Crime sob encomenda: ex-PM é condenado por executar empresário em Maracanaú
O assassinato teria sido encomendado por empresários.
O ex-policial militar Lúcio Antônio de Castro Gomes, o 'Lução', foi condenado nessa terça-feira (14) pela morte de um empresário e tentativa de assassinato de um vendedor. Mais dois policiais militares também são acusados pelos crimes, mas ainda não foram a julgamento, porque alegaram 'insanidade mental'.
O Conselho de Sentença decidiu que 'Lução' foi responsável pela execução da vítima Kleber de Brito Quirino e de um sobrevivente do ataque. O réu já respondia ao processo em privação de liberdade e agora deve cumprir 16 anos, seis meses e quatro dias de prisão.
O juiz da 1ª Vara Criminal de Maracanaú destacou na decisão que "o acusado, ao contratar o executor que efetuou os disparos contra a vítima fatal, terminou por atingir um terceiro e consequentemente concorreu para o crime de lesão corporal".
Conforme documentos obtidos pela reportagem, o crime teria sido encomendado por outros empresários que, supostamente, pagariam R$ 250 mil aos executores.
Os empresários estariam rivalizando com a vítima Kleber de Brito Quirino e a família dela, porque disputavam espaço no ramo de frigoríficos da região.
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Os empresários chegaram a ser investigados e houve busca e apreensão na casa deles, mas não houve provas e eles não chegaram a ser denunciados.
O júri do ex-PM chegou a ser remarcado pelo menos duas vezes. A defesa dele não foi localizada pelo Diário do Nordeste para comentar sobre a decisão, e este espaço segue em aberto para possíveis manifestações futuras.
PROCESSO DESMEMBRADO
O sargento Gilson Valério da Silva, conhecido como 'Subvalério' e o PM Eliézio Ferreira Maia Júnior, conhecido como 'Gago' são os outros dois réus pelo assassinato do empresário.
Eliézio também era um nome conhecido na Polícia Civil. Ele é um dos denunciados pela Chacina do Curió, ocorrida há 10 anos.
Em ambos os casos, a ida a julgamento foi suspensa porque as defesas dos acusados declararam a 'insanidade mental' deles.
Há dois meses, a Justiça determinou o desmembramento do processo em relação a dupla e foi suspensa a ação penal, com consequente nomeação dos curadores "até que nova avaliação pericial ateste suas capacidades processuais".
Lúcio já tinha antecedentes criminais por outro homicídio em Maracanaú e disse às autoridades que foi expulso da PMCE "em razão de estar de licença e flagrado fazendo segurança".
O outro homicídio ao qual Lúcio se referia era o do comerciante Francisco Valter Portela. Já neste ano de 2025 ele foi absolvido.
'MATADOR DE ALUGUEL'
Kleber estava no frigorífico no dia 20 de dezembro de 2019, por volta das 14h, quando homens armados chegaram ao local. Um homem chegou perguntando se havia vaga de emprego e quando avistou o alvo efetuou os disparos. O funcionário "também foi atingido, por erro de execução, mas sobreviveu".
Kleber foi atingido com oito disparos "sem qualquer possibilidade de defesa ou reação"
De acordo com documentos a que a reportagem teve acesso, "as investigações começaram a ter um rumo mais concreto quando o pai da vítima foi reinquirido. Na ocasião, ele disse que suspeitava que o crime pudesse ter relação com a concorrência em seu ramo empresarial".
Meses depois, uma mulher foi à Delegacia de Homicídios informando que Jonathas Ferreira Lima, reconhecido como executor de Kleber, foi assassinado. Jonathas morreu poucos dias após o empresário e, de acordo com a denunciante, teria confessado a ela que ele e outros assassinaram Quirino em troca de dinheiro.
A investigação continuou até a Polícia chegar nos nomes dos PMs e do ex-PM. Lúcio Antônio teria sido contratado como 'matador de aluguel' para providenciar três homicídios, os dos administradores do frigorífico 'rival'. A recompensa pelo serviço seria de R$ 250 mil.
"Deste modo, "Lução" operacionalizou a empreitada criminosa, tendo suporte do subtenente Gilson Valério e de Eliézio Ferreira (soldado da polícia militar). Os 03 (três) aliciaram Jonathas Ferreira (ex-guarda municipal) do município de Acarape/Ce para que este executasse os membros da família".
O plano foi colocado em prática, tendo os outros alvos não morrido porque não estavam no local no momento da execução.
A família da vítima recorda que "Kleber era uma pessoa alegre, responsável, que se dava bem com todo mundo. Quando aconteceu ficamos sem chão, sem entender como era possível algo do tipo ter acontecido com ele, pois ele não tinha envolvimento com nada de errado, era trabalhador, pai de família, uma pessoa boa".