Repertório sociocultural e formação abrangente são fundamentais para o Enem e para a vida

A autonomia dos alunos pode ser estimulada com o acesso a conteúdos que vão além do material didático. Contar com essas referências pode ampliar as possibilidades e preparar melhor estudantes para o Enem e para a vida. Em 2020, a leitura de poesias no projeto “Sacadas Literárias” aproximou professores que atuam em Paris e no Passaré

Legenda: O desenvolvimento de um repertório cultural amplo traz benefícios para toda a formação do estudante, não somente para o Enem
Foto: Shutterstock

Em um mundo tão complexo é preciso muito mais do que domínio do conteúdo, ressaltam especialistas em Educação, Psicologia e Letras.  Em sua obra, o antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin ressalta que, para enfrentar as incertezas cotidianas, é necessário um pensamento capaz de ligar conhecimentos que estão separados. O autor ressalta ainda a importância de trabalhar sob a perspectiva da complexidade e da transdisciplinaridade com o objetivo de reencontrar os problemas fundamentais e globais para a humanidade.

O projeto Diário no Enem entrevistou professores sobre como construir um repertório sociocultural mais amplo - que nem sempre está nas páginas dos livros didáticos - pode ajudar os estudantes. A avaliação dos entrevistados é de que esse conhecimento mais amplo será importante tanto nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) quanto, mais à frente, no exercício de qualquer formação profissional escolhida.

“Eu acredito que uma das mais significantes competências para lidar com um mundo complexo, onde há incerteza, instabilidade e, principalmente, há perspectiva de futuros muito diversos, variáveis, uma dessas competências é justamente a leitura de mundo”, avalia o vice-reitor de Graduação da Universidade de Fortaleza (Unifor), Henrique Luís Sá. Médico pediatra, mestre e doutor em educação superior, ele considera que a partir da sensibilidade das artes literárias, das artes plásticas, da música, da dança e de outras formas de expressão artística, os profissionais podem incorporar recursos para facilitar a interpretação e a solução dos desafios mais complexos.

“Se a gente pensar particularmente para o Enem, umas das características do modelo de prova é a interpretação de texto. Mesmo para as provas de Matemática e suas tecnologias ou de Ciências e suas tecnologias. Não só nas de Literatura, de Língua Portuguesa ou de Língua Inglesa. Cada vez mais, as questões do Enem exigem raciocínio, visão abstrata, interpretação de texto e, mais uma vez, leituras extracurriculares, que ampliam a visão de um menino, de uma menina em desenvolvimento ao meu ver são muito necessárias”, ressalta o vice-reitor de Graduação da Unifor. 

Legenda: Henrique Luís Sá, vice-reitor de Graduação da Unifor
Foto: Divulgação

Sacadas Literárias  

Em meio à pandemia do novo coronavírus, foi a Literatura que proporcionou uma aproximação entre professores que atuam em Paris e no Passaré, na periferia de Fortaleza. Além disso, propiciou um exercício e de autonomia e das próprias subjetividades para estudantes cearenses de uma escola pública. A conexão para aproximar os mais de sete mil quilômetros que separam a Universidade Sorbonne, a mais tradicional da França, da Escola de Ensino Fundamental e Médio 2 de Maio, na capital cearense, foi o projeto “Sacadas Literárias”. 

Os alunos da escola localizada na avenida da Saudade, no Passaré, ainda não estão podendo ir às aulas presenciais para reduzir os riscos de adoecimento pela Covid-19. Entretanto, a professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação, Lilia Sampaio, buscou formas de reaproximá-los por meio de um projeto de leitura. Ela havia lido uma reportagem sobre iniciativa do professor da Universidade Sorbonne, o brasileiro Leonardo Tonus, que usava as redes sociais para compartilhar a leitura de textos.

“Lancei a proposta para a gestora (da escola, Cristiane Nóbrega) e ela prontamente achou a ideia maravilhosa, mas eu não podia me apropriar de um projeto que não havia criado. Pesquisei as redes sociais do professor Leonardo e, numa atitude de coragem e ousadia, mandei um direct para ele via Instagram me apresentando e perguntei se o projeto era direcionado ao meio acadêmico e se poderia utilizá-lo na nossa escola, inclusive usando a hashtag  #sacadasliterarias”, conta Lilia, formada em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e no magistério há 25 anos. 

