Casa Marreiro é ponto de cultura

O local já faz parte da história da cidade. Romeiros do Nordeste colocaram o local no roteiro turístico

Canindé. Fundada em 1937, no antigo mercado público de Canindé, hoje Praça Azul, a Casa Marreiro é, atualmente, um dos pontos turísticos do município, devido às curiosidades ali existentes. O atual responsável pelo comércio, poeta Natan Marreiro, filho do fundador já falecido, Raimundo Marreiro, folclorista e comerciante, revela com orgulho os artigos expostos na loja. Romeiros de diversos locais do Nordeste já colocaram no roteiro turístico a Casa Marreiro, devido às novidades lá existentes.


Poeta Natan Marreiro em frente à Casa Marreiro. Ele atende os clientes com poesia. Quem chega ao estabelecimento, procurando saber a origem dos produtos, ele sempre responde a curiosidade FOTO: ANTÔNIO CARLOS ALVES

Segundo ele, Raimundo Marreiro era defensor da cultura do Ceará. Sempre que podia, promovia reisados, papangus e bumba-meu-boi do Ceará. Realizava ainda pegas de cantadores e violeiros e testamentos de Judas.

O comércio fica localizado na Rua Joaquim Magalhães, no Centro da cidade. Tornou-se uma atração para os romeiros que visitam o santuário de São Francisco. Quem chega na cidade fica admirado com a diversidade de produtos do local.

São bainhas para foice, chifre, sapatos para cavalo, cadeado gigante feito de madeira, parafuso e revólver gigantes e outros objetos que deixam os visitantes surpresos com tanta variedade.

Um detalhe que chama a atenção dos frequentadores da loja é a forma como Natan Marreiro atende os clientes: com poesia. Quem chega ao estabelecimento, procurando saber a origem dos produtos, Natan sempre responde com rimas. Há uma tradição das pessoas do sertão que quando encontram objetos interessantes dão de presente. Com o passar dos anos, seu pai foi acumulando os produtos estranhos, chamando assim a atenção dos visitantes.

Recorde

Natan cita o exemplo de uma bucha de 1,6 metros, a maior do mundo, que está no "Guinness Book". Há ainda uma corrente de madeira sem emendas, um ninho de joão-de-barro em extinção e um cachimbo da paz gigante. Em meio a essas explicações, surge a lembrança do radialista Tonico Marreiro, que conta que seu pai defendeu em verso um réu que conseguiu ser absolvido. "Foi uma grande festa, porque muitos acreditavam na condenação daquele homem", lembra.

Recentemente, a Casa Marreiro recebeu destaque em Nova York, por meio de sua vaquejada volante, um dos pontos de grande atração por parte dos turistas. Para Assis Vidal, um apaixonado pela cultura, a Casa Marreiro representa hoje para Canindé o mesmo que o Museu de Luiz Gonzaga significa para Exu. "Aqui está a parte viva do nosso folclore. Quem é amante das coisas do sertão tem uma admiração e um carinho muito grande pelo que representa o local em termos de atração", disse.

Outro nome identificado com a Casa Marreiro é o poeta popular Pedro Paulo Paulino, um amante do folclore. "Essa é a verdadeira casa do sertanejo", diz. Natan passa a maior parte do tempo com o cavaquinho, de preferência, tocando as músicas de Luiz Gonzaga.

Cordelistas como Gonzaga Vieira também expõem seus trabalhos na casa da cultura canindeense. "É aqui que nosso pessoal se reúne todos os dias para uma boa conversa, trocar ideias, falar de tudo um pouco e tem até aqueles que usam o barzinho ao lado para desafogar as magoas", lembra Gonzaga Vieira. A Casa se tornou a grande referência para pesquisas de estudantes de várias universidades do País.

Recentemente, alunos do curso de História da Universidade Estadual do Ceará (Uece) estiveram em Canindé para conhecer o estabelecimento, sua origem, costumes e a forma como foram se acumulando os produtos expostos nas prateleiras. (AC)

FIQUE POR DENTRO
Poesia faz homenagem ao comércio

"Desde o velho mercado/ Até o mercado novo/ Pra satisfazer o povo/ Ele teve esse cuidado/ Ter de tudo um bocado/ Quase como obrigação/ Caixeiro bom no balcão/ Atendendo bem ligeiro/ Porque na Casa Marreiro/ Tem tudo para o Sertão/ Tem prego, tem dobradiça/ Fechadura e parafuso/ Não fica ninguém confuso/ Ah! Se você me ouvisse/ Reparasse o que eu disse/ Prestasse bem atenção/ Não andava à toa não/ Gastando tempo e dinheiro/ Porque na Casa Marreiro/ Tem tudo para o Sertão/ Sola por meio e por tira/ Por quilo vende também/ O freguês se sente bem/ Que até se admira/ O que digo não é mentira" (Poesia de Natan Marreiro)

ANTÔNIO CARLOS ALVES
COLABORADOR
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