Povos tradicionais temem avanço do novo coronavírus com retorno de aulas presenciais

Especialistas apontam, no entanto, que, no cenário de ensino remoto, o processo de ensino-aprendizagem ocorre de forma diferente para alunos da rede pública e privada.

Legenda: Na Escola Indígena Ita-Ara, em Pacatuba, as atividades presenciais foram canceladas em 18 de março. A escola atende cerca de 370 alunos indígenas e não-indígenas
Foto: Madson Pitaguary

Desde março deste ano, as aulas presenciais estão suspensas no Ceará. Pais, responsáveis e corpo escolar ainda temem um retorno às atividades presenciais, que começou a ser esboçado por um comitê composto por 16 entidades, criado pela Secretaria da Educação (Seduc), em junho. O movimento é considerado precipitado por lideranças indígenas e quilombolas que atuam na educação dos povos tradicionais. Especialistas, por sua vez, acreditam que a realidade de aulas remotas acentuam diferenças.  

Indígenas e Quilombolas já registram casos confirmados e óbitos por conta da Covid-19. Por apresentarem problemas de infraestrutura e dificuldade no acesso a serviços de saúde, uma possível volta às aulas presenciais é encarada como risco de chegada do vírus aos territórios tradicionais.

“Não é o momento de nossos filhos voltarem a frequentar suas escolas com o risco de contágio. Pode agravar a saúde nas nossas comunidades, que já são precárias”, avalia Aurila Maria (Aurila Quilombola), da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e professora. “Moramos muito distantes dos Postos de Saúde e hospitais, onde o atendimento também é defasado. Estamos todos em isolamento nos nossos quilombos, sobrevivendo com o que temos”, ressalta.

Ensino Remoto

Larissa Santana, pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Ceará (UECE), em Itapipoca, avalia que as atividades remotas se apresentam de forma limitada e acentuam diferenças entre alunos da rede privada e pública.

“Os professores têm tido muitas dificuldades e muitos alunos da rede pública não têm acesso à internet. Às vezes, é um celular para a família toda, ou emprestado de tios, primos, às vezes sem internet. Existe essa diferença que é preponderante para conseguir determinar que as crianças e jovens da escola pública tenha acesso à educação”, avalia.

O Sindicato de Educação da Livre Iniciativa do Ceará (Sinepe) vem defendendo um retorno com aulas híbridas, programado pro dia 20. Na última quinta-feira (9), durante reunião do Comitê Estadual de Enfrentamento ao Coronavírus, a Defensoria Pública do Estado defendeu que as aulas presenciais das redes pública e privada retornem ao mesmo tempo. O objetivo, segundo o órgão, é garantir a igualdade aos estudantes de ambas as realidades. O retorno às aulas presenciais na rede pública não está definido, mas, ventila-se agosto.

Legenda: A rede estadual de escolas indígenas conta com 39 unidades, em 16 municípios, atendendo um total de 7.602 alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio Regular, além da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Foto: Madson Pitaguary

Aurila também vê disparidades concretas nestas duas realidades “Está sendo muito difícil para todos, imagine para os alunos e alunas quilombolas. Todas as comunidades são rurais e de difícil acesso à comunicação. Muitos não têm sequer aparelho celular”, lamenta. “Não foram vistas as condições necessárias para eles terem aula. Durante a pandemia, temos crianças e jovens estudando pelas aulas remotas embaixo de árvores com equipamentos emprestados”. 

Atualmente, o Ceará só possui uma escola quilombola gerida pelo Estado, na comunidade de Três Irmãs, em Croatá. Na instituição estadual, é ofertado o Ensino Médio para 85 alunos, com o apoio de 10 professores, um diretor e uma coordenadora pedagógica. Existem, ainda, outras 35 escolas quilombolas, sendo três da rede privada e as demais da rede municipal.

Mesmo residindo e lecionando na rede municipal de Itapipoca, Aurila é uma das lideranças para implementação da rede pública de educação quilombola. “Desde 2012, temos as diretrizes nacionais para a educação escolar quilombola. Resistimos no intuito dessa implementação”, destaca.

Indígenas

A rede estadual de escolas indígenas conta com 39 unidades, em 16 municípios, atendendo um total de 7.602 alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio Regular, além da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), conforme a Seduc. Outras seis escolas são da rede municipal, segundo a Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará. 

Itamar Tremembé, professor de História Tremembé e Matemática da Escola Estadual Indígena Rosa Suzana da Rocha, em Itarema, uma das cidades que concentram maior número de casos confirmados da Covid-19 entre os povos indígenas, também acredita que não é o momento para a volta presencial. “Quando a gente começou a ser infectado, pedimos para tratar primeiro da pandemia e depois da escola. Ainda assim, temos três professoras e um funcionário infectados. A grande maioria das escolas não reúnem condições higiênicas para retornar às aulas”, avalia.

