"Meu filho era bom", diz mãe de jovem morto com 3 tiros nas costas

Laudos apontam que algumas das vítimas da 'Chacina da Messejana' foram surpreendidas pelos tiros ou mortas enquanto corriam

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Redação producaodiario@svm.com.br

Quase sete meses após a maior chacina da história de Fortaleza, as famílias das vítimas ainda se perguntam quando serão divulgados os nomes dos responsáveis pelas execuções e quando eles serão punidos. Trinta e oito policiais militares foram indiciados pelas 11 mortes que aconteceram na madrugada do dia 12 de novembro do ano passado, nas ruas dos bairros Curió e São Miguel, na Grande Messejana.

O inquérito foi enviado pela Controladoria de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD) ao Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), em abril deste ano. Os promotores do caso devem concluir a denúncia nos próximos dias, conforme adiantou ao Diário do Nordeste o procurador geral de Justiça Plácido Rios.

Enquanto os nomes dos acusados não são divulgados, a reportagem teve acesso com exclusividade aos laudos cadavéricos de cinco das 11 vítimas. Tiros nas costas, braço, cabeça. Disparados à distância e também à queima roupa culminaram com a morte de Patrício João Pinho Leite, 16; Jardel Lima dos Santos; 17; Alef Souza Cavalcante, 17; Pedro Alcântara Barroso do Nascimento Filho, 18; e Renayson Girão da Silva, 17.

O relato técnico presente nos documentos, quando são lidos isoladamente, não dão a dimensão do episódio que ficou conhecido como 'Chacina da Messejana'. No entanto, o parecer dos peritos é corroborado e ilustrado pelos relatos de testemunhas repassados à reportagem na voz dos parentes das vítimas.

Os termos médicos e periciais também não remetem ao medo e terror vivido pelos adolescentes, somente possíveis ao conversar com parentes, inconformados com a brutalidade dos crimes e a ausência de punição. A morte de Patrício Pinho Leite, que faria 17 anos no próximo dia 10, é um desses casos.

O laudo cadavérico aponta que ele usava uma bermuda cinza, camisa branca e apresentava "uma ferida... Compatível com entrada de projétil de arma de fogo, localizada na região interparietal (cérebro)". A análise pericial constatou ainda uma "hemorragia cerebral" e também que "o projétil descreve uma trajetória no corpo da vítima: de frente para trás e de cima para baixo em linha reta". Os termos de difícil entendimento para os que não estão acostumados com a linguagem pericial, pode ser simplificado: Patrício foi morto com um único tiro na cabeça.

Conforme o relato de testemunhas, ele estava sentado na frente da casa do amigo Marcelo da Silva Mendes exatamente a 1h54 do dia 12 de novembro de 2015. Nesse momento, policiais militares chegaram ao local e iniciaram agressões a coronhadas em Patrício, que caiu. Em seguida foram ouvidos tiros.

O adolescente permaneceu inerte no chão. Marcelo também foi baleado e morto pelos mesmos homens, segundo as testemunhas. O celular que Patrício carregava consigo sumiu. Restaram apenas os fones de ouvido, encontrados ainda no corpo da vítima.

Diferentemente de Patrício, os três adolescentes Alef Cavalcante, Jardel dos Santos, ambos de 17 anos; e Pedro Alcântara Filho, 18, não foram mortos com um, mas com três tiros, quatro e cinco tiros, respectivamente. Alef e Jardel moravam no Conjunto São Cristóvão, situado a 8Km do Curió. Estavam jogando futebol na noite do dia 11 de novembro e Jardel resolveu ir para a casa de uma tia, no Curió. Ele convidou vários amigos, mas o único que aceitou o convite foi Alef.

Lá, encontrou outros colegas. O grupo de adolescentes, formado por Jardel, Alef, Pedro Filho e Antônio Alisson Cardoso, estava reunido na porta da casa da tia de Jardel. Às 0h20, de acordo com testemunhas, foram surpreendidos por policiais militares com os rostos cobertos. A perícia feita no corpo de Jardel mostra que no corpo dele foi verificada "a presença de quatro orifícios circulares... Compatíveis com entrada de projeteis de arma de fogo, com característica de tiro a distância, exceto por uma das lesões em face (rosto), que apresenta características de tiro a curta distância".

Jardel levou dois tiros nas costas e dois na cabeça, um deles entre os olhos castanhos. "Meu filho e o Alisson, que estava ao lado dele, não tiveram nenhuma chance de defesa. Eles foram os primeiros a morrer. Os outros ainda conseguiram correr, por isso os tiros foram nas costas. Quero que você bote quantos tiros ele levou e onde foi para a sociedade saber como eles foram crueis", disse entre lágrimas, Suderli Pereira de Lima, mãe de Jardel.

Já Alef foi executado com três tiros nas costas, que saíram no pescoço e no tórax. "Meu filho morreu correndo", disse chorando Edna Souza. "A revolta que eu tenho é que isso já devia ter sido resolvido". Edna conta que, ontem, sonhou com o filho sorrindo. "Meu filho era bom. Nunca recebi reclamação dele. Estudava e queria começar a trabalhar. O governador nunca veio falar com as famílias. Exijo a presença dele para conversar com as famílias das vítimas".

Opiniões

A reportagem conversou com fontes da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) com experiência na investigação de centenas de homicídios para que dessem suas opiniões sobre a dinâmica das mortes com base nos laudos. As fontes destacaram a dificuldade em emitir opiniões sem ter acesso ao conteúdo completo da apuração.

No entanto, os servidores afirmaram que os casos em que houve registro de ferimentos por arma de fogo na cabeça, com a arma utilizada muito próximo da vítima, existe um indicativo de execução. Em outros casos, com dois e até três tiros nas costas e nos braços, em posição de defesa, uma das fontes afirmou que, "tudo indica que ele se deparou com os atiradores, tentou se proteger e foi atingido no braço. Depois tentou fugir correndo e acabou ferido nas costas".

Pedro Alcantara Filho foi abordado no mesmo grupo de Jardel e Alef. Mesmo com cinco tiros, sendo um no antebraço, outro no abdome e três nas costas, ele conseguiu correr até a porta de casa, onde caiu agonizando. Os tiros colapsaram pulmão e coração causando a morte do jovem. Já Renayson Girão foi atingido por cinco tiros, dois deles na cabeça. Um no braço e outro no tórax.

A reportagem entrou em contato com uma das promotoras de Justiça que acompanha o processo referente à chacina, mas não obteve resposta.