Cidade do Ceará é a 1ª do Nordeste com água encanada para 100% dos moradores

O investimento para alcançar a universalização foi de mais de R$ 9 milhões

Maria Marques, moradora do sítio são José
Legenda: "Durante toda a vida, a gente pegava água no balde para levar para dentro de casa, mas agora tem na torneira e dá para lavar a louça, a roupa", comemora Maria Marques, moradora do sítio São José
Foto: Divulgação

A universalização do acesso à água encanada ainda é um desafio no Ceará, onde cerca de 9% da população não tem acesso direto ao recurso em suas moradias, segundo dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Só recentemente, o Estado passou a ter uma cidade fornecendo água tratada para 100% dos moradores: Guaraciaba do Norte.

O município localizado na Serra da Ibiapaba é o primeiro da Região Nordeste a alcançar este feito, segundo a Fundação Nacional de Saúde (Funasa). O investimento para alcançar a universalização foi de mais de R$ 9 milhões. O Ceará tem cerca de 840 mil pessoas sem água encanada, algo em torno de 230 mil famílias.

A universalização do acesso à água encanada em Guaraciaba do Norte se deu a partir de uma parceria firmada entre a gestão municipal, o governo do Ceará e a Funasa, ainda em 2017. O acordo permitiu que as últimas 23 localidades desassistidas pudessem implantar sistemas localizados e, quatro anos depois, 3.247 famílias na zona rural recebessem água em suas casas.

Jucicleia Souza, moradora do sítio Canto
Legenda: No sítio Canto, Jucicleia Souza disse que, antes, os moradores da localidade pegavam água na carroça e enchiam os baldes dentro de casa. "Agora a gente não toma mais banho de cuia, é no chuveiro”
Foto: Divulgação

A alegria de quem tem água na torneira

A dona de casa Maria das Graças Oliveira, moradora da localidade ‘Lagoa dos Silvanos’, afirmou que antes do projeto "era preciso todos os dias ir buscar água em açude ou poço”.

Lá, a implantação do sistema local de abastecimento pôs fim a uma cena diária e ainda comum na maioria do sertão cearense: a lata d’água na cabeça. “Digo com alegria que a nossa vida melhorou, porque temos água nas nossas torneiras para cozinhar, lavar e tomar banho”.

No São José, a dona de casa Maria Marques também conta que, “durante toda a vida, a gente pegava água no balde para levar para dentro de casa, mas agora tem na torneira e dá para lavar a louça, a roupa”.

No sítio Canto, Jucicleia Souza disse que, antes, os moradores da localidade pegavam água na carroça e enchiam os baldes dentro de casa. Com a chegada da água na rede domiciliar e nas torneiras, comprou uma pia e um chuveiro. “Tá diferente, melhor, agora a gente não toma mais banho de cuia, é no chuveiro”.

O aposentado Francisco Souza, da localidade de Garrancho Novo, comparou que “quem mora no conforto da cidade não imagina como é viver no campo, sem água encanada, tendo que ir buscar para todos os gastos, e eu vivi isso por toda a minha vida, mas agora posso dizer que tenho água boa, limpa, dentro da minha casa”.

Na Vila Bom Tempo, Alaída Silva conta que agora aproveita a água na torneira para aguar um canteiro de hortaliças. “Agora temos água boa e esperamos que não falte mais”.

“Hoje todos os moradores, tanto da área urbana, quanto rural, têm acesso a água tratada”, pontuou o prefeito Adail Machado. “Investimos recursos próprios, priorizamos essa ação e buscamos parcerias com os governos estadual e federal”, comemora.

Saúde pública e economia

O assessor técnico da Associação dos Municípios do Ceará (Aprece), Nilson Diniz, que também é médico, observa que o abastecimento de água é um dos pilares do saneamento básico, juntamente com a coleta de lixo, esgotamento sanitário e drenagem de águas pluviais. 

Há um aspecto de saúde pública e econômico porque reduz o número de doenças infecciosas do trato gastrointestinal em crianças, idosos e em trabalhadores, evitando a falta ao trabalho”, pontuou. “Abastecimento de água é uma estrutura básica e obrigatória”
Nilson Diniz
Médico e assessor técnico da Aprece

Diniz também condena o "atraso histórico" na garantia de água encanada para todos. 

“Temos um atraso histórico, um déficit a ser superado nesse setor, e entendemos que todos os esforços para levar água tratada às famílias são importantes e necessários”, afirmou Diniz. “A Aprece orienta aos gestores buscarem parceria e investirem em saneamento básico para melhoria da qualidade de vida dos moradores e evitar doenças de veiculação hídrica, como diarreia e verminoses, que são comuns onde não há água tratada”.

Para o diretor de Operações do Interior da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), Hélder Cortez, “o marco alcançado em Guaraciaba do Norte é histórico e deve ser buscado por outros gestores”.

Alaída Silva, Vila Bom Tempo
Legenda: Na Vila Bom Tempo, Alaída Silva conta que agora aproveita a água na torneira para aguar um canteiro de hortaliças
Foto: Divulgação

Ausência de políticas públicas

O entrave é a falta de políticas públicas que priorizem essa busca. O programa ‘Água para Todos’, que previa a universalização do abastecimento de água do País, foi extinto após o governo da presidente Dilma Rousseff e não houve implantação de uma nova ação por parte do governo federal. 

No âmbito estadual, não há programa específico  voltado para o abastecimento de água nos municípios, mas o governo do Estado busca financiamentos em organismos internacionais para implantação de projetos de distribuição de água tratada com rede domiciliar. 

Abastecimento domiciliar no Ceará

No Ceará, segundo o IBGE e o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, o número de pessoas com abastecimento domiciliar é de aproximadamente 7,5 milhões, sendo 6 milhões pela Cagece, 600 mil pelo Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar) e 925 por Serviços Autônomos de Água e Esgoto SAAE's.

Há ainda cerca de 400 mil famílias com abastecimento de forma difusa por meio de cisternas e por distribuição em caminhões-pipa, que nesta modalidade têm número variável, dependendo do período.

De acordo com a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), 99.535 famílias são beneficiadas com cisternas, ou seja, cerca de 363 mil pessoas. O Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) estima em 162 mil pessoas atendidas pela Operação Caminhão Pipa e Defesa Civil do Estado atende cerca de 17 mil famílias em áreas urbanas.

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