Situação análoga à escravidão e armas: a casa do grupo suspeito de tentar sequestrar crianças no CE

A Justiça decretou a prisão preventiva dos quatro suspeitos, em audiência de custódia.

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Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 08:36)
A foto mostra uma parte de um imóvel em que há barracas, camas, cadeiras e um ventilador, além de outros objetos.
Legenda: Os suspeitos moravam em um sítio localizado em Pacatuba, cidade próxima a Maracanaú.
Foto: Reprodução.

Uma denúncia contra pessoas suspeitas de tentar sequestrar crianças em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), levou a Polícia Militar do Ceará (PMCE) a um sítio, onde policiais encontraram pessoas em situação análoga à escravidão e apreenderam duas armas de fogo.

Quatro suspeitos foram presos em flagrante, na noite da última segunda-feira (26). Em audiência de custódia realizada nesta quarta (28), a Justiça Estadual decretou as prisões preventivas de Gustavo Iancovith, de 27 anos; Laura Eduarda Christo Flores, 26; Rubia Evanoviti Saviti, 18; e Sandra Batista Ferreira, 53.

"Os suspeitos passaram por audiência de custódia nesta quarta-feira (28/01). O Juízo do 7º Núcleo de Custódia e das Garantias, com sede em Maracanaú, converteu as prisões em flagrante em preventivas. O caso está em segredo de justiça e mais informações não podem ser repassadas", confirmou o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), em nota.

O grupo foi autuado pela Polícia Civil do Ceará (PCCE) por tentativa de sequestro e associação criminosa armada, após moradores do bairro Alto da Mangueira, em Maracanaú, suspeitarem que eles pretendiam sequestrar duas crianças.

A defesa dos presos, representada pelo advogado Piero Barbacovi, emitiu nota em que "repudia veementemente as acusações que estão sendo divulgadas, as quais não encontram respaldo nos fatos apurados". 

"Desde o início, os investigados sempre colaboraram e demonstraram absoluta tranquilidade, certos de que nenhuma conduta criminosa foi praticada. O procedimento, contudo, foi marcado por graves ilegalidades, a começar pela entrada policial em residência sem mandado judicial e sem autorização dos moradores, em afronta direta às garantias constitucionais", denunciou o advogado. (Leia a nota da defesa na íntegra abaixo)

Veja o vídeo da suposta tentativa de sequestro:

Apreensão de armas de fogo

A reportagem apurou que, após as prisões em flagrante, em Maracanaú, a Polícia Militar chegou a um sítio no Distrito de Forquilha, no Município de Pacatuba, onde os suspeitos e outras pessoas moravam.

Ao realizarem buscas na propriedade, os policiais militares apreenderam uma espingarda calibre 22, na residência do caseiro; e uma pistola calibre 9mm, com 50 munições, pertencentes a Sandra Batista Ferreira.

A suspeita alegou que detém registro de Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC) e porte legal da arma de fogo. Já o caseiro negou que era o proprietário da espingarda - o que foi confirmado por testemunhas - e não foi detido.

O advogado Piero Barbacovi sustentou que "a exceção de uma carabina (comum para proteção em fazendas/chácaras), foram apreendidos apenas bens lícitos, como mercadorias e valores provenientes de atividade comercial regular, além de uma arma devidamente registrada".

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Condições precárias de trabalho

Os policiais militares relataram à Polícia Civil do Ceará (PCCE) que encontraram um suposto funcionário do sítio, que "exercia atividades sem remuneração regular, em condições que aparentavam ser precárias e possivelmente análogas à escravidão, embora não tenha sido realizada, naquele momento, apuração específica sobre esse fato".

"O depoente relata que, durante a diligência, chamou-lhe atenção a situação estrutural da residência, pois não havia alimentos disponíveis na geladeira ou em áreas comuns, encontrando-se os alimentos armazenados exclusivamente no quarto da Sra. Sandra, o qual permanecia trancado", descreve um Termo de Depoimento colhido pela Polícia Civil.

