Nelson Teich diz que falta de autonomia no Ministério da Saúde motivou pedido de demissão

A divergência com o presidente Jair Bolsonaro em relação ao uso da cloroquina também incentivou a exoneração

Nelson Teich durante CPI da Covid-19 em maio de 2021
Legenda: O oncologista classificou como "inadequada" a prescrição de medicamentos sem comprovação científica feita por alguns médicos
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich afirmou, nesta quarta-feira (5), que a falta de autonomia no cargo motivou o seu pedido de demissão. A divergência com o presidente Jair Bolsonaro em relação ao uso da cloroquina para tratamento da Covid-19, em manifestações leves e moderadas, foi outro incentivo para a exoneração.

O médico oncologista participa de oitiva, no plenário do Senado Federal, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada para apurar as ações e possíveis omissões do Governo Federal no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. 

Teich afirmou que constatou a perda de independência do Ministério da Saúde após uma sequência de afirmações do presidente Bolsonaro.

"Naquela semana [em que pedi demissão] teve uma fala do presidente, ali na saída do Palácio da Alvorada, quando ele fala que o ministro tem que está afinado, e cita meu nome especificamente. Na véspera, pelo que vi, ele fala em uma reunião com empresários em que ele fala que o medicamento [cloroquina] vai ser expandido. A noite tem uma live em que ele coloca que espera que o dia seguinte vá acontecer isso, a expansão do uso. E no dia seguinte eu peço a minha exoneração", relembrou.

Ao ser questionado pelo presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), se a indicação de cloroquina foi a única divergência que teve com o presidente, Teich negou. Ele explicou que a falta de autonomia no Ministério da Saúde impossibilitou que medidas como isolamento social e distanciamento pudessem ser colocadas em práticas como uma política nacional de combate à pandemia.

O oncologista é o segundo ex-titular do Ministério da Saúde da gestão do presidente Jair Bolsonaro a participar da comissão. Nelson Luiz Sperle Teich esteve à frente da pasta entre 17 de abril e 15 de maio de 2020, menos de um mês. Ele assumiu o cargo logo após a saída de Luiz Henrique Mandetta e, quatro semanas depois, foi substituído por Eduardo Pazuello.

Inicialmente, o médico estava previsto para ser ouvido no Senado na terça-feira (4), mas a data teve que ser adiada pelos parlamentares devido ao grande número de perguntas dirigidas a Mandetta, primeiro a ser ouvido pela CPI

Uso de cloroquina

O ex-ministro afirmou que não foi consultado sobre o aumento da produção de cloroquina pelo Exército. Ele também disse que não tinha conhecimento do fato como titular da Saúde. Teich explicou que não concordava com o uso do remédio, ou qualquer outro, fora de um estudo clínico.

"O problema de trazer o medicamento para o uso ambulatorial para doença leve a moderada é que a chance de ser extrapolado para prevenção é grande. E cada vez mais você aumenta o espectro de pessoas que vão ser exportas ao medicamento de forma não controlada e com risco. Acho que o exemplo claro que fica disso é o uso de cloroquina com nebulização"

O oncologista relembrou o caso em que uma médica aplicou a técnica de inalação de forma experimental em pacientes no estado do Amazonas. E classificou como "inadequada" a conduta de prescrição de medicamentos sem comprovação científica de eficácia para o tratamento do novo coronavírus. O ex-ministro afirmou que acredita que esses profissionais acham que estão "fazendo a coisa certa".

Imunidade rebanho

Teich afirmou que não acredita no controle da pandemia através do alcance da imunidade de rebanho. A teoria prevê que a propagação do vírus para quando se atinge uma porcentagem de infectados da população, em torno de 70%.

"Imunidade de rebanho é um erro. Imunidade [contra o coronavírus] você vai ter através da vacina e não de pessoas infectadas. Imunidade através de infecções é um erro", disse.

Os senadores investigam a hipótese de que o governo Bolsonaro apostou na teoria da imunidade de rebanho e, por isso, pode ter negligenciado o combate à pandemia.

Indicação de Eduardo Pazuello

O também ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello integrou a pasta durante a gestão de Teich, como secretário-executivo. O oncologista revelou no depoimento que o militar foi indicado por Jair Bolsonaro para o cargo.

"Embora ele não tivesse experiência em saúde, me pareceu que ele poderia atuar bem na área de logística", justificou o médico sobre ter aceitado a sugestão. 

O general de divisão do Exército Brasileiro assumiu o Ministério da Saúde com a saída de Teich. Na oitiva, o ex-ministro afirmou que Pazuello evoluiu durante a gestão como secretário-executivo, mas não o bastante para ocupar o cargo de titular da pasta. Segundo o oncologista, apenas profissionais da área da saúde com conhecimento técnico deveriam exercer o cargo. 

Pazuello também será ouvido na comissão. Inicialmente, a oitiva do militar estava marcada para acontecer nesta quarta, mas foi adiado para o dia 19 de maio após ele informar à CPI que teve contato com pessoas suspeitas de estarem infectadas pelo novo coronavírus durante o fim de semana. 

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