Vaqueiros resistem ao tempo

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Os heróis sertanejos insistem em manter viva a tradição de correr no mato à procura da boiada
Foto: André Lima

Personagem central do chamado folclore do ciclo do gado, o vaqueiro, figura viva na cultura do sertão nordestino, luta sem limites para manter acesa a chama da tradição que une coragem e força na luta árdua do dia-a-dia. Muitas vezes o homem se alia ao cavalo e ao cachorro, companheiros inseparáveis, para conseguir seu intuito que é pegar o boi entre as matas secas do sertão brabo. Por entre a vegetação seca, cactus, pedras e áreas acidentadas, custe o que custar, o vaqueiro cumpre sua tarefa sem temor, embora resulte em ter o rosto retalhado por galhos de árvores na corrida pela sobrevivência: exemplo de força, fé e determinação.

Antônio Carlos Alves
colaborador

No Sertão Central, em pleno semi-árido nordestino, mais precisamente em Canindé, o vaqueiro desafia seus próprios limites e sobrevive, mesmo sem apoio, aos tempos modernos. Esta concepção heróica presente na vida do homem do campo, conhecido como guerreiro encourado da caatinga, tem uma explicação: manter a tradição que vem de pai para filho. Para muitos historiadores, essa descrição rápida do vaqueiro e seu sertão descendem o cangaceiro, o ambulante de rua, o camelô de praça, o papangu de feira, o velho careta e o Ceará moleque.

Nos sertões de Canindé, foi criada a Associação dos Vaqueiros, Boiadeiros e Criadores dos Sertões de Canindé para defender os interesses do vaqueiro e seus costumes. Hoje, são mais de 200 associados que participam ativamente da vida cultural da região. Até uma missa foi idealizada no dia 1º de outubro de 1970, por Raimundo Marreiro, Juarez Coutinho, Dina Maria Martins (única mulher no Nordeste a comandar um grupo de mais de 200 vaqueiros) e frei Lucas Dolle, vigário de Canindé na época.

Essa é a oportunidade que os heróis do sertão encontraram para homenagear o padroeiro da cidade, protetor da natureza e do vaqueiro. A tradição vem sendo mantida há mais de 35 anos. Este ano, a missa será celebrada em outubro, às 11 horas, na praça da gruta de Nossa Senhora de Lurdes. Nos últimos 34 anos a celebração eucarística acontecia sempre às 16 horas.

O poeta Oswald Barroso compara o vaqueiro a um boi selvagem, como um touro criado solto na caatinga. Ele é o herói nos abecês dos cantadores. Boi destemido, sem marca ou canga, sem porteira, afeito à vastidão dos campos sem lei.

Enxuto de carnes, o vaqueiro. Seco de gesto e palavra. Rude de trato. Olhos de luz encandeados. No bronze o sol lhe esculpe a pele. Rios secos, as rugas do rosto. Mãos ásperas feito o couro da rês que acaricia.

Esse é o retrato original da figura mais popular do sertão. O vaqueiro traz consigo uma definição muito simples, porém forte e corajosa.

Mesmo com a modernidade, onde muitos fazendeiros preferiram trocar o cavalo e o vaqueiro por uma simples motocicleta, esse bravo e herói sertanejo ainda insiste em manter viva a tradição de correr no mato à procura de sua presa. O boi muitas das vezes consegue levar vantagem, mas por pouco tempo. É assim a vida árdua do sertão. O vaqueiro, homem destemido, que às vezes deixa seu rosto todo retalhado por galhos de árvores na corrida pela sobrevivência, nos traz uma visão de força, fé e determinação. Apesar das adversidades, esse cidadão bravo e ao mesmo tempo amigo ainda resiste ao tempo e a modernidade.