Tecnologia impulsiona conquistas em Ciência, Medicina e Educação no Ceará

A possibilidade de desfrutar os avanços da tecnologia em diferentes setores da rotina tem refletido em descobertas que auxiliam em iniciativas como um capacete para manter a respiração, aulas remotas e em consultas a distância

Legenda: Herbert da Rocha participou do desenvolvimento do capacete Elmo desde o início do projeto.
Foto: Fabiane de Paula

A humanidade avança a passos largos e cada vez mais ligeiros. Por meio da tecnologia, a partir da qual é impulsionada, percorre novos caminhos e descobre muitas soluções - antes impensáveis - para problemas que perpassam a Medicina, a Ciência, a Educação e tantas outras áreas quanto seja possível citar e imaginar.

Tecnologia e Ciência, interligadas, resultam em avanços, como a rapidez no diagnóstico de doenças, a criação de equipamentos e medicamentos que podem ajudar a salvar vidas, o ensino remoto, que, apesar de não suprir todas as necessidades da Educação, conseguiu manter alunos e professores estudando, aprendendo e construindo novas histórias.

São incontáveis os registros, os aspectos e os reflexos da tecnologia na rotina. Tem sido assim. Há tempos. Assim, tecnologia e Ciência se retroalimentam, avalia o assessor de Inovação Tecnológica e Social da Universidade Estadual do Ceará (Uece), professor Jerffeson Teixeira de Souza.

Para ele, a Ciência, enquanto processo de descoberta do conhecimento, evolui a partir das tecnologias disponíveis. E estas, por sua vez, facilitam esse mesmo processo de descoberta.

"Às vezes, elas até se confundem. Você tem a Ciência produzindo conhecimento, mas parte desse conhecimento não tem uma aplicabilidade prática e imediata. Mas boa parte tem, e essa parte pode se transformar num produto ou em processos para benefício da sociedade", justifica.

É exemplo disso o atual cenário: em um contexto inesperado e desafiador como o de uma pandemia, a tecnologia ganhou ainda mais preponderância, ajudando a manter algo como a capacidade de respirar.

No Ceará, um grupo de pesquisadores projetou uma solução útil para o momento: o Elmo, um capacete de operação assistida não-invasivo, indicado para o tratamento de pacientes com insuficiência respiratória aguda causada pela Covid-19. O projeto começou a ser desenvolvido em abril de 2020, exatamente quando a doença alcançava o pico no Estado.

"Dez dias depois, já fazíamos o primeiro teste de conceito e, no fim de junho, o primeiro teste clínico em uma paciente do Hospital Leonardo Da Vinci", rememora o idealizador do Elmo e superintendente da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP), médico pneumologista Marcelo Alcantara. Cerca de seis meses depois, a Esmaltec, empresa do Grupo Edson Queiroz, iniciava a produção industrial do capacete hiperbárico.

Interações

Embora não conte com uma tecnologia "tão sofisticada", aponta Alcantara, o equipamento de PVC é capaz de reduzir em 60% a necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). "(O Elmo) é suficiente para auxiliar a respiração do paciente. Ele pode conversar enquanto está usando, tem a visão livre e pode se alimentar por meio de um orifício à frente da boca, que pode ser aberto", detalha o pneumologista.

"Desenvolvemos nove protótipos para chegar no capacete Elmo que temos hoje. Essa é, digamos, a versão 1.0. Obviamente, seguimos estudando e analisando melhorias".

Professor e coordenador do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Cidades (Lapin) da Universidade de Fortaleza, Herbert da Rocha participou, desde o início, do desenvolvimento do Elmo. De acordo com ele, o projeto tem uma característica especial, pois "grande parte" dele foi desenvolvido remotamente, justamente devido ao contexto da pandemia.

"Não fosse a possibilidade de comunicação a distância, o projeto não existiria. E, ao contrário do que temíamos, conseguimos ser produtivos", conta, endossando que ainda não conheceu pessoalmente muitos dos integrantes do grupo.

Devido à situação emergencial e ao freio na indústria, o tempo e a dificuldade para encontrar matéria-prima em plena pandemia se tornaram pontos críticos. Todos superados.

"Não adiantava projetar um equipamento que não pudesse ser fabricado. Mas a gente tinha capital intelectual e, hoje, praticamente todos os componentes desse produto são peças projetadas e confeccionadas por nós". As demais são trazidas de outros estados. A ideia central era otimizar ao máximo o equipamento para que, mais que ter um baixo custo, "funcionasse bem".

