Grupo refaz caminhada até a Grota de Angicos

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Redação producaodiario@svm.com.br
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Foto: Antônio Vicelmo

No dia 28 de julho de 1938, na Grota de Angicos, em Sergipe, Lampião, Maria Bonita e nove dos 36 cangaceiros do bando eram assassinados pela volante formada por 45 policiais, comandada pelo tenente João Bezerra. Agora, 68 anos depois e nas pegadas dos cangaceiros, o Diário do Nordeste acompanhou um grupo que refez o caminho dos policiais até local do massacre. A região situada no Município do Poço Redondo, Estado de Sergipe, é de difícil acesso. Mesmo assim, cerca de 60 pessoas, entre as quais, jornalistas, pesquisadores e curiosos, enfrentaram o desafio de voltar ao esconderijo agora com duas cruzes e uma lápide que marcam o local onde parte do bando de Virgulino tombou.

Era o começo da noite do dia 27 de julho de 1938. A população da bucólica cidade de Piranhas, no Estado de Alagoas, preparava-se para dormir acariciada pelos ventos úmidos do Rio São Francisco. Na beira do rio, uma volante formada por 45 policiais, comandada pelo tenente João Bezerra, se arregimentava para exterminar com o grupo de 36 cangaceiros — seis mulheres e 30 homens —, entre os quais Lampião e Maria Bonita, que estava escondido na grota de Angico, no município sergipano de Poço Redondo, a oito quilômetros de distância da sede. Os policiais seguiram em quatro canoas amarradas, levando além de fuzis, pistolas e revólveres, duas metralhadoras.

No percurso, a volante cometeu a primeira atrocidade: torturou o coiteiro Pedro de Cândido, arrancando-lhe as unhas de punhal para que ele indicasse exatamente o local do esconderijo. Com a delação do coiteiro, a polícia seguiu para Angico, aonde chegou antes do dia amanhecer. Lampião tinha acabado de rezar o ofício de Nossa Senhora junto com o bando e pediu para o cangaceiro “Amoroso” pegar água em um córrego a cerca de 30 metros de distância do local onde eles estavam arranchados.

A tropa estava ajoelhada ponta para atirar, quando o soldado Abdom Andrade disparou o primeiro tiro em Amoroso. “Daí para frente, a grota de Angico transformou-se num inferno”. No final do tiroteio, 11 cangaceiros mortos. Os outros 25 fugiram. Do lado da polícia, apenas uma baixa: o soldado Adrião. Os cangaceiros mortos tiveram as cabeças decapitadas ainda com vida. Maria Bonita, por exemplo, de acordo com laudo médico, foi decapitada viva. Na lápide, inaugurada pelo Prefeitura de Poço Redondo, a relação dos mortos: Lampião, Maria Bonita, Luiz Pedro, Quinta-feira, Colchete, Macela, Enedina, Elétrico, Mergulhão e os irmãos Moeda e Alecrim.

Os cangaceiros contaram depois que Maria Bonita gritou para Luiz Pedro, que já estava fora do cerco, lembrando-lhe o compromisso que ele assumiu com Lampião de morrer ao seu lado. Luiz Pedro voltou para cumprir a promessa, mas foi morto antes de reagir. Terminada a batalha, que durou cerca de 15 minutos, começou outra briga entre os policiais pelo dinheiro, jóias e ouro dos mortos. Saquearam tudo. O soldado Antônio Jacó, conhecido também por “Mané Velho,” braço direito do tenente Bezerra, cortou os punhos das mãos de Luiz Pedro para ficar com os anéis. Na hora da partilha do saque, Mane Velho reagiu dizendo: “o que eu consegui brigando, só entrego na bala”. Este relato foi feito pelo historiado Antonio Amaury Correia de Araújo que, no final de semana, esteve na grota de Angico, a convite do cineasta cearense Wolney Oliveira, com os pesquisadores Magérbio Lucena, João Lima e Alcino Alves, com a finalidade de participar de um debate sobre o cangaço para o filme “Lampião, o Governador do Sertão”, que será lançado, no próximo ano. Wolney justifica o título da produção, lembrando que Lampião gostava de ser chamado de “Governador do Sertão”.

Antônio Vicelmo
enviado a Angicos