Aves do Ceará são catalogadas em livro

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Professores da Uece fazem uma completa catalogação sobre as aves que vivem ou tem como rota o Estado do Ceará

Fortaleza. Cantando ou em silêncio. Parados sobre árvores ou voando no horizonte. Livres na natureza ou até mesmo nas condenáveis gaiolas. De todas as formas, as aves encantam. E tão fácil quanto se perder diante do colorido desses animais alados, é ficar deslumbrado com uma publicação especialmente dedicada às “Aves do Ceará”. Esse é o título do livro de autoria dos professores István Major e Luís Gonzaga Sales Júnior, ambos da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Lançada há cerca de três semanas, a obra é anunciada como a primeira a traçar um inventário completo das espécies conhecidas de aves do Estado.

Ao todo, são catalogadas 463 diferentes aves que tem o espaço cearense como morada ou apenas como rota migratória. Informações técnicas, como ordem, família, subfamília, nome científico e dieta das espécies estão presentes, logicamente acompanhados da denominação popular.

Do total, 219 são representados de uma forma especial: em belas ilustrações feitas por István Major. Para esses, há fichas técnicas com outros detalhes, além dos já citados. É possível saber o habitat das aves e como se dá a distribuição delas ao redor do planeta e em solo cearense. Textos explicativos apresentam as principais características das inúmeras famílias biológicas das aves, incluindo as diferenças entre elas.

Segundo o professor Luís Gonzaga, esse é o primeiro livro mais completo sobre as aves do Ceará. “Existem outros trabalhos, mas não tem um geral sobre o Ceará. O mais comum são citações em trabalhos científicos”, explica.

Risco de extinção

Uma informação em destaque é a relação das 20 espécies de aves ameaçadas de extinção no Ceará. E foi exatamente pela necessidade de chamar atenção para as agressões ao meio ambiente, especialmente aos animais e às aves, que os professores István Major e Luís Gonzaga tiveram a idéia de publicar a obra. “A gente vai ler esse livro e perceber que a ave tem valor livre e não em cativeiro. Tem que explicar isso para o povo. A gente dá outra alternativa: observar”, diz o primeiro, que é húngaro. “Só conhecendo, a gente vai preservar a natureza”, acredita o segundo professor.

Para Major, que é professor de Ecologia, dois fatores principais o motivaram a escrever o livro sobre as aves. O primeiro é o fato de o Nordeste do Brasil ainda ter áreas naturais que podem ser preservadas. O segundo são o companheirismo dos colegas do curso de Biologia da Uece. “Podemos trabalhar com harmonia. Não tem inveja”, diz. O tema do projeto de pesquisa do mestre europeu é a “Biodiversidade do Nordeste do Brasil”. Segundo explica, as aves são utilizadas como grupo de referência ou objeto. Já Luís Gonzaga ensina Ecologia e Ecologia do Semi-árido, além de ser ornitólogo, nome dado ao profissional especialista no estudo das aves.

Não precisa nem dizer que as aves são a grande paixão do professor brasileiro e o principal tema das pesquisas dele.

Parceria

Em “Aves do Ceará”, Gonzaga analisou as características das aves e redigiu boa parte dos textos. Major sintetizou as análises, ajudou a escrever e ficou responsável por representar os animais alados no papel. Os belos desenhos feitos por Major surgiram como uma alternativa à dificuldade de flagrar boas fotos das aves. “Iniciei há dez anos. Não tenho tempo nem dinheiro para fazer fotos”, conta ele, se divertindo com o custo elevado das máquinas fotográficas profissionais.

Os desenhos foram uma das etapas que compuseram a metodologia do trabalho. Para fazê-los, Major pôde observá-los a olho nu ou com o uso do binóculo. Mas como muitas espécies não podem ser vistas facilmente, uma técnica interessante foi utilizada pelo húngaro. Ele imitou o canto que os filhotes das aves mais raras emitem quando estão em perigo. “Primeiro, tem uma resposta”, explica. Depois, os pais se deslocavam para perto de onde o barulho ressoava, possibilitando que Major os observasse e os desenhasse, rapidamente. “Conheço mais de 200 cantos de pássaros”, revela.

Busca da perfeição

Mas como os desenhos tinham de ser feitos imediatamente, o professor tentava aperfeiçoá-los, comparando-os com livros de referência, onde as aves já estavam representadas. “Mas modifico a pose [das aves], pois não gosto de repetir”, diz. Outro modo de aperfeiçoar os desenhos é pela observação de fotografias dos animais ilustrados.

