Navio encalha no Canal de Suez e eleva o preço do petróleo

Cargueiro de mais de 220 mil toneladas, que se dirigia para Roterdã, encalhou. Oito rebocadores foram mobilizados para ajudar na missão

O encalhe do navio impediu a passagem de outros pelo Canal de Suez
Legenda: Encalhe impediu passagem de demais navios pelo Canal de Suez
Foto: Suez Canal/AFP

O petróleo futuro fechou em forte alta nesta quarta-feira (24) após investidores reagirem à notícia de que um navio cargueiro, porta-contêiner, encalhou no Canal de Suez. O encalhe bloqueou a navegação em uma das principais e mais movimentadas rotas comerciais do mundo, que liga os mares Vermelho e Mediterrâneo e é a rota mais rápida entre a Europa e a Ásia.

Operações para desencalhar o cargueiro aconteceram durante toda esta quarta. O encalhe preocupa quanto a possíveis atrasos na oferta de petróleo no mundo.

Em um comunicado, o presidente da Autoridade Egípcia do Canal de Suez (SCA), almirante Ossama Rabie, informou que "as unidades de resgate e os rebocadores da Autoridade continuam seus esforços" para desbloquear o canal interrompido pelo navio Ever Given, que tem 400 metros de comprimento e bandeira do Panamá. Oito rebocadores foram mobilizados para ajudar na missão.

A embarcação de mais de 220 mil toneladas, que se dirigia para Roterdã procedente da Ásia, encalhou após ser levada por uma rajada de vento, quando acabava de cruzar a entrada sul do Canal de Suez, segundo o site Vesselfinder.

De acordo com a SCA, o incidente se deveu a um vento de areia, fenômeno comum no Egito nesta época do ano, que teria gerado um problema de visibilidade.

Falta de visibilidade

O encalhe "aconteceu principalmente pela falta de visibilidade, devido às condições meteorológicas, enquanto os ventos atingiram 40 nós (74 km/h), o que afetou o controle do navio", relatou a SCA no comunicado.

"O navio cargueiro encalhou acidentalmente, provavelmente depois de ser atingido por uma rajada de vento", havia dito mais cedo à AFP a companhia Evergreen Marine Corp, que opera o navio.

Após o incidente, dezenas de navios esperaram para usar o canal. De acordo com fontes marítimas, 30 navios estão parados na entrada norte do Canal, e outros três, na entrada sul.

O encalhe do navio impediu a passagem de outros pelo Canal de Suez
Legenda: Encalhe impediu passagem de demais navios pelo Canal de Suez
Foto: Suez Canal/AFP

Ao mesmo tempo, as autoridades anunciaram que o trecho histórico do canal, localizado na parte central da hidrovia, foi reaberto nos dois sentidos de navegação. 

Tal atraso pode ter consequências para o fluxo do tráfego marítimo em uma rota de navegação que concentra cerca de 10% do comércio marítimo internacional, segundo especialistas.

"A passagem por Suez é sempre levada em consideração e, quando há um grande incidente como este, cria atrasos e um efeito dominó", explicou à AFP Camille Egloff, especialista em transporte marítimo do Boston Consulting Group, com sede em Atenas. 

Fonte de renda

Em resposta a uma política de grandes obras, uma nova seção escavada em 2014 e 2015 facilitou a travessia dos comboios e reduziu o tempo de trânsito das embarcações.

Quase 19 mil navios passaram pelo Canal de Suez em 2020, de acordo com a SCA.

Este canal é uma fonte de receita essencial para o Egito, com o qual arrecadou 5,61 bilhões de dólares em 2020. 

O presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sissi, anunciou em 2015 um projeto para desenvolver o canal com o objetivo de reduzir o tempo de espera e dobrar o número de navios que o utilizam até 2023.

As autoridades anunciam regularmente novos recordes de tonelagem. Em agosto de 2019, passaram por ele 6,1 milhões de toneladas em um dia.

Histórico de Suez

Idealizado por Ferdinand de Lesseps, empresário e diplomata francês, o colossal projeto de ligação dos Mares Vermelho e Mediterrâneo durou dez anos (1859-1869). Participaram dele um milhão de egípcios, segundo as autoridades de hoje. Dezenas de milhares deles morreram durante este projeto titânico, estimam os especialistas.

Com 164 quilômetros de extensão, o Canal de Suez "não é prerrogativa de uma nação: (...) pertence a uma aspiração da humanidade", lançou Ferdinand de Lesseps em 1864, cerca de 4 mil anos após os primeiros projetos de canal dos Faraós.

Ligação marítima entre a Europa e a Ásia, esta rota permitiu não se ter de contornar outro continente, a África, através do Cabo da Boa Esperança. Também conheceu várias guerras e anos de inatividade.

Essa história foi particularmente marcada pelo ano de 1956: em 26 de julho, Gamal Abdel Nasser, recém-eleito presidente, nacionalizou o Canal de Suez.

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