Homenageados no Clássico-Rei, torcedores contam sobre recuperação da Covid-19 e amor pelos clubes

O alvinegro Francisco Antônio e o tricolor Luiz Otávio revelaram as emoções com a surpresa da ação de Ceará e Fortaleza no Castelão contra a doença

Legenda: O alvinegro Francisco Antônio e o tricolor Luiz Otávio foram homenageados no Clássico-Rei
Foto: Thiago Gadelha

O espetáculo do Clássico-Rei sempre transcende o campo. Em tempos de estádios vazios sem a pandemia, os clubes tentam manter a conexão com os milhares de torcedores, em especial aqueles que venceram a Covid-19, que já levou quase 10 mil vidas no Ceará. Neste domingo (20), durante a entrada dos atletas no gramado, os capitães Luiz Otávio e Wellington Paulista seguravam fotos de torcedores do Vovô e do Leão, respectivamente, que venceram a árdua luta contra o coronavírus.

Os vestiários também receberam imagens daqueles que continuam vibrando de longe após a recuperação da doença. Uma ação conjunta para quem faz tanta falta nas arquibancadas.

A surpresa foi enorme para Luiz Otávio Mendes Parente (tricolor) e para Francisco Antônio Oliveira (alvinegro), com suas imagens no centro da Arena Castelão. Ambos não sabiam que a homenagem seria dessa forma, rendendo uma emoção especial para um já aguardado Clássico-Rei.

Legenda: Luiz Otávio e Wellington Paulista pousaram com imagens de torcedores sobreviventes
Foto: Thiago Gadelha / SVM

Presente tricolor

Homônimo do xerife da zaga do rival, Luiz Otávio, de 66 anos, leva a semelhança no nome com leveza durante os confrontos.

"O pessoal às vezes brinca e eu digo: vou fazer um gol contra hoje", diz o aposentado e torcedor do Tricolor do Pici que contraiu a Covid-19 no começo de novembro. "Moro com minha esposa e um filho. Mantínhamos o isolamento e não tínhamos contato com quase ninguém. Mas às vezes você dá uma escapadinha para o supermercado e deve ter ocorrido, no começo de novembro foi comprovado. Foi muita dor no corpo, diarréia, falta de paladar, cansaço. Minha esposa também foi infectada na mesma época. Passei 21 dias em casa. Hoje tô bem, me comunicando e mantendo sempre a guarda, com álcool em gel e máscara", relatou Luiz à reportagem.

Legenda: O tricolor Luiz Otávio precisou ficar 21 dias isolado em casa
Foto: Thiago Gadelha

O amor pelo Leão vinha desde criança, quando morava em Sobral, mas conflitava com as cores rubro-negras em um casa dividida com um dirigente do Cacique do Vale. "Uma vez fui pro estádio assistir Guarany e Fortaleza com a bandeira do Leão e meu pai, diretor do Guarany, não permitiu que eu entrasse no estádio. Tive que voltar em casa, pegar a bandeira do Guarany e mostrar pra poder entrar. Mas atrás, preguei a do Fortaleza", relembra o tricolor às risadas.

Se o Papai Noel não pode sair neste fim de ano com a pandemia, o Fortaleza tratou de levar o presente a Luiz nas mãos do camisa 9, trazendo sentimentos necessários para estreitar os laços afetivos à distância e, acima de tudo, orgulho por vestir o manto tricolor fora do Castelão.

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"Para minha surpresa, ver o Wellington Paulista, nosso artilheiro, com a foto, foi ótimo. A emoção é indescritível. Não dá para transmitir em palavras o que senti. Foi meu presente de Natal. Minha família achou excelente. Como torcedor, nos sentimos orgulhosos do time participar dessas ações sociais. Está fazendo algo muito importante", revelou Luiz.

Apesar dos quatro jogos sem vitória no Brasileirão, a esperança de Luiz para o Leão do Pici repetir o gigante feito de 2019 não se esvai. Diante do Flamengo de Rogério Ceni neste sábado (26), o foco está em manter a proximidade para a zona da “Sula”.

