Cearenses treinam profissionais em Manaus para uso do capacete Elmo: 'equipamento feito para guerra'

Duas fisioterapeutas e uma enfermeira treinaram 74 profissionais de saúde na cidade manauara. Capacete de respiração assistida desenvolvido no Ceará reduz a necessidade de internação em UTI

Legenda: O primeiro treinamento sobre o capacete de respiração em Manaus ocorreu na semana passada
Foto: Divulgação

"É um equipamento feito para guerra. Não está ligado em uma tomada de energia, não precisa de ventilador mecânico; só de uma rede de gases". É assim que a fisioterapeuta Betina Santos, de 27 anos, define a simplicidade do Elmo, um capacete de respiração assistida desenvolvido no Ceará e que reduz em 60% a necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Cearenses, a enfermeira Rebeca Bandeira, 28, a fisioterapeuta Ingrid Sá, 26, e Betina foram a Manaus, na semana passada, dar treinamento a 74 profissionais da linha de frente da Covid-19. Entre eles, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e engenheiros clínicos.

Durante cinco dias, foram repassados conhecimentos teóricos e práticos sobre a aplicação e manutenção de uso do equipamento. Os treinamentos começavam por volta das 8h, sem hora para acabar.

Mais do que qualquer outra cidade brasileira, a capital manauara viu de perto a formação de um verdadeiro cenário de guerra, devido à falta de oxigênio que levou muitas vidas e o próprio sistema de saúde local ao colapso.

Hoje, Manaus conta com 65 capacetes doados pela Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa). O equipamento oferece justamente oxigênio a pacientes com quadro clínico moderado e grave, o que melhora a capacidade respiratória e evita a intubação. 

Reforço

Ao contrário dos ventiladores mecânicos, o Elmo é um equipamento não invasivo e de baixo custo. Por isso, estimam as profissionais de saúde cearenses, vai ser importante para reforçar o atendimento a pacientes com Covid-19 em Manaus.

"O Elmo utiliza oxigênio e lá eles têm dificuldade com isso. Mas é um dispositivo que vai dar um retorno muito positivo ao paciente, que vai passar, no máximo, oito dias com ele", endossa Rebeca Bandeira.

Segundo Betina, apesar de ser "simples" e não demandar o uso combinado com outros equipamentos sofisticados, por exemplo, o Elmo deve ser aplicado por equipes multiprofissionais treinadas, em uma atuação integrada.

"Para aplicar, não é somente ligar os gases e deixar no paciente. Existe um certa monitorização que deve ser feita por uma equipe engajada. A gente repetiu lá que o Elmo só vai funcionar quando a equipe multiprofissional estiver integrada e não apenas uma categoria sozinha".

Legenda: As cearenses Rebeca, Betina e Ingrid foram responsáveis por treinar, durante cinco dias, mais de 70 profissionais de saúde em Manaus
Foto: Divulgação

Reorganização de fluxo

A alta taxa de ocupação de leitos foi o que mais chamou a atenção das profissionais em Manaus. "A gente vê que o sistema de saúde lá já estava sobrecarregado, com pacientes em casa aguardando leito porque não tem no hospital", afirma Betina, lembrando que a condição crítica eleva o risco de o paciente chegar à unidade de saúde tardiamente.  

Todo o treinamento dado pelas cearenses foi realizado em espaços cedidos pelo Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu. Para a primeira fase, mais teórica, o Instituto disponibilizou um auditório e, para a segunda fase, um ambiente de simulação para a prática, dentro de uma UTI desativada.

O último espaço precisou ser desocupado, em plena semana de treinamento, para que novos leitos de UTI fossem abertos. Com a alta demanda, leitos de enfermaria da cidade também vêm sendo substituídos por leitos de UTI.

"Eles ainda estão em um momento de organização de leitos para receber mais pacientes. Então, está bem complicado e a gente vê muito esse cenário de reorganização de fluxo para receber os pacientes", acrescenta Betina.

Protocolo de intervenção  

Embora ainda não saibam quando os ensinamentos repassados no treinamento serão adotados nas unidades de saúde em Manaus, Betina, Rebeca e Ingrid desenvolveram e disponibilizaram um protocolo, elecando diretrizes que os profissionais deverão seguir. 

Segundo Betina, o material será direcionado a todos, mas, sobretudo, aos profissionais recém-formados. "Nós traçarmos um perfil dessa população para, no último dia, fechar um protocolo de intervenção com eles, para dar mais segurança e sistematizar como eles conseguem de forma mais simples aplicar o Elmo e ter resultados". 

Meta ultrapassada 

As três profissionais foram enviadas pela Escola de Saúde Pública do Ceará Paulo Marcelo Martins Rodrigues (ESP/CE), vinculada à Sesa. O objetivo inicial era treinar 30 profissionais da linha de frente da Covid-19 ao longo de cinco dias, de 1º a 5 de fevereiro. Mas a meta foi superada. 

"Nós tínhamos seis a oito profissionais por turno. Graças a Deus, conseguimos ultrapassar a meta e finalizamos com 74 profissionais capacitados", comemora Rebeca.

Sobre o Elmo

Idealizado em abril de 2020, o capacete Elmo, equipamento de respiração assistida, pode evitar a intubação de pacientes com Covid-19. O Elmo oferece oxigênio a pacientes com quadro clínico moderado e grave, o que melhora a capacidade respiratória e evita a intubação por não ser um mecanismo invasivo, como os ventiladores mecânicos. A cúpula transparente, por onde entram os tubos, é fixada no pescoço, distribui fluxo de gás contínuo para oxigenar o sangue e expandir o pulmão.

O projeto Elmo foi idealizado e desenvolvido pelo Governo do Ceará, por meio da Sesa, ESP/CE e Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/Ceará), Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade de Fortaleza (Unifor), com o apoio do Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH) e Esmaltec.

 

 

 

 

 

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