18 cidades do Ceará não registraram homicídios em 2021, enquanto 5 somam 45% das mortes violentas

Os números altos nas grandes cidades refletem a ocupação de territórios por parte das facções criminosas. Já moradores das pequenas cidades falam sobre rotina tranquila com o prazer de sentar na calçada para conversar

Escrito por Emanoela Campelo de Melo, emanoela.campelo@svm.com.br

Segurança
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Legenda: 2021 encerrou com quase mil mortes violentas somente na capital cearense
Foto: Rafaela Duarte

O contraponto de quem vive em conglomerados urbanos e quem permanece nas cidades interioranas onde "todos se conhecem" é comprovado a partir dos números relacionados à violência. Em 2021, 18 cidades do Ceará não registraram assassinatos. O levantamento feito pelo Diário do Nordeste a partir dos dados disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) revela que distante da Capital, com quase mil mortes violentas no ano passado, há locais onde prevalece a sensação de segurança.

Dentre os municípios com menor índice de mortes, a cidade de Caririaçu tem o maior número de habitantes, conforme estimativa do IBGE. Com pouco mais de 27 mil residentes, ali persiste a rotina de ao anoitecer os vizinhos sentarem nas calçadas para conversarem, sem a preocupação se vão ser ou não abordados por criminosos.

Já os municípios considerados como mais perigosos no Ceará, devido ao alto índice de Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs), que englobam homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, são: Fortaleza, com 902 casos; Caucaia, 276; Maracanaú, 116; Sobral, 110; e Juazeiro do Norte, 92 casos. Somadas as ocorrências nas cinco localidades são 1.496 homicídios, quase 45% dos 3.299 contabilizados pela SSPDS em todo o Estado, em 2021.


O levantamento aponta que 37 municípios têm baixo índice de CVLIs, considerando que neles foram registrados de um a três assassinatos em 2021. Entre eles temos: Aiuaba, Ererê, Mulungu, Palmácia e Senador Pompeu. Assim como na Capital e RMF, predomina no Interior o mesmo perfil das vítimas: sexo masculino, baixa escolaridade, de 18 a 35 anos e morta por disparos de arma de fogo.

Os dados refletem a predominância das facções criminosas em determinados espaços. Onde o tráfico de drogas e de armas se instala, a violência aflora como consequência.

Em entrevista concedida ao Diário do Nordeste, o secretário titular da SSPDS, Sandro Caron afirmou que: "A secretaria tenta evitar chegada das facções nas cidades do interior, onde permanece a sensação de segurança. A principal estratégia para isso é a ação de Inteligência que se monitora o avanço dos grupos criminosos. Quando se constata tentativa de expansão para determinada área já se procura agir de imediato para evitar instalação de pontos de vendas de drogas em municípios que ainda estão imunes a esta ação".

"Onde há números maiores de homicídios instalamos núcleos da Polícia Civil especializados na investigação deste tipo de crime, reforço da tropa militar nas manchas criminais e combate ao tráfico de drogas. O crime-mãe que gera todos os outros crimes graves é o tráfico de drogas. Grande parte dos homicídios que acontecem no Estado têm relação com a disputa de tráfico de drogas. Combatendo o tráfico de drogas enfraquecemos os grupos criminosos"
Sandro Caron
Secretário da Segurança Pública do Ceará

Para o sociólogo e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da UFC, Luís Fábio Paiva, os números ainda comprovam que "segurança pública não é um problema de policiamento, mas de relações sociais orientadas para uma boa convivência".

"Em territórios menos povoados e com melhor integração da comunidade, é possível encontrar melhores condições de segurança e bem estar para população. Isto tem um impacto na gestão da vida e da maneira como cada pessoas irá atuar para a criação de um território seguro", afirma o especialista ao ponderar que as dinâmicas sociais de forma aprofundada dos locais onde não há homicídios ao longo de um ano.