Desde o início, o Elmo também foi pensado para se tornar uma alternativa direta às máscaras de oxigênio, normalmente utilizadas nos hospitais. Como não vedam o rosto, há vazamento do oxigênio administrado ao paciente. O que gera desperdício.

"Há um gasto (com as máscaras) porque muito oxigênio é perdido. E o paciente ainda está com uma doença infectocontagiosa (Covid). Então, se ele tosse, contamina o ambiente". Consequentemente, os profissionais da saúde que o rodeiam ficam mais expostos ao vírus. Já o capacete Elmo, diferencia ele, "permite que você crie dentro dele uma atmosfera isolada do ambiente externo".

Desta forma, o paciente não contamina o ambiente e não há desperdício do oxigênio, que passa a ser controlado e disponibilizado apenas conforme o necessário. Por utilizar um mecanismo de respiração artificial não invasivo, evita a sedação do paciente.

A eficácia do capacete também o fez ser levado a Manaus, quando a cidade enfrentava um novo colapso da saúde. Em 2021, uma nova cepa agravou ainda mais a crise. Outro ponto positivo do capacete cearense é que ele não depende de um equipamento mais sofisticado como o respirador.

"O Elmo não é um substituto do respirador, que é um último recurso, naturalmente mais caro. Ele é mais simples. Não precisa do suporte de um equipamento que custe 50 ou 80 mil reais", explica.

Telemedicina

Recorrendo, cada vez mais, às Tecnologias da Informação (TI), a Medicina, que faz parte desse constante cenário de mudanças, também avança. Com o advento da telemedicina - que já se fazia presente na vida de muitas pessoas -, pacientes e médicos puderam se comunicar remotamente durante a pandemia, sem a necessidade de realizar deslocamentos. Com isso, se tornam menores os riscos de contaminação pelo coronavírus.

A médica reumatologista Célia Alcântara realiza teleatendimentos desde março de 2020, quando o distanciamento social se tornou uma regra básica. Na visão dela, a telemedicina exigiu uma reinvenção por parte dos profissionais. E se tornou uma importante opção de acesso, em especial, para pacientes que residem em regiões de difícil acesso.

Legenda: Hospitais da rede de saúde pública estadual já ofertam serviços de teleatendimento.
Foto: Marcelino Júnior

"O benefício é proporcionar maior comodidade e agilidade no atendimento aos clientes, sem uma exposição desnecessária ao ambiente hospitalar", explica.

A questão cultural, avalia a médica, ainda é o principal desafio a ser vencido. "Os pacientes precisam confiar mais no atendimento virtual e entender que não são todos os casos que podem ser atendidos via telemedicina", ressalta.

Temendo ser contaminada pelo coronavírus, a contadora Katiane Gadelha de Almeida, 41, preferiu fazer terapia com a psicóloga por videochamadas semanais. Recentemente, também optou pelas teleconsultas, ofertadas pela dermatologista. "A experiência foi muito boa, incrível. Estou grávida, então evito ainda mais sair. Foi a opção ideal".

Nesse mesmo contexto, desde abril de 2020, a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa) disponibiliza uma nova ferramenta tecnológica: o Plantão Coronavírus. A partir dele, é possível encontrar orientações sobre vacinas, Covid-19, registrar sintomas da doença ou mesmo ter o acompanhamento de um profissional da saúde. O atendimento virtual funciona 24 horas.

"O usuário do SUS, através do próprio celular, do aplicativo WhatsApp ou Telegram, e nos sites oficiais da Secretaria da Saúde, pode acessar o Plantão Coronavírus, a partir do qual ele vai começar a falar com uma assistente virtual", explica o coordenador do serviço, médico de Família e Comunidade, Allan Denizard.

Desde a criação da plataforma até o último dia 18, a Sesa contabilizava mais de 400 mil acessos e cerca de 42 mil pessoas atendidas pela equipe de saúde. Nos primeiros 15 dias de fevereiro, ainda somou 503 teleconsultas de retorno.

Em meio à pandemia, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) também investiu em ferramentas tecnológicas para dar suporte de atendimento à população. Uma das opções é o Doutor Saúde, um bate-papo virtual que utiliza as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por meio dele, o usuário pode tirar suas dúvidas, saber como proceder diante de sintomas gripais ou quais as unidades de saúde mais próximas, por exemplo.