A resposta do professor de Literatura Brasileira em Sorbonne estimulou Lilia a prosseguir com a ideia. “Ele dizia “Que bom saber que meu projeto trouxe frutos em Fortaleza”, autorizou o uso do nome Sacadas Literárias e até se prontificou a participar”, conta a professora. Para Lilia, que trabalha com alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio, começava ali “uma das maiores experiências da minha vida como profissional da educação”. 

O projeto aconteceu na escola 2 de maio ao longo dos meses de setembro e outubro de 2020 e contou com a participação de todos os professores da área de Linguagens e Códigos. Cada educador ficava responsável por uma turma, recebia os vídeos dos estudantes pelo WhatsApp e repassava para a coordenação. Os conteúdos em vídeo foram postados no Instagram da escola. A iniciativa mobilizou toda a comunidade escolar “Alguns alunos apresentaram textos autorais, ex-alunos pediram para participar, gestão, professores de outras áreas também deram sua contribuição”, relata a professora pós-graduada em Planejamento Educacional.

Lilia Sampaio destaca também as habilidades e os conhecimentos trabalhados pelos estudantes com a participação no Sacadas Literárias. “Por se tratar de um projeto em que eles faziam a escolha do texto, a gente pode ver aspectos da subjetividade do texto, a questão da atemporalidade do texto, já que eles escolheram autores de épocas diferentes e os professores, de acordo com cada turma, foram trabalhando as escolas literárias pertencentes ao currículo mesmo do Ensino Médio”, explica Lilia.

A professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação também gravou um vídeo no qual leu o poema Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade, que em um dos trechos diz “O presente é tão grande, não nos afastemos/ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”

 

Dimensão afetiva da Literatura

Apesar da necessidade de adotar o ensino remoto, a poesia e outros gêneros literários aproximaram e possibilitaram a atuação coletiva dos alunos e professores da escola 2 de Maio no Ceará. Em Paris, também foi esse o objetivo do projeto, conta o professor de Literatura Brasileira na Universidade Sorbonne, Leonardo Tonus. O que teve início como um grupo de Whatsapp com os alunos, inclusive estudantes estrangeiros da pós-graduação em intercâmbio, migrou para as redes sociais para “compartilhar com o máximo de pessoas as informações obtidas e a solidariedade literária e afetiva surgida”. Tonus também idealizou a Primavera Literária Brasileira, que começou a ser realizada em 2014 em Paris para divulgar a cultura e a literatura lusófonas.

Para o professor de Literatura, tanto a Primavera Literária quanto o “Sacadas” buscam “a dimensão afetiva do fazer literário que, em minha opinião, subjaz toda e qualquer atuação do e para o campo literário”. Tonus, que mora na França há mais de 30 anos, foi curador do Salão do Livro de Paris de 2015 e recebeu condecorações dos ministérios da Cultura e da Educação franceses.

"Fico feliz (e honrado) ao observar a adesão a este projeto de amigas e amigos, de escritoras e de escritores ou de simples leitoras e leitores confinados como eu. Recebi e continuo a receber  todos os dias vídeos de várias partes do mundo (Vietnã, Israel, Itália, Canadá, Portugal, Brasil) fortalecendo  uma rede de leituras públicas  até então pouco vistas e vivenciadas entre nós”, comenta Tonus, que é autor de duas coletâneas de poesia :  Agora Vai Ser Assim (Editora Nós, 2018) e Inquietações em tempos de insônia (Editora Nós, 2019).

