Filha do ´Che´ visita Canindé

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A médica Aleida Guevara conheceu e conversou com os moradores do Assentamento Transval

Canindé. Mesmo sendo uma tarde quente de um domingo bom para se balançar na rede após um banho frio sem se enxugar, porque o "sol tá quente demais", dezenas de homens, mulheres e crianças vestiram a melhor roupa para a visita ilustre ao Assentamento Vida Nova Transval, localizado no município de Canindé, nos sertões do Ceará. Símbolo de luta para movimentos camponeses de diversos países da América Latina, Aleida Guevara, ainda mais conhecida como "a filha do Che Guevara", incluiu o assentamento sertanejo na visita ao Estado, encerrada ontem. Médica como foi seu pai, Aleida teve a visita acompanhada por médicos filhos de assentados rurais do Brasil, todos formados em Cuba.

A bandeira de Cuba na mesa, um último ensaio para a pequena apresentação, e quando Aleida Gueivara March entrou na igrejinha de Santa Expedita, ainda em construção, mas que já serve para as reuniões da comunidade, agricultores e suas famílias já esperavam para ver a "filha do Che".

Ao contrário do que pudesse parecer, desde criança os assentados já sabiam quem foi Ernesto ´Che´ Guevara, um médico argentino que se notabilizou guerreiro militante e teria sido essencial para a realização da Revolução Cubana, que levou Fidel Castro ao poder em Cuba 51 anos atrás. "Che" virou mito e referência de luta para movimentos socialistas como Via Campesina e Movimento dos Sem Terra, no Brasil.

Jovens em festa

O assentamento estava em festa. Os jovens, principalmente, queriam todos tirar uma foto com a "filha de Che". Não havia bandeira do Brasil, mas não faltavam bandeiras vermelhas do Movimento do Sem Terra (MST) e uma de Cuba no altar da pequena igreja. Aleida é recebida com música, frases de luta e uma dança de homenagem ao socialismo cubano por 12 crianças e adolescentes do Assentamento Vida Nova.

Na mão de cada uma delas, fotos do guerrilheiro, as mesmas que estampam camisas em todo o mundo, tanto de militantes quanto quem mal conhece a histórica revolução cubana e difunde a imagem do "Che" porque também virou moda parecer revolucionário.

"União, respeito e solidariedade", afirmou Aleida, como única forma de desenvolvimento dos povos, em sua breve palestra sobre o desafio dos camponeses na América Latina. De acordo com a médica, "o melhor a fazer é ajudar a preparar a terra para as novas gerações, trabalhar muito para poder criar valores que melhorem a vida das pessoas. Devo ao campesinato do meu país o que sou hoje".

Comitiva

A comitiva da médica também foi incluída por João Ibiapina, da Casa de Amizade Brasil-Cuba, e Celso Crisóstomo, do Instituto Terra Viva, que inclui Canindé e outros municípios do Sertão Central.

Visitando o Brasil desde os anos 1990, Aleida Guevara acompanha os projetos dos movimentos camponeses no País. Tornou-se difusora das ideias do pai e, como médica, colabora no intercâmbio de conhecimento entre os dois países, traduzido na ida de filhos de assentados para cursarem ensino superior em Cuba e retornarem para compartilhar os ensinamentos nos lugares de origem.

O desenvolvimento de Cuba na educação (universidade gratuitas e zero analfabetismo) e na saúde (atendimento preventivo universalizado) fez a pauta de conquistas do "povo revolucionário", que ainda hoje sofre com o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos.

Mesmo sem produzir leite suficiente para consumo próprio e ter que comprar em países como Nova Zelândia, extremo-norte do planeta, a preços altíssimos, é assegurado o direito, em Cuba, de ao menos um litro de leite por dia gratuitamente para cada criança até os sete anos de idade. No entanto, além do "sucesso" na educação e na saúde, outros pontos ficaram de fora, como a polêmica sobre respeito aos direitos humanos.

Além de filha do maior símbolo da revolução cubana, Aleida é militante convicta do Partido Comunista, de Fidel Castro (quem ela chama informalmente de "tio"), que só não está a exatos 51 anos no poder porque dois anos atrás seu irmão, Raul Castro, substituiu-o devido a problemas de saúde.

Orlando Zapata

Indagada pela reportagem sobre o que representou a morte de Orlando Zapata - após 85 dias de greve de fome como protesto na prisão alegando abuso do governo com os "perseguidos políticos" - Aleida limitou-se a dizer que "esses que chamam de dissidentes são na verdade mercenários, porque são pagos pela potência estrangeira para combater o seu próprio povo".

Assentamento

Consolidado há 13 anos em Canindé, o Assentamento Vida Nova Transval foi um dos primeiros espaços conquistados por movimentos sociais no Ceará. Cerca de 80 famílias vivem da agricultura e da criação de gado leiteiro, esta uma experiência mais recente, que tem possibilitado a produção diária de 45 litros de leite.