E foi na obtenção das fotos que entrou o professor Luís Gonzaga. Sozinho ou com a ajuda dos estudantes do curso de Biologia, da Uece, que participam de viagens semestrais para conhecer os biomas cearenses, o professor utilizou a técnica da rede neblina. Os animais ficavam presos temporariamente no material e, durante esse período, o especialista aproveitava para medir a extensão das aves, observar características de cada uma, bater fotos e filmar, se preciso. Em seguida, o animal era devolvido ao habitat dele.

Segundo Major, colegas da universidade, como paleontólogos ou geógrafos, participam constantemente dessas viagens e auxiliam no desenvolvimento das pesquisas.

FALTA DE RECURSOS
Obra só teve 50 exemplares impressos

Fortaleza. Apesar de ser uma publicação inédita sobre as aves do Ceará, será difícil encontrar o livro dos professores István Major e Luís Gonzaga Sales Júnior, pelo menos a princípio. Apenas 50 exemplares da obra foram impressos, uma cortesia da Gráfica LCR, do Colégio Christus. Segundo a coordenadora editorial da obra, Eloísa Maia Vidal, por causa do número reduzido de impressões, apenas as bibliotecas Pública Menezes Pimentel, no Centro, e da Uece, no Campus do Itaperi (ambas em Fortaleza), receberão exemplares da obra.

O objetivo inicial é divulgar o trabalho para viabilizar o aparecimento de patrocinadores que possam custear impressões em tiragens maiores. “Queríamos botar o material na praça para as pessoas perceberem a importância do trabalho, que é uma obra de referência e tem compromisso com as novas gerações”, considera Vidal. Ela diz estar preparando um projeto para concorrer ao financiamento do Prêmio BNB de Cultura. Os recursos viabilizariam o envio do livro para todas as escolas públicas estaduais.

A espera dos professores István Major e Luís Gonzaga Sales Júnior para ver a obra publicada vem desde 2004, quando eles terminaram de escrevê-la. Desde então, somente agora, encontraram um órgão que topasse imprimi-la.

Major diz estar enviando ofícios para diferentes lugares e pessoas, pedindo apoio para mais impressões. “Temos de mandar esse livro para todas as escolas, para as crianças conhecerem. Vamos proteger a natureza”, brada. O húngaro diz perceber que poucas pessoas têm sensibilidade com a natureza, o que dificulta a obtenção de apoios.

Outros trabalhos

Em 2002, Major já havia lançado o livro “Manguezal”, tematizando o Nordeste brasileiro. Dois anos depois, foi lançado o livro “Aves da Caatinga”, em parceria com o professor Luís Gonzaga e o diretor da Associação Caatinga, Rodrigo Castro. Esta publicação vendeu mais de quatro mil exemplares logo depois de lançada, uma prova de que há interesse nesse tipo de publicação na visão dos dois professores.

Em breve, István Major planeja lançar uma série de livros para crianças sobre as aves dos mais diversos ecossistemas. A publicação será uma parceria com a escritora Arlene Holanda, que adaptará o conteúdo científico a uma linguagem mais simples.

SAIBA MAIS

Rede

O professor Luís Gonzaga Sales Júnior é uma das poucas pessoas que tem autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para usar o artifício das redes neblinas. A técnica consiste na armação de cerca de 30 redes dispostas uma após a outra e formando um corredor. Cada uma delas mede cerca de três metros de altura por 12m de comprimento. Como o tecido que forma as redes é muito fino, as aves não o vêem e ficam presas na rede. Outra opção é dispor o corredor em formato de ´L´. A formação de um ângulo de 90° reforça as chances de o animal voar em direção à rede.

Tempo

A partir do momento que o animal é capturado, os pesquisadores têm de 40 a 50 minutos para estudar a espécie, tirar medidas, bater fotos, verificar se está doente, entre outras ações. Depois disso, as aves são devolvidas ao meio ambiente. Se o tempo gasto for maior que o citado, os animais correm risco de morte.

Anilha

O professor Luís Gonzaga é um anilhador cadastrado junto ao Centro de Estudos de Migração das Aves (Cemav) do Ibama. Com esse cadastro, ele tem autorização para colocar pequenos anéis (anilhas) nos animais antes de soltá-los. Dois são os objetivos principais dessa ação: saber o território que a ave percorre, seja o percurso regional ou intercontinental. Além da rota de migração, é possível identificar quanto tempo o animal vive em meio natural.

Ambiente

Em ambientes muito secos e sob forte incidência do sol, como a caatinga, a rede neblina só pode ser aberta entre 5h e 10h, para não pôr a vida do animal em risco. Em ambientes cobertos, porém, não há restrições e a rede pode ser armada em qualquer horário.