitária", avalia.

Esse é o mesmo entendimento da secretária da Saúde de Lavras da Mangabeira, Giancarla Queiroz. O Município entrou em lockdown por dez dias - a medida se estende até o próximo domingo (25) - e na avaliação da gestora "este tempo é suficiente". Questionada se em apenas 10 dias a taxa de transmissão já teria uma queda, Giancarla respondeu afirmativamente. Caroline Gurgel discorda.

Lockdown deveria ser regionalizado

Para a docente, o período de dez dias, como é o caso de Lavras da Mangabeira, é muito curto para que se possa colher bons resultados. Ela acrescenta, ainda, um agravante: a não regionalização do lockdown. "Não adianta nada isolar uma cidade, enquanto o município vizinho está com as atividades liberadas. Isto acaba possibilitando um trânsito intenso entre as cidades e, consequentemente, transmissão do vírus".

Infelizmente vejo que essas cidades estão fazendo um esforço muito grande, mas que não terá o resultado esperado.
Caroline Gurgel
Virologista

A professora universitária Daniele Queiroz acrescenta que outro ponto fundamental para as medidas serem efetivas, é o engajamento da população em medidas sanitárias quando precisar sair de casa.

"Se a pessoa precisar realmente sair de casa, que ela adote todas as medidas preventivas. Mantenha o distanciamento, utilize duas máscaras e faça a higienização frequente das mãos. Essas precauções ajudam a evitar o risco do vírus ser transmitido".

Redução do fluxo de pessoas

O epidemiologista Antônio Lima reforça que quando se faz lockdown, o ideal é reduzir o fluxo de pessoas em 70%. No entanto, ele ressalta que com índices menores, como os observados no Ceará, também é possível obtenção de resultados, embora numa escala menor.

Aqui no Ceará a queda no fluxo ficou em torno de 50%. Não é dentro do ideal, mas já traz alguns resultados, pois reduz em alguma medida a transmissão comunitária e assim quebra a sobrecarga nos hospitais, já que os casos diminuem.
Antônio Lima
Epidemiologista

Essa ainda alta circulação de pessoas, acrescenta Lima, "deixa o isolamento social realizado em todo o País distante do que foi feito na Europa, como em Portugal e Inglaterra. Quando a gente compara esses dois cenários, vemos que aqui [no Ceará] não é propriamente classificado como lockdown".

Uma das justificativas para essa adesão aquém do ideal seria a falta de incentivos financeiros. "Não posso simplesmente pedir para os mais vulneráveis ficarem em casa sem, em contrapartida, garantir um auxílio emergencial. Sem essa apoio, muitos acabam indo para rua em busca do sustento, o que eleva o nível de circulação de pessoas", aponta Antônio Lima. Caroline Gurgel corrobora a análise.

"Sem apoio [financeiro] é quase impossível conquistar a adesão da população. Por isso que nesta segunda onda, com a redução do auxílio emergencial para um valor que eu acredito ser irrisório, tivemos baixas taxas de adesão ao lockdown", destaca. 

Soma de fatores

Embora reconheçam a eficácia do lockdown, os especialistas advertem que ele não é a solução para conter a pandemia. Para Antônio Lima, deve existir uma soma de fatores. "Isolamento social rígido é feito em última instância. É uma medida emergencial. O importante é vacinação rápida e em massa", pontua. 

"A própria Europa já demonstrou que o lockdown sozinho não resolve. Quando as atividades econômicas eram liberadas, o vírus voltava a circular novamente. Por isso o isolamento por lá foi feito várias vezes. A solução é a vacinação e de forma anual, como ocorre com a Influenza. Desta forma, estaremos contendo as variantes que possam surgir", conclui Gurgel.

Daniele Queiroz finaliza que o lockdown deve ser utilizado "como ultima estratégia", quando nenhuma outra alternativa conseguir conter a transmissão do vírus ou quando o sistema de saúde estiver ameaçado de colapsar. "É uma medida radical e efetiva especificamente neste cenário".

Quatro cidades em lockdown

Lavras da Mangabeira decretou isolamento social rígido após um surto de casos, sendo 269 novas infecções em um intervalo inferior a uma semana (15 a 20 de abril), o que representa um acréscimo de 17%. Ao todo, conforme dados do Município, já são 1.842 infectados e 33 óbitos. 

Em Baturité, são 2.173 casos e 50 óbitos, conforme dados do IntegraSus, plataforma oficial da Sesa. A média móvel no Município atingiu o pico no último dia 16, chegando a 27,71. Na primeira onda, o pico tinha sido em 11 de maio, quando a média móvel de casos chegou a 11.

Já na cidade de Capistrano, 1.464 infectados e 25 mortes. A média móvel no Município chegou a 19, no dia 7 deste mês, a mais alta desde o início da pandemia. Em Pacoti, são 773 casos e dez mortes. A média móvel de novos casos chegou a 11,42, o dobro do pico registrado na primeira onda.

Em Quixadá, conforme o IntegraSus, no último dia 17 foi atingida a segunda maior média móvel de casos desde o início da pandemia (42,57). O número só fica atrás da média móvel do dia 21 de maio do ano passado: 50,57. Ao todo, já são 6.102 infecções na cidade e 105 óbitos. Somente neste mês de abril, a cidade já registrou 685 novos casos. Em abril do ano passado, ao longo de todo o mês, foram 121.

 

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