Chacina do Curió: advogado é investigado por suposto uso de Inteligência Artificial para manipular provas
MPCE pediu que a Polícia instaurasse inquérito e peritos apontam que houve edição na imagem.
O uso de Inteligência Artificial (IA) para, supostamente, manipular uma imagem a favor de um dos policiais militares acusados pela Chacina do Curió resultou em um 'novo capítulo' do caso. Um advogado suspeito de fraude processual no curso de processo penal é alvo de inquérito instaurado pela Polícia Civil do Ceará (PCCE) após pedido do Ministério Público do Ceará (MPCE).
O advogado, de identidade preservada neste momento por não ter sido ainda indiciado, apresentou a imagem manipulada, conforme peritos, durante a sessão de debates no Tribunal do Júri, no Fórum Clóvis Beviláqua, em Fortaleza.
O MP apontou que a apuração de eventual fraude processual exige investigação formação, técnica e isenta, já que há um "potencial impacto na regularidade da prova judicial". Nas últimas semanas, policiais foram ao escritório do advogado e tentaram contato via Whatsapp, mas ainda não conseguiram intimar o suspeito para que ele seja ouvido formalmente na delegacia.
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ENTENDA O CASO
Durante a tréplica em um dos julgamentos relacionado à Chacina do Curió, o advogado afirmou: "prezados julgadores do povo, isso daqui foi jogado no Gemini, inteligência artificial, e foi dado na engenharia de prompt um comando pedindo para deixar realista e descrever com a máxima realidade as características do veículo apontado. O resultado que dá? Um cobalt...".
VEJA IMAGENS:
O MP apontou que o advogado teria anexado aos autos do processo, três dias antes do júri, "uma fotografia distorcida e com vestígios de edições" oriunda de um laudo da Perícia Forense do Ceará, com data de 2016, ano seguinte à chacina.
O veículo em questão foi flagrado por câmeras de segurança sendo utilizado por autores da chacina.
O colegiado de promotores de Justiça requisitou a instauração de um inquérito policial indicando que "os fatos estariam relacionados à suposta manipulação, supressão ou substituição de vestígios digitais especialmente quanto à qualidade e ao tratamento de imagens audiovisuais juntadas em processo criminal relacionado à denominada Chacina do Curió".
"Juntou imagem da perícia, mas desta feita com nitidez e qualidade superior à do próprio vídeo, trazendo informação que o veículo não é um Toyota Etios, mas um da marca Chevrolet"
A Polícia determinou a juntada integral dos documentos, análise técnica preliminar dos laudos periciais já produzidos, oitivas e acionou a Perícia Forense do Ceará (Pefoce) para analisar a imagem apresentada no ano passado.
EDIÇÃO NA IMAGEM
Os peritos realizaram um exame denominado 'verificação de edição em registro de multimídia'. O resultado apontou que em determinada figura há uma sobreposição que ressalta grandes divergências entre a posição, dimensão, faróis, logomarca e rodas dos veículos: "tais divergências são fortes indícios de adulteração e não de tratamento de imagens, pois o procedimento de tratamento de imagens tem o objetivo de ressaltar informações já contidas na matriz de dados da imagem, e não deve alterar a posição dos pixels".
Conforme a perícia, foi criada uma máscara de contorno a partir da imagem: "isso ressalta uma edição por adição de imagem externa em posição similar, mas não perfeitamente coincidente com o veículo anteriormente extraído" e que os "vestígios de edições, supressão e substituição têm caráter fraudulento na imagem".
"Tais edições têm relevante potencial para modificar as estruturas do veículo localizado no centro da imagem".
As estruturas mais modificadas, conforme os peritos, foram: faróis traseiros, posição da logomarca traseira do veículo central e textura da cor.
Os peritos responsáveis pelo laudo foram ouvidos na delegacia e confirmaram: as imagens foram manipuladas. O caso segue tramitando na 10ª Vara Criminal de Fortaleza.
CHACINA DO CURIÓ
A Chacina do Curió completou 10 anos no último mês de novembro. O caso chegou à fase de julgamentos em junho de 2023, após 7 anos e 7 meses da matança. Em cinco júris populares realizados até então, 21 policiais militares foram absolvidos e oito PMs foram condenados pelos homicídios.
Vítimas sobreviventes e testemunhas da Chacina foram ouvidas e os réus, interrogados, perante os juízes.
Quem morreu na Chacina do Curió
- Álef Souza Cavalcante, 17 anos;
- Antônio Alisson Inácio Cardoso, 17 anos;
- Jardel Lima dos Santos, 17 anos;
- Marcelo da Silva Mendes, 17 anos;
- Marcelo da Silva Pereira, 17 anos;
- Patrício João Pinho Leite, 17 anos;
- Renayson Girão da Silva, 17 anos;
- Pedro Alcântara Barroso, 18 anos;
- Jandson Alexandre de Sousa, 19 anos;
- Valmir Ferreira da Conceição, 37 anos
- Francisco Enildo Pereira Chagas, 41 anos.
Os próximos desdobramentos do caso
Os cinco julgamentos não encerraram o caso conhecido como Chacina do Curió. O Ministério Público do Ceará recorreu ao Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) sobre as absolvições dos réus, ao passo que as defesas dos PMs condenados também recorreram.
O soldado PM Eliézio Ferreira Maia Júnior, que alegou insanidade mental à Justiça, também pode ser julgado, nos próximos anos. A defesa do militar sustenta que ele não tem condições psicológicas de ir a júri popular.