Legenda: Leonardo Tonus, professor de literatura na Universidade Sorbonne
Foto: Divulgação

O professor, que estudou em escola e universidade públicas no Brasil, considera “salutares” as atividades extracurriculares e que se encontram fora dos manuais tradicionais. “O Enem hoje não só avalia conhecimentos específicos, mas avalia a aquisição de conhecimentos gerais adquiridos ao longo do ensino e do aprendizado no ensino médio. Acho bastante salutar lembrar a reintrodução na formação dos estudantes de cursos em ciências humanas, como filosofia, sociologia e outros cursos que permitiram justamente que os estudantes adquirissem essa formação mais abrangente, mas tão necessária para se pensar o mundo contemporâneo nas suas rupturas diversas”, avalia Tonus.

Lugar da leitura literária

A importância da Literatura na formação dos indivíduos, para além dos conteúdos que são avaliados no Enem, é reafirmada pelo mestre em letras pela UFC, Sávio Alencar. Para o pesquisador de Literatura Brasileira, que atua no mercado editorial com experiência em edição de livros didáticos e sistemas de ensino, a Literatura compete em desvantagem com o mundo altamente conectado em que se inserem os jovens, potenciais leitores. 

Por isso, Sávio Alencar ressalta que a escola não pode deixar de ser um de seus “lugares de afirmação”. Na avaliação do pesquisador, “a literatura ainda é o lugar de registro da experiência”, e isso bastaria para ratificar sua importância. Além disso, destaca que episódios dos quais os jovens hoje estão distantes podem se reelaborados por meio da leitura da linguagem literária. 

Legenda: Sávio Alencar, mestre em Letras e Pesquisador de Literatura Brasileira
Foto: Divulgação

 “Esse outro contato com a realidade (através da literatura) certamente acrescenta uma nova camada de significado à leitura que fazem do mundo, do seu entorno, ontem e hoje, e aí, claro, se desenha um perfil de aluno-leitor que não está preparado só para exames, mas para a vida – não numa visão cor de rosa, a literatura não é uma bula ou um guia, mas ela pode, minimamente (ou, pelo menos, durante o tempo da leitura), nos tornar sujeitos mais empáticos, capazes de nos colocarmos na pele do outro, principalmente aqueles que em nada se parecem conosco. Por isso, ainda é preciso apostar nela, dentro e fora dos livros didáticos, dentro e fora das salas de aula”, avalia o autor de Jáder de Carvalho: roteiro para uma biografia (no prelo) e que atualmente prepara a biografia de Rachel de Queiroz. 

Transformação da realidade

A avaliação sobre a importância de um conhecimento mais abrangente e contextualizado é ressaltada também pela professora de Psicologia da Unifor, Larissa Feitosa. Ela destaca que o momento pandêmico atual evidenciou e intensificou questões sociais graves tornando urgente repensar ações e responsabilidade diante da vida. 

“A produção do conhecimento deve ser útil para a transformação da realidade e quando meramente conteudista e desarticulada ao que ocorre ao nosso redor, na nossa comunidade, cidade, país ou mundo, torna-se vazia, sem sentido e sem efeito prático”, ressalta a psicóloga que é especialista em Consultoria Organizacional (Cetrede-UFC) e mestre em Psicologia (UFC).

A crise sanitária pela qual o mundo passa atualmente também pode levar à reflexão sobre a importância dos saberes e dos valores humanos. Larissa ressalta que temas como racismo, violência contra as mulheres e gêneros, além da discussão sobre os impactos de sistemas políticos e econômicos que geram e legitimam desigualdades sociais e danos ao meio ambiente, ganham destaque diante da maior participação social e de movimentos comprometidos com a democracia, os direitos humanos e a justiça social.

Dessa forma, a psicóloga ressalta que “a atuação crítica e reflexiva tem sido um diferencial na formação cidadã e profissional, compreendendo a importância de uma prática contextualizada a partir de temas, eventos e momentos históricos da nossa sociedade”.

Fontes:

Henrique Luís Sá, vice-reitor de Graduação da Universidade de Fortaleza (Unifor), crédito Ares Soares
Leonardo Tonus, professor de literatura na Universidade Sorbonne
Professora Lilia Sampaio, da escola 2 de maio no Passaré, em Fortaleza
Sávio Alencar, mestre em Letras e Pesquisador de Literatura Brasileira
Larissa Feitosa, professora de Psicologia da Unifor

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