'Japinha' e 'Tenebrosa' do PCC: quem são as mulheres da 'ala feminina da facção' condenadas no Ceará

Trechos de ligações e conversas vistoriadas pelos investigadores mostraram que a dupla mantinha 'conferência com mulheres do PCC'.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
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Legenda: A primeira fase da 'Operação Eclodes' foi deflagrada em 2021, após o recebimento dos relatórios das interceptações telefônicas e telemáticas.
Foto: Divulgação/PCCE.

A Justiça do Ceará decidiu condenar duas mulheres acusadas de manter ligação direta com a facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). Benedita de Sousa Ferreira, conhecida como 'Camila' ou 'Japinha do PCC'; e Jocilene Mendes, a 'Tenebrosa', foram sentenciadas pelos crimes de tráfico de drogas, associação para o tráfico e integrar organização criminosa.

As autoridades chegaram às mulheres por meio de conversas telefônicas interceptadas. O Diário do Nordeste teve acesso a documentos nos quais constam que 'Japinha' e 'Tenebrosa' exerciam função de liderança dentro do grupo criminoso. 

A Polícia Civil obteve detalhes de como agia uma célula da facção no Estado e deflagrou a operação Eclodes, a partir das "fortes evidências dos crimes". Nas conversas, a dupla costumava se referir a uma "conferência com mulheres do PCC".

Benedita e Jocilene foram condenadas, cada uma, a cumprir 17 anos, sete meses e 15 dias de prisão. Além delas, os juízes da Vara de Delitos de Organizações Criminosas condenaram na mesma ação penal o réu Francisco John Sousa, por tráfico e associação para o tráfico. A pena dele é de oito anos de prisão.

Em 2024, outros réus deste mesmo caso já tinham sido condenados. Dentre eles, uma mulher identificada como Micaele da Rocha Ferreira, a 'Pimentinha do Inferno'. 

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As defesas dos réus não foram localizadas pela reportagem. Benedita e Jocilene permanecem na condição de foragidas da Justiça.

'PROVAS ROBUSTAS'

Em uma das conversas interceptadas com autorização da Justiça, 'Japinha' se revelou como importante integrante do PCC, "ocupando o cargo de liderança denominado 'frente', atuando no Bairro Caiçaras, restando bem evidente a sua liderança na facção criminosa no interior do Ceará".

"Das provas angariadas, restou evidente que a 'Camila' exerce o tráfico de drogas, tendo como um de seus fornecedores a pessoa de nome 'Eduardo'. Ademais, 'Camila' participava das reuniões diárias da 'ala feminina' da orcrim, representando a 'GERAL DO INTERIOR', sendo sua presença tida como necessária para o prosseguimento das reuniões, comprovando a sua posição de destaque no PCC".

Jocilene Mendes, a 'Tenebrosa', também foi denunciada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE), que apontou que a mulher tinha atividade de comando no interior do Estado, além de auxiliar pessoas ligadas à facção fora do Ceará.

Conforme a acusação, 'Tenebrosa' tem a pessoa de 'Mente Pensante' como um dos seus fornecedores de drogas, "o qual encontra-se cumprindo pena privativa de liberdade em uma penitenciária no estado de Mato Grosso do Sul".

Os relatórios de interceptação telefônica evidenciam que Benedita participava de reuniões periódicas da 'Ala Feminina do PCC', conhecidas como conferências feitas entre as mulheres para decisões atreladas ao grupo criminoso.

VEJA TRECHOS DAS CONVERSAS:

FRASES, transcricoes, conversas celular.
Legenda: As transcrições foram usadas pela acusação para embasar a denúncia.
Foto: Reprodução.

transcricao 2.

"A transcrição dos áudios acima revelou que são realizadas conferências com mulheres faccionadas do PCC, conhecida como ala feminina, sendo que essas reuniões são realizadas diariamente com diversas mulheres integrantes da facção, representando cada uma um setor da orcrim, com o objetivo de 'passar a alteração' da situação atual da facção. Ou seja, a reunião é feita para se discutir eventuais problemas e/ou dificuldade que cada 'quebrada', porventura esteja experimentando", de acordo com o MPCE.

Para a acusação, os diálogos ainda revelam que as acusadas demonstram conhecimento prático sobre o tráfico organizado.

Em uma das situações, quando Benedita diz em conversa que "sobrevive só com isso aí, não tenho outro corre", os promotores de Justiça entendem que isto "evidencia que o tráfico de drogas constitui sua atividade habitual e meio de subsistência, afastando qualquer alegação de eventualidade ou consumo pessoal".

"Infere-se, também, que é indispensável a presença de uma representante de cada área da facção no Estado para que a alteração ocorra, assim como os outros procedimentos internos da facção. Dessa forma, evidenciada restou a posição de liderança que a denunciada 'CAMILA” ostenta como representante da área geral do interior, bem como a sua importância na hierarquia da orcrim, eis que necessária a sua presença para que as reuniões do PCC se concretizem na região em que ela atua (Sobral)"
MPCE.

OPERAÇÃO ECLODES

A primeira fase da 'Operação Eclodes' foi deflagrada em 2021, após o recebimento dos relatórios das interceptações telefônicas e telemáticas. 
 
A investigação revelou atuação de dois núcleos principais: um ligado ao PCC, no bairro Sumaré, e outro, maior, pertencente ao CV, o Comando Vermelho, na região do 'Corte 8', em Sobral.

De início, foi apontado que Francisco John, o 'Negão' também era vinculado ao PCC e traficava de forma "reiterada e volumosa, citando como exemplo a prisão de um motorista de ambulância que confessou adquirir drogas com o acusado, fato que corroborou os áudios interceptados".

O acusado foi preso em 13 de junho de 2024, em Independência, Interior do Ceará. 

"Os diálogos, muitas vezes, são travados em códigos ou utilizando expressões que denotariam o comércio de objetos lícitos. Mas, considerando os antecedentes do Francisco John e as demais evidências angariadas pela Autoridade Policial, não resta qualquer margem de dúvida de que ele efetivamente associou-se a outras pessoas e estava exercendo o tráfico ilícito de entorpecentes".

Na residência de John foi encontrada maconha. O homem negou em depoimento que mantinha qualquer vínculo com Benedita de Sousa e Jocilene Mendes, e que não tinha posição de chefia em nenhum grupo criminoso.

O Judiciário considerou a condenação do trio como 'imperiosa' e apontou que a "materialidade e a autoria encontram-se demonstradas nos relatórios das interceptações telefônicas, que trazem diversos diálogos a explicitar que os acusados atuavam na venda de drogas", sendo que John não foi sentenciado por integrar facção.

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