Após treinamento, capacetes Elmo começam a ser utilizados contra a Covid-19 no interior do Ceará

Equipamento reduz em 60% a necessidade de intubação

Capaceto Elmo
Legenda: A ideia do Elmo surgiu em abril de 2020 e o desenvolvimento do capacete ocorreu ao longo dos meses seguintes
Foto: Camila Lima

O capacete Elmo, uma tecnologia desenvolvida no Ceará, começa a ser utilizado em maior escala em hospitais do Interior, como novo aliado no tratamento de pacientes com Covid-19 e que necessitam de oxigenação. A avaliação de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e pacientes é positiva. A prática mostra bons e rápidos resultados de recuperação.

Um exemplo vem do Cariri cearense. João Vítor Gonçalves Bernardo, 24 anos, procurou atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) com queixa de desconforto respiratório e necessidade de oxigênio suplementar e foi transferido para o Hospital Regional do Cariri (HRC), onde foi o primeiro a utilizar a nova tecnologia de respiração assistida lá.

Em 48h de uso do Elmo, João teve rápida e significativa melhora.  “Cheguei muito mal, mas depois do uso do capacete, posso dizer que melhorei 80% e me sinto mais disposto, já estou me alimentando melhor e confiante que receberei alta”, contou.

Expansão do uso no Estado

Inicialmente, o capacete Elmo foi utilizado em Fortaleza, mas agora reforça os meios alternativos no enfrentamento à Covid-19 no interior cearense. O treinamento a profissionais do interior começou na segunda quinzena de fevereiro passado, nos hospitais regionais Norte, em Sobral; do Cariri, em Juazeiro do Norte; e do Sertão Central, em Quixeramobim.

A capacitação inicial é feita por técnicos da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE). Depois, equipes locais tornam-se replicadores do treinamento para uso do equipamento. Foi o que ocorreu esta semana no Hospital Regional de Iguatu (HRI).

A capacitação foi feita para profissionais que trabalham nos hospitais São Vicente (particular) e Agenor Araújo (filantrópico), que têm leitos de enfermaria e de UTI para pacientes com Covid. Cada uma das unidades, recebeu quatro capacetes.

Evitando a intubação

A fisioterapeuta Alexssandra Leandro usou o capacete no treinamento e observou que “há um leve desconforto inicial porque a pessoa fica nervosa e as frequências respiratória e cardíaca aumentam, mas logo vai aliviando”. Ela disse ser possível com o capacete Elmo o paciente “conversar, beber água e até se alimentar”.

Para o fisioterapeuta Toni Pereira que trabalha na UTI do HRI, o equipamento é uma novidade que traz avanços e ganhos para os pacientes por evitar intubação. “Tudo que é desconhecido traz dificuldade inicial e eu acredito que teremos mais treinamento”, pontuou. “Mas é simples a sua técnica de uso”.

A diretora do Hospital Regional de Iguatu, Glícia Alencar, observou que os profissionais locais foram treinados por tutores da ESP/CE e agora repassam a capacitação para outros enfermeiros, fisioterapeuta e médicos dos hospitais particulares e filantrópicos que dispõem de ala para atendimento de pacientes com Covid-19.

“Pacientes com quadro leve e moderado recebem mais oxigênio por meio do Elmo de forma precoce, nas enfermarias, e evitam ir para leitos de UTI, que já estão lotados”, afirmou Glícia Alencar. “Nessa segunda onda, em que a taxa de ocupação é alta, o Elmo apresenta grande vantagem e é uma boa alternativa”.

Outro paciente que experimentou e aprovou o Elmo foi Cícero Bezerra de Oliveira, 42 anos, que chegou a ser internado no Hospital Regional de Icó, que integra a macrorregião do Cariri. Ainda com dificuldades para falar, pontuou: “Graças ao capacete, consegui voltar a respirar e estou melhorando”. 

