Mãe vira professora em trabalho voluntário em Banabuiú

Vilani Sousa acabou de concluir o curso de pedagogia e, em meio à pandemia, passou a dar aula de reforço para crianças no alpendre de casa. A iniciativa solidificou o amor pela educação e pela mobilização social

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Legenda: O alpendre da casa de Vilani Sousa foi adaptado e virou sala de aula para crianças da zona rural de Banabuiú
Foto: Honório Barbosa

A pandemia do novo coronavírus, que traz tantas dificuldades e dores, também impulsiona atitudes positivas que impactam na coletividade. O cancelamento das aulas presenciais trouxe a oportunidade para que a concludente de pedagogia e diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar em Banabuiú, no Sertão Central, Vilani Sousa, 26 anos, decidisse que o sonho de ser professora deve ser levado a sério.

No assentamento rural da comunidade Boa Água, distante 15km da sede de Banabuiú, Vilani transformou o pequeno alpendre da casa em sala de aula. "Ensinava a minha filha (Rávilla, 8 anos, concluiu o 3º ano do ensino fundamental), que estava com dificuldades nas aulas online", contou. "Então, vi que outras crianças estavam sozinhas, sem apoio pedagógico. Reuni todos e passei a dar reforço escolar".

As aulas começavam às 13h, quando Vilani retornava do trabalho. Nesse horário, a turma do reforço já aguardava no alpendre. A ajuda da jovem voluntária fez com que a dificuldade do acesso à internet não comprometesse o ano letivo. Todos os alunos foram aprovados, e a aprendizagem no momento crítico foi satisfatória.

Gratidão

O trabalho da mãe/professora foi reconhecido pela comunidade. "Agradeço demais a Vilani por meus dois filhos terem passado de ano graças ao esforço dela", declarou a dona de casa Mônica Alexandre.

Vilani conta que chegar à sala de aula é um sonho de adolescente. "Reunia as crianças e brincava de professora e algumas vezes ensinava mesmo", lembrou.

A ideia de Vilani Sousa é dividir o tempo com o trabalho no Sindicato. "É minha paixão participar das mobilizações sociais, lutar pelos direitos das mulheres, combater a violência de gênero e defender políticas públicas para os jovens", pontuou. "A minha vida sempre foi de muitas dificuldades, mas vou conseguir".

Superação

Nascida e criada na localidade de Boa Água, filha de agricultores, Vilani tem uma história de vida de superação. Cedo viu que a vida no campo é dura e exige força para superar as dificuldades. "Ajudava meus pais no plantio e na colheita de feijão e nos trabalhos de casa", contou.

Vilani concluiu o ensino fundamental na escola da comunidade e o ensino médio no Liceu de Banabuiú. Em 2017, ingressou em uma faculdade particular para cursar pedagogia. "Queria ter começado antes, mas não tinha condições financeiras", contou. "Até que decidi me matricular e graças à venda de din-din (sacolé) consegui pagar o curso, que conclui neste mês".

A vontade de partilhar o ensino de reforço da filha com outros alunos da comunidade fortaleceu o desejo de ingressar profissionalmente no magistério. "Não sei como vou conciliar, encontrar tempo, porque amo o trabalho de mobilização social", ponderou. "Tenho de seguir e realizar esses meus dois sonhos".

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