Tipos populares recriam a história local
Eles não estão em lugar de destaque na dita história oficial — não são ricos, detentores de cargos políticos nem pertencentes às ´grandes famílias” — mas são populares nos lugares onde vivem. Não são políticos, mas saem apertando a mão de quem vê e fazem por onde serem vistos. Alguns, pelo contrário, extravasam um verdadeiro mau humor, mas que é tão despretensioso que até vira a graça. À luz do folclore, os chamados ´tipos populares” representam a alegria, a esperança despretensiosa do povo cearense. São conhecidos por serem muito diferentes. E fazem a diferença. No Vale do Jaguaribe, a elegância da ´Dama de Vermelho”, a “bici-moto” de seu Manel de Nequin, o berimbau recriado por Ivan do Cajueiro, a chatice de Carái, o discurso bêbado de “Mestre Crase” e a irreverência marketeira de Zé de Nêga Publicidade mostram que as verdadeiras figuras populares (literalmente do povo) sempre existem e representam a história viva do povo cearense, moleque por natureza.
E a natureza tratou de presentear o povo de Limoeiro do Norte com a “Dama de Vermelho”. Moça bastante distinta, com roupas à moda Anos 40, sombrinha na mão, muitas pulseiras, colares, gigolé com laço enorme e até um crachá de identificação criado por ela, como se precisasse: “Bethânia, a primeira dama de vermelho de Limoeiro”. Não tem outra cor. Tem passos tão rápidos quanto a fala (sem atropelar palavras) e fôlego para andar a cidade todos os dias. “Ai, que eu sou muito importante. Vou aparecer no jornal”, já saiu espalhando pela cidade após o encontro com a reportagem.
Ana Betânia Costa e Silva, 21 anos, sempre foi diferente, especial. Tem deficiência mental, mas memória invejável. Sabe os nomes completos de todos os ministros, diretores de instituições públicas federais — todo dia assiste à TV Câmara. Registra, como poucos, datas e acontecimentos. Dona Maria Carmelita, que Betânia chama de “Mãe-Natureza”, conta que percebeu desde os primeiros meses de vida que a filha era especial: com apenas sete meses, ela já andava e falava as palavras básicas, comum às crianças acima de 1 ano. As duas, o pai e um sobrinho trocaram a zona rural pelo Centro da cidade.
Melquíades Júnior
especial para o Regional