Como deputados cearenses avaliam a continuidade da paralisação de caminhoneiros

Enquanto tenta amenizar efeitos dos atos de 7 de setembro, o presidente é cobrado pelo agravamento das crises econômica e política

Paralisação de caminhoneiros
Legenda: Paralisação de caminhoneiros acontece em São Paulo (foto) e outros estados
Foto: AFP

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tenta desmobilizar os caminhoneiros que promovem bloqueios de rodovias em 16 estados brasileiros, inclusive com a divulgação de uma nota em tom de pacificação com os demais poderes, representantes da categoria indicam que a mobilização deve continuar até que sejam recebidos pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para discutir pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na bancada federal cearense, até mesmo parlamentares favoráveis às manifestações do dia 7 de setembro se colocam contra a continuidade das paralisações, mas a avaliação de governistas e de opositores é de que a "ressaca" dos atos ainda agrava as crises econômica e política do País. 

Alinhado ao Governo Federal, o deputado  Heitor Freire (PSL) diz defender que “é direito de todo cidadão se manifestar de forma pacífica em defesa das suas pautas", mas faz ressalvas diante da mobilização dos caminhoneiros. 

"É difícil aceitar quando isso atinge diretamente a população, como é o caso do bloqueio de vias, impedindo o cidadão de ir e vir. O abastecimento também pode ser prejudicado, o que vai gerar ainda mais altas nos preços e outros problemas em efeito cascata”, afirma o parlamentar. 

Principal mobilizador dos atos em Fortaleza, o deputado federal Capitão Wagner (Pros) busca manter sua imagem apenas como articulador em nível estadual e reconhece o agravamento das tensões institucionais.

“A manifestação aqui foi democrática, fiz minha pauta respeitando as instituições. Meu posicionamento é meu, só posso falar por mim, da minha parte não teve nenhum problema, não. Agora, logicamente, há um atrito em nível nacional, com as instituições, que a gente espera que seja resolvido o mais rápido possível, que é melhor para o País”, reconhece. 

Cumprindo agenda no Ceará ao longo da semana, Wagner afirma que o foco, no momento, é agregar forças de oposição para as eleições ao Governo do Estado no próximo ano e que, portanto, não está ciente da situação em Brasília. 

No entanto, ele considera cque o momento era de recuperação econômica. “Acredito que a economia estava caminhando bem, uma retomada bastante exitosa. Inclusive, comparando com outros países, o Brasil estava bem avançado. É importante a gente manter essa dianteira, manter o PIB e a geração de emprego crescentes, manter a bolsa estável, o dólar em queda, para que a gente mantenha a economia com destaque ao longo de todo o ano”. 

"Momento crítico"

O deputado Danilo Forte (PSDB) não compartilha da mesma visão sobre a situação econômica enfrentada pelo Brasil.

“Nós estamos num momento crítico de uma crise econômica, um momento crítico da volta da inflação e da carestia, e a política não pode estar brincando com o bolso do povo. Os políticos têm responsabilidade em não gerar crises que afetem a economia popular. Ninguém aguenta mais gasolina de 7 reais, gás de cozinha de 120 reais, desequilíbrio cambial e aumento do dólar, que interfere diretamente nos preços dos combustíveis e da energia”, pontua. 

Danilo é autor de requerimento para audiência pública que receberá representantes da Petrobras na próxima terça (14) e terá como principal pauta o preço dos combustíveis. Seu partido, o PSDB, anunciou na quarta (8) fazer oficialmente oposição ao Governo Bolsonaro.

“Eu acho que os partidos estão se mobilizando dentro da preocupação com a crise que estamos vivendo. Acho que ainda há espaço para o diálogo e para harmonizar os poderes. Agora, está todo mundo preocupado”, avalia. 

Reunião e consequências dos atos 

O PSDB foi um dos 12 partidos que compuseram reunião na quarta, em Brasília, para avaliar os próximos passos diante da crise política. Entre as legendas já com atuação consolidada na oposição a Bolsonaro, a avaliação é ainda mais incisiva sobre o fracasso das manifestações em comparação com os efeitos pretendidos. 

Eduardo Bismarck (PDT) afirma que Bolsonaro vai pagar o “preço político” por seus atos. “O que nós estamos vivendo é uma ressaca pós-manifestação, os caminhoneiros querem ir para o ‘after party’, não querem sair da festa, mas na realidade nós estamos vendo as consequências do que o Bolsonaro faz", critica. "O custo está recaindo sobre a vida do brasileiro”, acrescenta. 

Na avaliação do deputado federal, os atos recentes de Bolsonaro (como o áudio divulgado na quarta tentando desmobilizar os caminhoneiros e a nota oficial publicada nesta quinta) mostram um presidente “visivelmente abatido e sem saber o que fazer”. “O Brasil não tem rumo, está desgovernado, e a gente não tem uma proposta na mesa para debater”, protesta Bismarck. 

 Idilvan Alencar (PDT) classificou como “um tiro no pé” as manifestações do Dia da Independência. “Ele esperava que fossem grandes públicos, grandes manifestações, que ele saísse fortalecido perante as instituições e o País. No dia seguinte, o mercado financeiro deu o recado. Todas as forças democráticas do país viram no movimento um ato antidemocrático, inclusive vários partidos políticos, e ele não contava com isso. As consequências imediatas vêm na economia”, aponta. 

Para o deputado federal, Bolsonaro “apregoou o caos e está bebendo do próprio veneno”. “Ele criou toda essa confusão e agora está fazendo apelo para tentar segurar e não está conseguindo. São consequências dos atos impensados, dessas questões que são meramente pessoais. Ele não pensa no coletivo, ele está em plena campanha política, nunca saiu do palanque”, critica Idilvan. 


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