Elmo
Legenda: O Elmo deve ficar acomodado ao pescoço do paciente, não apresentar vazamento, permitindo ofertar oxigênio a uma pressão definida ao redor da face, sem necessidade de intubação
Foto: Fabiane de Paula

Região Norte

Em Sobral, a enfermeira do Hospital Regional Norte, Denise Martins, disse que “participar do treinamento foi de suma importância porque o capacete Elmo é uma esperança, pode evitar agravamentos da doença, especialmente a intubação de pacientes”.

A enfermeira Ana Carolina Mesquita Moraes foi capacitada, no início deste mês, e hoje coordena o setor de educação permanente no Hospital Regional Norte. “Temos uma equipe que dá continuidade ao treinamento de outros profissionais – médicos, enfermeiros e fisioterapeutas sobre o uso do capacete Elmo”, explicou. “É uma ferramenta mais simples, não invasiva, que em muitos casos substitui a necessidade de intubação, ventilação mecânica, dando mais conforto aos pacientes”.

Animada com os resultados do capacete Elmo, em pacientes do HRN, Carolina Moraes afirma que em muitos casos, após duas, três, de uso do equipamento já se observa “rápida e boa evolução do paciente nos parâmetros de gasometria (oxigenação) e no semblante”.

O uso do Elmo segue critérios técnicos e definição,segundo avalição do médico e o perfil do paciente. “Há casos em que é indispensável a intubação direta”, pontua Carolina Moraes.

A tecnologia exige central de esterilização e seu uso, geralmente, não se prolonga por mais de 12 horas. Há revezamento com a colocação da máscara facial de oxigênio.

Redução de 60% na internação em UTIs

Os três hospitais regionais do governo do Estado receberam da ESP/CE dez capacetes, cada um, para a utilização nos pacientes dos setores Covid-19. Os testes clínicos realizados com o equipamento mostraram que o uso do Elmo pode diminuir em até 60% a necessidade de internações em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

A fisioterapeuta do HRN Leyliane Diógenes esclareceu que entre os critérios a serem avaliados para uso do capacete Elmo “está o índice de oxigenação no sangue”. Ela pontuou que “o Elmo expande o pulmão do paciente, evitando uma intubação”.

Os fisioterapeutas fazem a monitorização nos pacientes “para avaliar se a terapia está tendo o efeito esperado, se o paciente está bem adaptado e se o quadro clínico registrou melhora”.

Equipe

Andréa Braide, da ESP, reforça que “para que o paciente esteja apto a fazer uso do Elmo, ele precisa estar acordado, orientado e ser participativo”. Sobre as capacitações, a técnica esclarece que “o treinamento é feito com todo o suporte educacional com base na simulação realística, prepara os profissionais tanto para a seleção dos possíveis candidatos a uso do capacete, como para agir em caso de intercorrência”.

Andréa Braide, PhD em Saúde Pública, destaca ainda a importância de toda a equipe multiprofissional ter conhecimento do funcionamento do equipamento. “Esse é um momento que exige muito de todos os profissionais. Nesse treinamento, estamos qualificando médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e engenheiros clínicos”.

Para Andréa Braide, “quanto mais cedo identificarmos pacientes aptos a fazer uso do Elmo, menor a chance desse mesmo paciente necessitar de uma UTI e de uma intubação”.

Doações

A Sesa já recebeu 1.062 unidades do capacete Elmo por meio de doações com o objetivo de distribuir à rede pública de saúde de todo o Estado. Além disso, técnicos da ESP treinaram mais de 650 profissionais de saúde.

As doações foram articuladas pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Esmaltec, empresa do Grupo Edson Queiroz que fabrica o aparelho em larga escala.

“Nosso propósito é contribuir com soluções acessíveis e confiáveis para o bem-estar da sociedade, portanto faz parte do nosso jeito de ser e de como entendemos o nosso papel”, disse o diretor superintendente da Esmaltec, Marcelo Pinto. “As doações representam um esforço coletivo que reflete a capacidade solidária que temos em contribuir com a sociedade”.

