Na pandemia, médico se dedica ao atendimento de pessoas em situação de rua em Fortaleza

Miguel Mayer faz parte da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares no Ceará, e se dividiu entre a residência médica e o trabalho voluntário neste ano

médico que atua em Fortaleza
Legenda: Miguel Mayer, em 2019, passou a integrar a Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares no Ceará, quando teve a primeira experiência de participar de um atendimento em mutirão.
Foto: Camila Lima

Entre abril e maio deste ano - parte do período de pico da pandemia do coronavírus no Ceará -, o médico Miguel Mayer Vaz, 27, passava por deslocamentos diários entre a Barra do Ceará, onde faz residência de Medicina de Família e Comunidade no Posto de Saúde Lineu Jucá, e as ruas do Centro e do bairro Moura Brasil, onde prestava atendimento a pessoas em situação de rua.

Miguel nasceu na Bahia, mas cresceu em Fortaleza, onde se formou pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Sua dedicação ao voluntariado em meio à rotina de trabalho é compartilhada com os demais profissionais da saúde que fazem parte da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares no Ceará. Ele passou a integrar o coletivo em 2019, quando teve a primeira experiência de participar de um atendimento em mutirão.

"Nesse ano, a forma como isso se articulou foi simultaneamente a uma percepção que havia pela parte de segurança alimentar, já que naquela época que estava sendo obedecido o isolamento, reduziu-se muito a circulação nas ruas. A partir disso, se reduziu também a fonte de renda das pessoas que vivem nas ruas. Reduziu a atividade dos grupos que normalmente operam fazendo 'estouros', levando comida, por conta das restrições da pandemia", explica o médico.

Segundo Miguel, o trabalho foi realizado junto a grupos que mantinham ações de entrega de alimentos e serviços de higiene. Entre eles, estão o Grupo Espírita Casa da Sopa, a Pastoral do Povo da Rua, o Coletivo Arruaça, o Instituto Compartilha, a Associação Pequeno Nazareno, Associação de Amparo ao Portador da Tuberculose e a comunidade do Oitão Preto.

"Ficávamos lá e, principalmente, na Casa da Sopa, que é onde a gente ainda mantém escala de atendimento. Fomos construindo um espaço de consultório lá, que hoje está muito bem equipado com maca e um armário, onde são mantidos medicamentos que a gente obtém, principalmente por doações", relata o profissional.

Nesses locais, enquanto as pessoas em situação de rua eram acolhidas para receber alimentos e passar por serviços de higiene, aqueles que tivessem queixas voltadas à saúde poderiam esperar para serem atendidos. O médico lembra que a demanda por curativos era frequente.

"Pra demanda médica, são as mais diversas. Já chegamos até a fazer consulta de pré-natal lá. Temos também uma profissional de Psicologia que colabora em alguns dias fazendo uma escuta mais qualificada pra demanda de saúde mental", lembra.

Hoje, os membros da Rede ainda mantêm uma escala de voluntariado três vezes por semana, junto ao Grupo Espírita Casa da Sopa, no Centro.

A especialidade é fortemente ligada ao Sistema Único de Saúde (SUS). "Isso dá a possibilidade de trabalhar com uma população que nem mesmo ao SUS chega, por uma série de barreiras. Poder tentar construir uma alternativa e atendê-los enriquece a experiência de trabalhar na saúde pública".

 

 

 

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