Por conta da pandemia, o professor e liderança explica que as atividades presenciais na instituição estão suspensas desde 17 de março e que não há “internet suficiente nas casas de todos os alunos”. A solução encontrada foi entregar as atividades em cada residência. “Temos cerca de 130 alunos na escola, que fica dentro da terra indígena (no Córrego João Pereira)”, explica o professor.

Já na Escola Indígena Ita-Ara, em Pacatuba, as atividades presenciais foram canceladas em 18 de março. “Nos mobilizamos para enfrentar o período inicial tendo como princípio a entrega de atividades para a primeira semana”, explica o professor indígena do 6º ano, Madson Pitaguary. “Fizemos um balanço de quantos alunos tinham acesso à internet e como era esse acesso. Chegamos a conclusão de que 85% têm o acesso de alguma forma e que daria para executar as aulas para as turmas do Fundamental II, Médio e EJAs”.

Para estudantes dos ensinos Infantil e Fundamental I, os pais dos alunos vão buscar atividades impressas na escola ou na casa dos professores. “Estamos indo deixar nas residências dos alunos que moram mais próximos”, explica Madson. A instituição conta com uma média de 370 alunos e fica às margens da aldeia Monguba-Pacatuba. Para ele, o processo de retomada, mesmo gradual, precisa ser acompanhada de uma série de protocolos. “É muito complexo falar da ‘possível volta’. Temos que passar por exames e não temos estrutura e nem recursos para instalação de meios de higienização”, ressalta.

Alunos que Sonham

Durante a pandemia, as escolas tiveram que elaborar um Plano de Atividades Domiciliares para que os estudantes cumpram a carga horária escolar em casa. A Seduc ressaltou, em nota, que foram utilizadas estratégias de ensino e acompanhamento da aprendizagem de forma remota, as quais podem utilizar o suporte de tecnologias ou não. “O livro didático é apontado como principal ferramenta para as aulas remotas. Para os alunos que não têm acesso à internet, professores estão elaborando atividades impressas”, pontuou. 

Adaptações que, para o professor Madson, foram difíceis. “Não tínhamos noção de como seria gravar as aulas e nem de toda a logística para as atividades remotas. Nos pegou de surpresa”, pondera, explicando que a escola chegou a criar um canal na internet para divulgar o conteúdo e facilitar o acesso dos alunos.

Aldeados que precisam sair de suas comunidades para buscar o ensino na rede comum, também viram as limitações de acesso em suas moradias evidenciadas. Estudante do 3º ano do Ensino Médio, João Bizomar, 18, utiliza o celular do primo e a internet da tia para conseguir acesso aos conteúdos escolares preparatórios para o Exame Nacional do Ensino Médio. “Não tenho celular e nem internet em casa. Venho todas as noites para casa da minha tia fazer minhas atividades. Estou conseguindo fazer, com dificuldade, mas estou”, conta.

Diariamente, o tremembé, residente em Itarema, chega às 18h30 e fica até às 21h na casa da parente. As aulas do jovem, que sonha em seguir no ramo da Informática, acontecem no período da tarde, porém, ele só tem acesso à noite a partir dos vídeos gravados pelos professores. “Faço as atividades e coloco no nosso grupo e no privado de cada professor”, explica. “Meu objetivo é concluir o Ensino Médio e fazer faculdade para, no futuro, arrumar um emprego e ajudar minha família. Já está dando certo e minhas notas estão na média”.

Rede de Ensino

Em nota, a Seduc informou que as escolas têm usado estratégias de ensino e acompanhamento de forma remota, utilizando ou não o suporte de tecnologias, e que está realizando a consolidação dos dados de participação em todas as instituições a partir dos relatórios recebidos. “A Seduc aguarda as orientações do Governo do Ceará sobre a data de retorno às atividades. Está em fase de planejamento a respeito das aulas presenciais e, para isso, está ouvindo todas as pessoas envolvidas para uma retomada coerente e segura”, detalhou.

No Comitê criado para discutir a possível retomada, com previsão inicial para agosto, são considerados pontos como as diferentes condições sanitárias e de capacidade financeira de cada município e especificidades das etapas do ensino (infantil, fundamental e médio). 

A Seduc destaca, ainda, que, por meio das Coordenadorias de Cooperação com os Municípios (Copem) e de Educação e Proteção Social (Coeps), no âmbito do Programa Aprendizagem na Idade Certa (Mais Paic), desenvolve dois projetos de elaboração e disponibilização de materiais: o #estudoemcasa e #brincandoemfamília.

As iniciativas oferecem orientações, cadernos de atividades, brincadeiras em cards, podcasts, dentre outros. Em relação às escolas municipais, a Seduc informou que os estudos domiciliares variam e ficam a cargo da gestão das respectivas Secretarias Municipais.

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