Segundo o documento, os PMs encontraram no sítio, ainda, crianças "se alimentando de pequena quantidade de comida remanescente de animal abatido no dia anterior, havendo inclusive outro animal abatido armazenado para consumo posterior".

R$ 86,9 mil
em espécie, um veículo Fiat Uno, aparelhos celulares, perfumes, 20 colchas de cama embaladas e outros objetos foram apreendidos pelos policiais militares, no sítio.

Aproximação com as crianças

Pais de duas crianças, que moram no bairro Alto da Mangueira, afirmaram à Polícia Civil que acreditam que os suspeitos tentaram sequestrar os filhos deles, na noite da última segunda-feira (26).

Três suspeitos passaram pelas residências das possíveis vítimas algumas vezes, segundo os denunciantes. Primeiro, eles perguntaram pelos pais das crianças. Depois, teriam tentado uma aproximação com elas.

"Uma das mulheres aproximou-se das crianças segurando uma colcha em uma das mãos, enquanto com a outra mão tentava alcançar uma das crianças, aparentando clara intenção de contato físico; que, diante dessa situação, sua esposa agiu rapidamente, puxando a criança pelo braço e conduzindo-a para o interior da residência, a fim de protegê-la", relatou o pai de um menino.

Os suspeitos foram questionados pelos pais das crianças e saíram no veículo em alta velocidade. As pessoas arremessaram pedras e tijolos contra o veículo, quebrando o para-brisa do automóvel

Após a divulgação da prisão do grupo em Maracanaú, os pais de pelo menos outras três crianças procuraram a Polícia Civil para denunciar episódios suspeitos, ocorridos nas últimas semanas, em que vendedores de panela teriam se aproximado e conversado com crianças.

A Delegacia Metropolitana de Maracanaú, da Polícia Civil, aprofunda as investigações contra o grupo, para desvendar qual o objetivo dos suspeitos ao se aproximar das crianças e se há outros envolvidos nas supostas ações criminosas.

Segundo o advogado de defesa Piero Barbacovi, "todos os envolvidos são primários, humildes e extremamente trabalhadores, e exercendo atividade lícita de venda porta a porta".

"Todas as crianças encontradas na residência são devidamente registradas e estavam com seus genitores, não existindo qualquer mínimo indício de sequestro ou crime similar", acrescentou.

Leia a nota da defesa na íntegra:

"A defesa dos custodiados vem a público esclarecer que repudia veementemente as acusações que estão sendo divulgadas, as quais não encontram respaldo nos fatos apurados.

Desde o início, os investigados sempre colaboraram e demonstraram absoluta tranquilidade, certos de que nenhuma conduta criminosa foi praticada. O procedimento, contudo, foi marcado por graves ilegalidades, a começar pela entrada policial em residência sem mandado judicial e sem autorização dos moradores, em afronta direta às garantias constitucionais.

No local, a exceção de uma carabina (comum para proteção em fazendas/chácaras), foram apreendidos apenas bens lícitos, como mercadorias e valores provenientes de atividade comercial regular, além de uma arma devidamente registrada.

Todos os envolvidos são primários, humildes e extremamente trabalhadores, e exercendo atividade lícita de venda porta a porta.

Todas as crianças encontradas na residência são devidamente registradas e estavam com seus genitores, não existindo qualquer mínimo indício de sequestro ou crime similar.

Na Delegacia, o caso foi conduzido de forma irregular e desordenada, com trocas sucessivas de delegados, restrições indevidas ao acesso da defesa e tratamento desrespeitoso aos custodiados e advogados. Ressalte-se que o próprio procedimento já caminhava para a liberação de todos os envolvidos, quando, de forma absolutamente questionável, foi reaberto com base em depoimento colhido posteriormente, após evidente direcionamento policial.

A defesa vai exercer todo o possível para restabelecer a liberdade dos envolvidos.

A busca por justiça e vingança social não pode recair sobre inocentes."

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