Temendo nova onda da Covid, cearenses voltam ao isolamento e saem de casa “só para o necessário”

Para psicólogo, tendência é que períodos reclusos não sejam tão restritivos quanto nos dois lockdowns pelos quais o Ceará passou.

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Metro
Legenda: Aviso em residência no bairro João XXIII, em Fortaleza, alerta visitas sobre restrição de entrada.
Foto: Bruno de Castro/Arquivo pessoal

A preocupação com a rápida disseminação da variante Ômicron do coronavírus e o aumento de casos de influenza no Estado vêm motivando diversos cearenses a readotarem medidas mais rigorosas de isolamento no próprio dia a dia.

O decreto mais recente do Governo do Estado traz a “importância das medidas de isolamento e distanciamento social, bem como da permanência domiciliar”, mas não traz recuo nas flexibilizações de atividades já liberadas anteriormente.

A família de Carol Braga, estudante de 19 anos moradora de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, voltou a mudar a rotina nas últimas semanas após ela e o pai ficarem doentes. Mesmo vacinados, eles temem a Covid-19 porque Carol é asmática.

“Meus pais decidiram que só saímos para coisas necessárias. Como moramos só nós três, restringimos mais nossas saídas e só mantemos para trabalho, curso e comprar comida”, conta a estudante, que deixou de frequentar shoppings e outras atividades de lazer.

Nesse retorno ao isolamento, Carol tenta por em prática lições já aprendidas nos momentos anteriores de 2020 e 2021: busca focar nos estudos, ler mais ou espairecer vendo algum filme. Contudo, também recorda o quanto a situação é complicada.

40,24%
é a taxa de positividade atual para Covid no Ceará, de acordo com a plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde (Sesa). 

Ou seja, de cada 100 testes realizados no Estado, 40 detectam o coronavírus. Em Caucaia, o índice está em 46%, contra 41% em Fortaleza. A influenza H3N2 também está em circulação no Estado, mas a vigilância epidemiológica é voltada para casos mais graves.

Sem espaço para visitas

Na casa do jornalista e escritor Bruno de Castro, 35, quem colocou os limites foi ele, em concordância com os pais idosos - principal razão para que não recebam mais visitas nem de parentes. Inclusive, Bruno fixou um cartaz no portão de casa avisando sobre a restrição.

Algumas pessoas forçavam visitas, chegavam de surpresa, e a gente ficava no constrangimento de deixar ou não entrar. Numa dessas, a pessoa chegou visivelmente gripada, e eu pedi educadamente que ela se retirasse. Algumas pessoas precisam ouvir o óbvio”.

Segundo ele, uma visita de 22 anos alegou que estava com uma “gripezinha”, mas Bruno alertou que poderia ser uma “gripezona” para os pais. Desde que colocou o aviso, há mais de uma semana, ele conta que não foram mais procurados. “Surtiu o efeito que eu queria”, comemora.

Depois de passarem quatro meses totalmente isolados na última onda, eles só iniciaram uma reabertura após a vacinação dos idosos, “e ainda assim com todos os cuidados” - um tormento para a família que adorava a “casa cheia” em comemorações do cotidiano.

Atualmente trabalhando de home office, Bruno só sai de casa para ir ao supermercado ou à farmácia. Ainda assim, em frequência bem menor e utilizando de três máscaras ao face shield, já que os pais “não podem nem sonhar em pegar Covid”.

Nas redes sociais, também não é incomum encontrar relatos de outros cearenses que estão evitando sair de casa desde de dezembro. Há quem conte, inclusive, que chegou a ter sintomas gripais mesmo no isolamento, atribuindo a infecção a compras contaminadas.

Saúde mental afetada

Para o psicólogo clínico Carlos Plácido, por mais que haja facilidades relacionadas aos serviços que se adaptaram ao modelo on-line nos últimos dois anos e por mais que o cearense já tenha “certa experiência” com o isolamento, os dois momentos anteriores “deixaram marcas que tornam um terceiro difícil de manter o mesmo nível de restrição”.

“Boa parte da população já sofreu os impactos emocionais naqueles períodos. Além disso, outras não podem fazer esse isolamento por causa do trabalho”, avalia.

Segundo Plácido, as angústias trazidas pelo isolamento se tornam psíquicas quando afetam vários âmbitos da vida do indivíduo e passam a levá-lo a um sofrimento constante. Por isso, chama a atenção para sinais de alerta:

  • Ansiedade: pensamentos acelerados, com tendência negativa, dificuldade de concentração, insônia e momentos de crise que geram sintomas como falta de ar, coração acelerado, sudorese e desconforto intestinal;
  • Depressão: pode ter sinais mais sutis, como humor triste, falta de energia, apetite e interesse, e perda pelo prazer de viver. 

“A busca pelos serviços especializados se faz extremamente importante nesses momentos mais delicados”, recomenda.

Bruno de Castro percebe que o isolamento “mudou totalmente” sua rotina: desde o início da pandemia, reduziu o tempo dedicado a atividades físicas e ao sono, ficou mais ansioso, ganhou peso - que, por tabela, trouxe problemas de saúde relacionados - e perdeu a rotina de contato presencial com amigos. 

Mesmo assim, ainda prefiro o isolamento porque esses outros problemas são contornáveis. A Covid, eu não sei se eu posso. Na dúvida, prefiro optar pelo que tenho o mínimo de controle, já que não estou indo a festa, a barzinho, nem pensando em pré-carnaval. É um absurdo estarmos cogitando essa volta no meio dessa distopia em que estamos vivendo”. 

Para espairecer, ele tenta aumentar a rotina de leitura, intensificar os estudos do mestrado, escrever um novo projeto, manter contatos virtuais e buscar apoio na arte, seja em filmes ou músicas. 

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