Dividido em Casa-Sede, Vila Serrana, Vila Canindé e Agrovila, o assentamento também conta com um pequeno açude, de onde sai a produção de peixe para consumo próprio e venda nas comunidades vizinhas. "A gente só queria que estivesse chovendo, pra poder plantar de tudo um pouco, como sempre fazemos", afirma a agricultora Edite Mateus de Sousa, de 41 anos, na sombra de uma árvore à beira do Açude Caracas, que leva o sobrenome do proprietário anterior aos assentados, que no final dos anos 90 asseguraram a demarcação e posse do local onde hoje vivem mais de 400 pessoas. O que um dia eram barracas passou a ser casas de alvenaria com hortas e rebanho. "Foi uma luta muito grande".

Atitude

"O melhor a fazer é ajudar a preparar a terra para as novas gerações, trabalhar muito para criar valores"
Aleida Guevara
Médica

MAIS INFORMAÇÕES
Assentamento Vida Nova Transval
Município Canindé
(88) 9677.8443


Melquíades Júnior
Colaborador

MEDICINA

Estudantes fazem residência no sertão

Canindé.
Além de ter terras, poder produzir; de saber ler, ter conhecimento suficiente para mudar a vida da comunidade. É porque se prepara para cuidar da comunidade que Joceline Santos, de 21 anos, não participou da foto com os pais e as irmãs no Assentamento Vida Nova Transval, "porque está em Cuba, virando doutora", orgulha-se o pai Aloísio dos Santos. Enquanto isso, outros filhos de assentados rurais de vários Estados do Brasil visitam o município de Canindé. Formados em Cuba, fazem residência médica no Ceará e, daqui, seguem para exercer a Medicina nos assentamentos de origem.

Joceline está há três anos em Cuba, tendo saída aos 18 anos do assentamento em Canindé onde morava com os pais e oito irmãos. Foi para uma realidade diferente, outro idioma, num país que, não fosse as estratégias que toma para desenvolver-se em aspectos como cultura, educação e saúde, parece ter parado no tempo.

História

Tem mais de meio século do embargo econômico feito pelos Estados Unidos, desde a Guerra Fria, quando a potência americana capitalista media forças com a então União Soviética socialista (da qual Cuba era adepta). Desde então, a "ilha de Fidel" tem acesso fechado para a maioria dos mercados econômicos do mundo.

Adaptação

Mas foi para lá que decidiu ir a filha de agricultores, de uma família de sete irmãos, todos em escadinha, com poucos anos de diferença. No primeiro ano, a dificuldade com a adaptação fez a menina perder 12 quilos em poucos meses. "A comida também é diferente, aí ela tinha dificuldade, mas está gostando muito", comenta a irmã Eva Santos, de 16 anos, que também tem vontade de ir para Cuba, "cursar Odontologia". Acha que é mais fácil fazer a faculdade lá do que conseguir uma vaga nas instituições públicas do Brasil. "Parece que estão diminuindo a quantidade de pessoa que vão para lá, mas vou tentar", afirma.

A mãe Francisca Raimunda, que ficou na cozinha ajudando a preparar a comida para a visitante Aleida Guevara, é orgulho e saudade da filha que está longe, mas, ao que se sabe, deverá retornar para férias em julho, se a família conseguir juntar com os amigos dinheiro suficiente para os gastos com a viagem.

O principal programa de concessão de bolsas oferecido pelo governo de Cuba a brasileiros é destinado a estudos na (Escola Latino-Americana de Medicina (Elam), em Havana, capital do país. A cada ano, até 100 brasileiros são selecionados para cursar medicina naquela instituição. Foi lá que estudou Celso Bodoy, de um grupo de 20 médicos formados em Cuba que fazem residência no Estado do Ceará, para obterem a validação do diploma para o exercício da profissão no Brasil. Ele também faz parte do Instituto Vida Nova, em Canindé.

Vantagem

O médico coloca como grande vantagem de Cuba a facilidade, pelo território pequeno, para a efetivação de um sistema universal de saúde e, também, de educação pública.

Conforme o profissional, "lá, a preocupação que todos tenham acesso ao ensino superior é muito grande". Da visita ao assentamento também participaram quatro professores cubanos, que aplicarão, em 2010, nos assentamentos rurais do Ceará, o método de alfabetização cubano "Sim, eu posso".

Estrutura

Na casa-sede existe a escola de Ensino Fundamental e Médio. Os jovens do local participam de grupos de dança e, também, teatro. Eles ainda, realizam as "noites culturais" e as comemorações de datas religiosas e também o aniversário do assentamento, a cada 31 de janeiro.

Na lembrança das crianças e jovens como Nayara, Eva e Francisca, todas de 16 anos, a lembrança do dia 14 de março, em que conheceram a filha do homem que tem o rosto pintado na parede da escola com os dizeres "A mais bela qualidade de um revolucionário é o sentimento de amor". Entretanto, para Aleida Guevara, "mais importante que ser a filha do Che é ser filha digna do povo cubano".

Enquete

Trabalho promissor

Celso Crisóstomo
Instituto Vida Melhor, de Canindé
Trabalhamos para que o assentamento receba uma Casa Digital, com computadores, projetor e acesso gratuito à Internet

Leandro Araújo
Médico, filho de assentados do Maranhão
A experiência em Cuba foi enriquecedora. Tivemos acesso a povos de toda a América, e percebemos o multiculturalismo