Policial penal desviou armas do Estado para facção, em troca de dinheiro e drogas, diz investigação
O servidor público é acusado de subtrair 222 pistolas e 79 armas longas e negociá-las com uma facção criminosa que atua na Grande Messejana, em Fortaleza
A investigação policial sobre o desvio de 301 armas de fogo da Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização do Ceará (SAP) aponta que o policial penal Rocky Marciano Lopes Nogueira vendeu o armamento para uma facção criminosa que atua na Grande Messejana, em Fortaleza, em troca de dinheiro e drogas.
É o que revela um parecer do Ministério Público do Ceará (MPCE), datado da última sexta-feira (23), contrário a um pedido de liberdade impetrado pela defesa de Rocky Marciano no Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE). O servidor público está preso desde o último dia 27 de março.
Veja vídeo da prisão:
O MPCE argumentou que a manutenção da prisão do policial penal "funda-se na garantia da ordem pública, em virtude da gravidade concreta do crime em apuração, levando em consideração que o ora paciente aproveitando de sua função como supervisor do Núcleo de Armamento da Secretaria de Administração Penitenciária (NUARMS/SAP), subtraiu 301 (trezentas e uma) armas de fogo que estava sob sua responsabilidade".
Segundo o Órgão Acusatório, Rocky subtraiu 222 pistolas e 79 armas longas (que não foram especificadas) e as negociou "com traficantes da região da Grande Messejana, principalmente no bairro Paupina, em troca de dinheiro e drogas".
Ao ser investigado por suspeita do desvio de armas, Rocky Marciano foi afastado das funções, em 2023. "Contudo, mesmo afastado em novembro de 2023, o ora paciente continuou agindo de má-fe, após ser designado para o Grupo de Apoio Penitenciário, ele recebeu uma pistola Glock (CAXS000), no dia 08/12/2023, desaparecendo em seguida", indicou o MPCE.
Conforme o parecer do Ministério Público, o policial penal registrou um Boletim de Ocorrência (BO) por um suposto roubo da sua arma, poucos dias depois. Nos meses seguintes, ele foi denunciado por ameaça à namorada. E, ainda segundo o MPCE, ele pretendia fugir do Brasil, para não responder pelos crimes cometidos.
Além da investigação criminal, Rocky Marciano Lopes Nogueira responde a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) na Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário do Ceará (CGD), em razão do desvio do armamento do Estado.
O que diz a defesa?
Ao pedir pela liberdade de Rocky Marciano Lopes Nogueira, a defesa alegou ao TJCE que o cliente "é totalmente primário, nunca antes preso ou processado e não faz parte de organização criminosa. Ademais, o suposto crime não foi praticado com violência ou grave ameaça".
A defesa sustentou que Rocky "está afastado de suas atividades laborais por motivo de saúde e, foi preso em sua residência, com endereço fixo, de conhecimento da Secretaria de Administração Penitenciária, portanto inexistindo risco a garantia da ordem pública, da aplicação da lei penal, da ordem econômica, da conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal".
O depoimento de uma policial penal, que trabalhava com Rocky, foi utilizado pela defesa do acusado. Segundo a defesa, a servidora pública apontou "falhas no procedimento adotado pela Secretaria de Administração Penitenciária, no acautelamento de armas, afirmando não ser seguro", o que pode levar à conclusão, "em virtude dessa falta de segurança, que qualquer pessoa de outros setores que tinham acesso também a estas armas poderiam subtraí-las".
"Outros policiais penais, em seus depoimentos, também informaram a falta de segurança no setor, que também era manuseado por diversos diretores de unidades prisionais, que tinham livre acesso às armas. Importante destacar, que em seu depoimento que ao ser ouvido pela autoridade policial, o paciente alegou inocência, esclarecendo devidamente os fatos", acrescentou a defesa.
O que diz a SAP?
A Secretaria da Administração Penitenciária enfatizou, em nota enviada em março deste ano, que "o desaparecimento de armas de fogo da Secretaria, no ano de 2023, foi percebido e investigado pelo próprio corpo gestor da SAP".
Segundo a Secretaria, "a primeira medida da Pasta foi afastar o policial penal da função de organização das armas, comunicar o fato para a Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD) e iniciar um levantamento de patrimônio dos armamentos pertencentes à Secretaria para contribuir nas investigações da Controladoria".
A SAP também comunica que, no período do afastamento e investigação, o policial penal Rocky Marciano Lopes Nogueira deixou de comparecer ao serviço e abandonou o emprego que exercia na Secretaria. Diante da situação, a SAP formalizou a condição de 'abandono de cargo público' do servidor e oficializou pedido de providências junto à Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD), assim como foi feito no inquérito policial que a CGD conduz sobre o desaparecimento das armas pertencentes ao Estado."
Apesar das investigações criminal e administrativa e da condição de "abandono de cargo público", Rocky Marciano Lopes Nogueira continua a receber o salário pago pelo Estado, conforme o Portal da Transparência do Governo do Ceará. No último mês, abril de 2025, ele recebeu um salário líquido de R$ 5,4 mil.