"Espero que o Fortaleza tome uma postura mais agressiva com o andar da carruagem. Espero que conta o Flamengo, possamos fazer uma boa partida e tenho certeza que vamos chegar aonde chegamos no ano passado, para a Sul-Americana", projetou Luiz ao fim da entrevista.

De Vovô para Vovô

Francisco Antônio Oliveira, aposentado de 69 anos, é outra estatística positiva contra o vírus. O alvinegro passou por uma semana de luta no hospital contra a doença, mas sempre com a esperança de se reerguer para voltar à sua maior alegria: ver o Ceará jogar.

"A única coisa que me alegra hoje é quando o Ceará joga ou ouço o noticiário do clube”, contou o vovô, que relembrou o período doente no primeiro semestre.

"Senti fraqueza, dor de cabeça, como se estivesse com uma gripe forte. Foi logo no começo, em abril. Quando cheguei ao hospital, sentia falta de ar. Piorou depois de três dias e voltei para ser internado, passei sete dias lá sem respirar direito. O pulmão estava com comprometimento de 50%. E ainda sou diabético. Mas a recuperação foi rápida", relatou Antônio contente pela vitória.

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Do interior de Boa Viagem para a capital cearense em 1970, a paixão pelo Alvinegro sempre foi junto quando acompanhava os duelos em outras cidades. A entrada dos atletas com sua foto foi marcante pelo passado presente nos estádios e pela surpresa de ver o ídolo Luiz Otávio com o retrato.

"Sabia que ia haver uma homenagem porque minha filha bateu a foto. Mas não achei que fosse tanto, de levar a foto pro campo. Achei que fosse só no vestiário. Gosto muito dos jogadores, principalmente do Luiz Otávio, admiro muito ele. Fiquei muito feliz mesmo. Nunca pensei que fosse ser homenageado pelo Ceará”, celebra Antônio.

O momento ocorreu através da filha Ana Luiza, também torcedora do Ceará, que comemora o carinho do clube e guarda a lembrança com apreço. Para quem esteve ao lado do pai sofrendo na cama do hospital por dias, a homenagem vai aquecer o coração para sempre.

Legenda: A paixão de Francisco Antônio pelo Ceará também foi repassada para a filha Ana Luiza
Foto: Thiago Gadelha / SVM

"Fiquei super feliz. Desde pequena meu pai me ensinou a amar esse clube e ver essa homenagem vindo deles foi realmente emocionante. Sem contar que o Luiz Otávio é um dos meus ídolos. Quando me pediram a foto do meu pai para participar eu não imaginei que seria assim e já estava bem feliz com a iniciativa do clube, mas como foi feita, o carinho com todos e principalmente com meu pai foi lindo. Se eu assistir 100 vezes eu me emociono todas, porque estive com ele no hospital e sei o que vivi com essa doença. A frase é clichê mas é pura verdade: nunca será só pelo futebol", destaca Luiza.

O zagueiro Luiz Otávio mandou um recado para Seu Antônio antes do Clássico em que o Vovô saiu vitorioso. Mas quem ganhou mesmo foi o torcedor.

"Seu Antônio, Graças a Deus, você é um exemplo. Conseguiu com muita força e fé vencer essa doença. Que hoje possamos te dar a vitória no Clássico como alívio e como presente", disse o defensor no vestiário antes de começar a partida. O triunfo deixa o time de Porangabuçu tranquilo na tabela da Série A, dentro da zona da Sul-Americana. Independente do fim da temporada, Antônio planeja ir novamente às arquibancadas alvinegras quando a vacina chegar em 2021.

"Para mim, é a melhor campanha do Ceará no Campeonato Brasileiro. Acredito que se o Ceará passar bem esse ano, vai ser um time melhor do que tem hoje. Porque vai entrar mais dinheiro e até por empolgação. É provável que eu vá pro estádio, se Deus quiser, principalmente depois dessa homenagem, tem que se mostrar presente. Ficamos mais sensíveis", afirmou o torcedor.

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