A SMS ainda disponibiliza a ferramenta Boletim médico IJF2. A partir dele, o Instituto Doutor José Frota (IJF) disponibiliza informações online sobre o quadro clínico de seus pacientes por meio do Sistema Paciente IJF 2 Acompanhante.

Conforme a Secretaria, "familiares ou responsáveis legais podem acompanhar o boletim de saúde diário de seus parentes, com todos os critérios de segurança, privacidade e sigilo dos dados pessoais dos usuários".

Mais investimentos

O Brasil continua a sofrer com o aumento do número de casos e óbitos por Covid-19. E esse sofrimento se torna ainda maior devido à falta de investimentos robustos em tecnologia, Ciência e Educação, calcula o idealizador do capacete Elmo, Marcelo Alcantara.

"Ciência, tecnologia e inovação são estratégicas para o SUS (Sistema Único de Saúde) e permitirão, especialmente ao sistema público de saúde, ser ainda mais forte. Um país rico é um país que tem cientistas, que faz inovação".

Dispositivos digitais transformam ensino

A transferência compulsória das aulas presenciais para as telas de computadores, celulares e tablets, em meio ao cenário pandêmico, aproximou ainda mais a Educação da tecnologia. Ao mesmo tempo em que a adaptação virou desafio a ser vencido por pais, alunos e professores, também abriu um leque de oportunidades que tendem a modificar para sempre o modelo tradicional de ensino.

"Hoje, contamos com esses recursos da tecnologia. Se fosse em outro momento, talvez isso fosse muito mais penoso. A tecnologia cumpriu muito bem o seu papel", avalia Selene Penaforte, membro da Câmara de Educação Básica do Conselho Estadual de Educação (CEE).

Apesar de oferecer recursos "potentes", diz ela, a tecnologia ainda não é capaz de suplantar o que as aulas presenciais proporcionam. "Nenhum espaço social substitui a relação professor-aluno, que é fundamental. Ou aquilo que a escola, enquanto instituição social, propicia para o desenvolvimento infantil e do jovem na interação cotidiana com pessoas de diferentes gêneros e classes".

Legenda: Antes de atual decreto, aula é transmitida para alunos no modelo remoto.
Foto: José Leomar

Professor de Informática em Itapajé, Horácio Alves Moura lança mão de vários recursos e da criatividade para estimular os alunos a aprenderem a distância. A Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Adriano Nobre, onde ele leciona, alcançou em 2019 uma das melhores notas (7,1) do País no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

"A gente improvisa, pega uma luz da cozinha para melhorar a luz da câmera, coloca uma música para tocar antes da aula, mas o subsídio principal ainda é o professor".

No interior, o processo de adaptação é ainda mais complexo, pois há "uma conexão diferente para cada realidade", cita Horácio, fazendo referência aos alunos que moram em áreas mais distantes do centro da cidade.

"Quando o sol vai embora, a internet vai junto", acirrando a desigualdade de acesso.

Em março de 2020, seus alunos foram apresentados a ferramentas como o Google Meet, um serviço de comunicação por vídeo, e o Google Classroom, um sistema de gerenciamento de conteúdo para escolas. Paralelamente, tiram dúvidas e trocam informações sobre o conteúdo escolar pelo WhatsApp.

Em Sobral, a Escola Estadual de Educação Profissional Professora Lysia Pimentel Gomes Sampaio Sales também traçou estratégias para se adequar ao novo momento. O uso da tecnologia na escola, porém, não se tratou de uma completa novidade.

Antes mesmo da pandemia, a escola já disponibilizava o Aluno Online, um recurso a partir do qual o estudante pode conversar com o professor ou mesmo com a escola. O WhatApp também é utilizado, por grupos e individualmente, como ferramenta de comunicação por toda a comunidade escolar.

"Hoje, os meninos já estão dominando bem (as tecnologias), mandam as atividades deles. Até redação o professor corrige e manda de volta pela plataforma", comemora a diretora da escola, Ana Emília Dias Pinheiro. "O nosso maior desafio era que o aluno não perdesse o vínculo com a escola, porque não estava vindo todo dia, mas conseguimos manter" essa ligação, acrescenta.


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