 

As 18 cidades do Ceará sem homicídios em 2021 e a população estimada pelo IBGE:

  •  Altaneira - 7.712

  • Antonina do Norte - 7.042

  • Arneiroz - 7.848

  • Baixio - 6.318

  • Caririaçu - 27.008

  • Catarina - 21.041

  • Chaval - 13.112

  • Granjeiro - 4.784

  • Ipaporanga - 11.597

  • Itaiçaba - 7.094

  • Meruoca - 15.309

  • Miraíma - 13.965

  • Moraújo - 8.833

  • Piquet Carneiro - 17.210

  • Porteiras - 14.920

  • Potiretama - 6.455

  • Tarrafas - 8.555

  • Umari - 7.740

     

A REALIDADE DE QUEM CONHECE DE PERTO AS CIDADES


Enquanto Everaldo Penha fala que Porteiras, cidade onde mora há 37 anos, desde que nasceu, "é um paraíso", moradores da Capital e Região Metropolitana reclamam e relatam "piora na segurança". De acordo com Everaldo, em Porteiras, cidade ao sul do Estado, "todo mundo pode dormir com a janela aberta quando está calor". O último episódio violento que ele recorda aconteceu há mais de uma década. Um assalto a uma farmácia, seguido por roubo de veículo que terminou com os suspeitos mortos.



As falas de outros populares que residem nos municípios com menos índices de mortes corroboram os números. Na cidade de Catarina, Elcileide Mendonça acredita que a harmonia entre a vizinhança influenciam para a não-adesão ao "mundo do crime”.

"Nasci e me criei em Catarina. Todo mundo se conhece e as famílias se respeitam muito. É assim: quem é fulano? É da família tal, filho de fulano de tal. Tem essa referência e eu acredito que isso faz com que exista o zelo".
Elcileide Mendonça

Situação similar é observada em Arneiroz. Conforme o advogado Ronney Chaves, a rotina interiorana, de cidade pequena é saldo positivo: "Acredito que um dos motivos de não ter morte é que todo mundo se conhece. Então se acontece algo com alguém todo mundo sabe logo quem foi. Desconheço se existe grupo criminoso em Arneiroz, nunca vi nada sobre divisão de bairros", diz.

Ainda a partir da lista dos locais menos violentos, a reportagem conversou com mais moradores de outras cidades. Saiba o que eles dizem:

"Sou natural de Caririaçu e toda a minha família também. É mantido o costume de todos se conhecerem, nas ruas à noite as pessoas sentam na calçada para conversarem. Até teve um período marcado por violência, há uns cinco anos. Agora, as mortes que acontecem muitas vezes são por acidente de moto, porque não usam capacetes"
Neri Soares Santana
Morador de Caririaçu

seguranca caririacu
Legenda: Neri e a mãe mantêm o costume de sentar na calçada para conversarem, em Caririaçu
Foto: Franciniltom Soares

 

"Com o avanço das drogas, das facções a cidade tem assaltos, o banco já foi atacado. Mas até agora tudo é sem vítima, sem morte.. Permanece sendo uma cidade tranquila, mas já existem algumas preocupações, como por exemplo não ficar com o celular exposto enquanto conversa na calçada"
Laércio Vitoriano
Morador de Piquet Carneiro

"Tarrafas é tranquilo. Uma cidade abençoada. Temos três policiais e não vemos violência, confusão. Nunca vi facção por aqui. Somos pessoas hospitaleiras, todo mundo de família e que acaba se conhecendo. Durante a noite as pessoas vão à praça"
João Deniciano Mendes Araújo
Morador de Tarrafas

 

Já quem mora em Caucaia, na Grande Fortaleza, se preocupa com a migração dos grupos criminosos. Segundo um morador da cidade, que terá sua identidade preservada, desde 2019 houve uma piora significativa na segurança. Ele atribui à movimentação dos grupos armados, afirma que nos bairros mais afastados vêm sendo cada vez mais comum registros de mortes por acerto de contas e diz que predomina a regra imposta pelos traficantes.

"Mesmo em pequenas comunidades, vemos pichações marcando o território de determinada facção. Na área das praias, onde existe incentivo turístico, vez ou outra a gente ouve falar de assalto ou furto. Então, até nós moradores precisamos tomar cuidado quando frequentamos outras localidades. Baixar os vidros ou andar sem capacete virou praticamente uma lei".