Morte de menino na Aldeota com tiro de PM completa 15 anos; saiba o que aconteceu com o policial acusado
A morte do garoto ocorreu no cruzamento da Rua Beni de Carvalho com a Avenida Desembargador Moreira, em uma abordagem desastrosa
Na tarde do dia 25 de julho de 2010, o adolescente Bruce Cristian de Oliveira Sousa, de 14 anos, voltava com o pai, na garupa de uma moto, após um dia de trabalho, quando foi atingido na cabeça por um disparo vindo da arma de um policial militar. A morte do garoto ocorreu no cruzamento da Rua Beni de Carvalho com a Avenida Desembargador Moreira, em decorrência de uma intervenção policial, em mais um desfecho trágico de uma abordagem desastrosa.
O Diário do Nordeste relembra o caso emblemático que completa 15 anos na sexta-feira (25). Na versão do policial Yuri da Silveira Alves Batista, responsável pelo disparo e que estava em uma viatura do Ronda do Quarteirão, foi dada uma ordem de parada devido a uma suspeita, e a dupla na moto não obedeceu.
O pai de Bruce, o técnico em refrigeração Francisco das Chagas de Oliveira Sousa, negou ter ouvido qualquer ordem de parada. Na época, o Diário do Nordeste foi ao local do fato e noticiou que o único tiro dado ultrapassou o capacete e entrou na nuca do garoto, saindo no olho esquerdo dele. Bruce morreu na hora.
O caso causou comoção pública. A Justiça decidiu levar o soldado a Júri Popular pela morte do estudante. Em 2017, no decorrer do processo e já demitido da Corporação, Yuri morreu após ser atropelado por um ônibus, na Avenida Domingos Olímpio, em Fortaleza. Assim, ficou extinta a punibilidade do réu.
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Testemunhas afirmaram que o ex-PM colocava mercadorias em seu veículo pessoal, parado próximo à faixa exclusiva de ônibus, quando um coletivo colidiu com a porta do automóvel e passou por cima da vítima.
LETALIDADE POLICIAL
A reportagem solicitou à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) quantas mortes por intervenção policial foram registradas no Ceará nos últimos 15 anos. No entanto, os dados desse período, segundo a própria Pasta, só passaram a ser contabilizados a partir de 2013, três anos depois da morte de Bruce Cristian.
"A SSPDS-CE informa que as estatísticas de mortes decorrentes de oposição à intervenção policial somente começaram a ser sistematizadas pela Supesp a partir do ano de 2013. Diante disso, a Superintendência não possui dados referentes a esse tipo de ocorrência nos anos anteriores", disse a Secretaria por nota.
A reportagem levantou que de janeiro de 2013 até junho de 2025 foram contabilizadas 1.649 mortes por intervenção policial no Estado. 84 só neste ano de 2025, até o último mês de junho.
No ano passado foram 189 ocorrências e em 2023, 147. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, divulgado nessa quinta-feira (24), "na média Brasil, em 2023, as mortes decorrentes de Intervenção Policial correspondiam a 13,8% do total de Mortes Violentas Intencionais (MVIs), nomenclatura usada pelo Anuário. Em 2024, esse percentual teve leve alta, atingindo 14,1%".
"A letalidade policial é um fenômeno seletivo, e os dados de perfil das vítimas demonstram que determinadas – e já conhecidas – parcelas da população são mais vitimizadas que outras. A grande prevalência de vítimas do sexo masculino se confirma com um percentual de 99,2%"
AÇÕES OSTENSIVAS
A SSPDS diz que as ações ostensivas realizadas pelas Forças de Segurança do Ceará "são direcionadas conforme as recomendações da Portaria Interministerial nº 4.226/2010 do Ministério da Justiça e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que trata da legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência do “Uso Progressivo da Força". Além disso, para reforçar esse compromisso com a legalidade das ações, todos os profissionais passam por disciplinas e formações, por meio da Academia Estadual de Segurança Pública (Aesp), relacionadas a protocolos humanizados".
"A partir do segundo semestre de 2024, seguindo diretrizes da SSPDS e sob orientação dos indicadores da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), foram implementadas mudanças em estratégias e realizados novos investimentos pelo Governo do Ceará para a redução das mortes violentas. Em resposta aos novos direcionamentos, as Forças de Segurança do Ceará diminuíram os Crimes Violentos Letais Intencionais, entre julho e dezembro de 2024. Seguindo a mesma tendência de queda, as mortes por intervenção policial, que têm excludente de ilicitude, reduziram 11% em todo o estado, em comparação com os seis primeiros meses do mesmo ano. Ao todo, foram 89 registros na segunda metade de 2024, contra 100 ocorrências no período anterior"
A Pasta diz que trata "todas as mortes decorrentes de intervenção policial com seriedade e transparência. As ocorrências são apuradas com instauração de inquérito policial pela Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) e submetidas à apreciação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE)".