Do total recebido, mais de 800 unidades já foram distribuídas no Ceará neste ano. A pedido de governos estaduais, 65 Elmos foram repassados em caráter solidário para hospitais do Amazonas e 40 para unidades hospitalares do Maranhão.

O presidente da ESP/CE, Marcelo Alcantara, frisou que “o Elmo é resultado, desde de sua concepção, de união e solidariedade”. Para ele, “as doações têm permitido a capacitação de profissionais, que saem prontos para utilizar o equipamento corretamente, da indicação ao seu manejo, e salvar vidas nas unidades de saúde.

As formações possibilitam aos treinados o desenvolvimento das competências técnica e educacional para manejo adequado do aparelho e para que se tornem multiplicadores do aprendizado aos demais profissionais que atuam na linha de frente no combate à Covid-19.

Elmo
Legenda: 65 Elmos foram doados para hospitais do Amazonas e 40 para unidades hospitalares do Maranhão
Foto: Reprodução

Amazonas e Maranhão

Além do Ceará e do Amazonas, o capacete de respiração assistida Elmo será utilizado em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) no Maranhão. O treinamento para profissionais de saúde maranhensescomeçou na terça-feira (23).

A capacitação será feita por duas instrutoras da ESP/CE. A fisioterapeuta Lídice Holanda e a enfermeira Rebeca Bandeira – que já havia participado de missão voluntária semelhante em Manaus – são responsáveis pelo treinamento.

A meta é possibilitar que 70 médicos, enfermeiros e fisioterapeutas tornem-se aptos para tratar pacientes com insuficiência respiratória com a terapia do Elmo e sejam ainda multiplicadores das formações para outros profissionais de saúde.

“Temos expectativas maravilhosas em levar informações sobre o capacete Elmo para os profissionais do Maranhão. Isso significa ajudar o nosso País, além de valorizar uma tecnologia criada no Ceará para levar saúde a quem está precisando”, avaliou Lídice Holanda.

O Maranhão recebeu a doação de 40 capacetes. “Fazemos os treinamentos para que os profissionais estejam cada vez mais aptos para a aplicação do capacete, contribuindo para salvar vidas”, disse Rebeca Bandeira.

Projeto

O projeto do equipamento Elmo foi idealizado e desenvolvido pelo governo do Ceará, por meio da Sesa, ESP/CE e Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), Fiec, Senai/Ceará, Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade de Fortaleza (Unifor), com o apoio do Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH) e Esmaltec.

A ideia surgiu em abril de 2020 e o desenvolvimento do capacete ocorreu ao longo dos meses seguintes. Após a fases de testes com pacientes, autorizada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), um dos requisitos exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o equipamento recebeu autorização para a produção em escala industrial, em outubro de 2020, na Esmaltec.

Ao todo, nove protótipos foram sugeridos e testados em voluntários no Laboratório Elmo, implantado na Central de Ventiladores Mecânicos e Equipamentos Respiratórios (CVMER).

“O Elmo é um feito importante para o país. O projeto foi desenvolvido em tempo recorde, apesar de não queimar etapas e cumprir todas as exigências dos órgãos de pesquisa e regulação.

Funcionamento

O Elmo deve ficar acomodado ao pescoço do paciente, não apresentar vazamento, permitindo ofertar oxigênio a uma pressão definida ao redor da face, sem necessidade de intubação. O modelo oferece melhora na respiração e pode ser utilizado fora de leitos de UTI.

O equipamento pode ser desinfectado e reutilizado. Outro benefício é o custo inferior em relação aos respiradores mecânicos e a maior segurança para os profissionais de saúde, pois não há proliferação de partículas de vírus.

Além disso, o equipamento será um legado da pandemia para a saúde e pode tratar outras enfermidades que comprometem o funcionamento dos pulmões, como pneumonia e H1N1.

 

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