Trabalhadores com maior renda em Fortaleza ganham 39 vezes acima dos mais pobres

O ano de 2020 foi o de maior desigualdade nas metrópoles. Na Região Metropolitana de Fortaleza, há trabalhadores que vivem com pouco mais de R$ 100 por mês

Legenda: Pandemia acentuou desigualdades sociais no País
Foto: Gustavo Pellizzon

As diferenças abissais entre as rendas de trabalhadores configuram problema estrutural que marca a história do Brasil. O boletim Desigualdade nas Metrópoles, divulgado neste mês, aponta que 2020 foi o ano de maior desigualdade nas regiões metropolitanas desde o início da série, em 2012.  

Segundo o estudo, os rendimentos dos 10% mais ricos da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) são 38,8 vezes maiores que dos 40% mais pobres.

É a 10ª maior discrepância entre metrópoles brasileiras, atrás de João Pessoa (88,3), Rio de Janeiro (59,7), Salvador (55,9), Recife (55,1), Maceió (51,2), Aracaju (50,9), Natal (47,3), Teresina (42,4) e São Paulo (40,2).

A comparação leva em conta a renda domiciliar per capita habitual bruta de todos os trabalhos, recebida no 4º trimestre de 2020. Enquanto os 10% com renda maior ganharam em média R$ 4.115 na RMF, os 40% mais pobres receberam R$ 106 no mesmo período.

Baseado nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o boletim é desenvolvido pelo Observatório das Metrópoles, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e o Observatório da Dívida Social na América Latina (RedODSAL).

O boletim traz ainda o cálculo do Coeficiente de Gini, índice usado para medir a desigualdade das distribuições de renda, variando de 1 a 0. Quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade, e de 0, menor.  

O coeficiente da RMF aumentou de 0,624 para 0,638, do último trimestre de 2019 para igual período de 2020. Ao nível nacional, o índice foi recorde e chegou a 0,631 no final de 2020. No ano anterior, o valor era de 0,609.  

Considerando esse indicador, a RMF é a 9ª metrópole mais desigual do País.

Precarização do trabalho 

O professor Marcelo Ribeiro, pesquisador do Observatório das Metrópoles e um dos coordenadores do estudo, explica que são consideradas as rendas provenientes do trabalho para os cálculos, ou seja, valores recebidos com auxílios do governo não são considerados. 

De acordo com Ribeiro, essas diferenças são explicadas, principalmente, pelos mecanismos que ocorrem no próprio mercado de trabalho, “que acabam favorecendo determinadas ocupações", aponta.

"A maioria da população brasileira está inserida no mercado de trabalho de uma forma muito precária, em condições de informalidade”.  

Em Fortaleza, a renda média dos trabalhadores mais pobres caiu aproximadamente 46%, considerando os últimos trimestres de 2019 e 2020, ou seja, foi de R$ 197 para R$ 106 por mês. Enquanto a da parcela mais rica recuou quase 26%, indo de R$ 5.560 mensais para R$ 4.115.  

O decréscimo da renda do grupo de 40% mais pobres na RMF só não foi maior que o recuo de Aracaju (SE), de 49%. Além disso, o conjunto de cidades cearenses ultrapassou a média nacional (-34,2%). Apenas a RM de Macapá (AP) registrou aumento da média em 4,7%.  

O boletim apresenta ainda os rendimentos dos 50% intermediários, correspondentes à maioria da população. Neste grupo, a queda foi um pouco menor, de 16,6% - variando de R$ 945 para R$ 788. As rendas da maior parte dos trabalhadores, portanto, não chega ao valor do salário mínimo que é de R$ 1.100 atualmente.  

Pandemia acentuou desigualdades 

Os patamares recordes atingidos, segundo o coordenador do estudo, foram influenciados, principalmente, pela crise financeira desencadeada pela pandemia,  com o fechamento das atividades econômicas. Contudo, Ribeiro aponta que há uma tendência de elevação das desigualdades em curso desde 2015. 

“A renda das pessoas caiu drasticamente com a desarticulação da economia. Vínhamos com um crescimento pequeno de ano a ano, mas a pandemia acelerou de forma mais abrupta”.  
Marcelo Ribeiro
Pesquisador do Observatório das Metrópoles

Com isso, os programas de auxílios para beneficiar as populações vulneráveis foram muito bem-vindos – e ainda são, diante da segunda onda. “Os benefícios garantiram a subsistência básica dessas pessoas. O término do auxílio emergencial no ano passado, por exemplo, teve um grande impacto no começo deste ano”, pondera.  

Melhorando a distribuição de rendas 

"A retomada do crescimento econômico vai ser fundamental para a redução das desigualdades econômicas, mas só isso não contribui com esse problema, apenar nos retoma para a condição anterior à pandemia”, explana o professor.  

Diante do problema histórico, Ribeiro pontua a necessidade de desenvolvimento de outros mecanismos que permitam que a redução ocorra de fato, como a reestrutura do mercado de trabalho e a garantia do acesso à educação.  

Entre os jovens da RMF com 15 e 17 anos, 32,13% da parcela mais vulnerável está em situação de escolaridade abaixo do esperado, conforme o boletim. A proporção cai para 12,14% considerando os 10% mais ricos.  

Considerando as pessoas de 18 a 24 anos que ingressaram no Ensino Superior, a parcela do grupo de 40% dos mais pobres só chega a 12,12%, enquanto nos de maiores rendimentos, a taxa é de 64,47%.  

“As ocupações de ponta acabam sendo 'exportadas' para outros países e acabam nos restando as mais precárias, e com níveis de remunerações menores. Isso significa pensar em políticas de industrialização e de reestrutura do nosso país”. 

2021 segue desigual 

Apesar da reabertura econômica estar avançando em alguns estados brasileiros, a perspectiva para 2021 é ainda de divergências, projeta o professor. “O baixo valor do novo auxílio emergencial e o lento processo de vacinação fazem com que as pessoas tenham que buscar a sobrevivência e encarar o mercado de trabalho em condições precárias”.  

Com alguma remuneração, vai haver uma redução dos níveis de desigualdade, mas não em valores significativos. “Não dá para acreditar que teremos uma retomada total da economia neste ano. Para o País como um todo, 2021 ainda vai ser muito difícil, mas principalmente para as pessoas de baixa renda”, conclui.  

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