Ceará tem aumento de 290% nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave em um mês, diz Fiocruz

Crescimento relativo no Estado é maior do que o observado na curva nacional, segundo pesquisador da Fiocruz

Escrito por Roberta Souza, roberta.souza@svm.com.br

Metro
frascos de exame laboratorial
Legenda: Média de casos de SRAG nas três últimas semanas de novembro foi de aproximadamente 130. Entre o fim de dezembro e o começo de janeiro, passou a 510
Foto: Thiago Gadelha

Após um mês do apagão de dados do Ministério da Saúde, o Ceará apresenta um aumento significativo no número de pessoas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), complicação decorrente de Covid-19, Influenza e outras doenças causadas por vírus respiratórios.

O crescimento relativo de casos no Estado é de 290% nas duas últimas semanas de dezembro e na primeira de janeiro em relação às três últimas semanas de novembro de 2021. O aumento é maior que o observado na curva nacional, esta com crescimento de 135% no mesmo período, segundo o Boletim Infogripe da Fiocruz, divulgado neste sábado (15).

O coordenador do InfoGripe - grupo da Fiocruz que historicamente monitora as síndromes gripais -, Marcelo Gomes, fez a análise da realidade local a pedido do Diário do Nordeste. Segundo ele, no Ceará, a média de novos casos semanais de SRAG nas três últimas semanas de novembro foi de aproximadamente 130 casos. Em relação às três últimas semanas avaliadas pelo boletim (fim de dezembro e começo de janeiro), a estimativa é de que essa média tenha passado para cerca de 510 casos.

“Essa estimativa para as semanas mais recentes leva em conta os casos já inseridos no sistema e o padrão de atraso de digitação para estimar o que já aconteceu, porém ainda não teve tempo de ser digitado no banco de dados nacional”, explica o pesquisador da Fiocruz.

Vale reforçar que estes dados são referentes apenas a internações e óbitos, sem incluir, portanto, o número de casos leves. Além disso, eles ainda não refletem o impacto das festas de fim de ano, especialmente Réveillon, quando é comum o aumento de reuniões familiares e festivas e, consequentemente, o risco de contrair doenças virais.

“Quem se infectou nesses eventos leva aproximadamente uma a duas semanas para evoluir para necessidade de internação, em média. Então, só começam a bater na segunda semana de janeiro, que estarão nos dados da próxima atualização”, destaca Marcelo Gomes.

Variante Ômicron

De acordo com o pesquisador, ainda não é possível mensurar o impacto deste aumento nos óbitos, já que um eventual crescimento neste indicador demora ao menos duas semanas após a elevação dos casos para aparecer nas estatísticas. 

Em outros países, a variante Ômicron, já predominante no Brasil, tem apresentado uma curva com alta de casos mais significativa do que de mortes, seja pelos efeitos da vacina ou por indícios de que poderia causar a doença de forma menos grave. 

Mesmo assim, o avanço da nova variante preocupa. Isso porque ela é potencialmente mais transmissível e, embora possa causar doença grave em um percentual menor de infectados que a variante Delta, é capaz de atingir um grande número de pessoas.

Leitos de UTI no Ceará

Nota técnica divulgada pelo Observatório Covid-19 Fiocruz, na última quinta (13), apontou para uma zona de alerta “intermediária” na taxa de ocupação em UTIs Covid adulto (68%) no Ceará, acompanhado de nível “crítico” em Fortaleza (88%) em comparação com a série histórica. A Capital ficou atrás apenas de Goiânia (94%).

O Boletim alerta, porém, que o patamar de número de leitos é outro e o número de internações em UTI hoje ainda é predominantemente muito menor do que aquele observado em 2 de agosto de 2021, quando, já no quadro de arrefecimento da pandemia, leitos começavam a ser retirados.

O sistema de saúde do Ceará já sente a pressão do cenário epidemiológico, com maior busca de pacientes nas UPAs. No setor privado, também há aumento da busca de pacientes com sintomas gripais. Para mitigar a crise sanitária, na última sexta-feira (14), o governador Camilo Santana (PT) anunciou a abertura de 452 leitos públicos de enfermaria e UTI para atender pacientes com Covid-19 e síndromes gripais.

"É uma preocupação nossa de ampliar fortemente os leitos de UTI, que são para aqueles [pacientes] com sintomas mais graves e que precisam de internação", disse Camilo, mencionando o fato de 60 leitos terem sido abertos no Hospital Leonardo da Vinci.

"Vamos transformar novamente o Leonardo da Vinci em um hospital de referência da Covid. Lembrando que no último ano chegamos a ter 170 leitos só de UTI [na unidade]. Já abrimos leitos de UTI em todas as regionais, leitos de enfermaria e UTIs", completou o governador. 

As ações se somam à ampliação da campanha de vacinação contra a Covid-19, que, no sábado (15), chegou às crianças de 5 a 11 anos da Capital e do interior do Ceará.