Traição, ciúme e DNA: 14 anos depois, amante acusado de matar contadora ainda não foi a júri

O corpo da vítima foi encontrado por um pescador boiando em um açude no Interior do Ceará.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
Imagem mostra Evilson Alves Feitosa, de camisa amarela e rosto coberto pela camisa, no momento em que chegava preso na sede da Polícia Civil, no Centro da Capital. O ano era 2012. Ele está escoltado por três policiais, sendo dois de balaclava e um de rosto descoberto, de bigode.
Legenda: Um ano após o crime, o suspeito foi preso em Maracanaú.
Foto: Natasha Mota (Arquivo Diário do Nordeste - 12/9/2012)

Por trás do laudo cadavérico que apontou morte em decorrência de traumatismo cranioencefálico associado à asfixia mecânica por afogamento, segue a busca de uma família pelo desfecho processual acerca de um crime.

Em dezembro de 2011, o corpo da contadora Maria Enilda de Aguiar Goias, de 53 anos, foi encontrado boiando em um açude na zona rural da cidade de Palmácia, Interior do Ceará. Mais de 14 anos depois, o único suspeito pelo homicídio segue sem ir a julgamento.

Para chegar ao nome do assistente administrativo Evilson Alves Feitosa, o 'Bira' e indiciá-lo pelo crime, a Polícia Civil precisou coletar provas. O homem foi apontado pelos investigadores como o amante da vítima que teria premeditado a ação e ainda tentado ocultar o corpo da mulher.

Nas últimas semanas, a Justiça do Ceará, por meio da Vara Única Criminal de Maranguape, ouviu mais uma vez as testemunhas do caso e abriu vista dos autos para o Ministério Público do Ceará (MPCE) apresentar os memoriais, o que demonstra estar encerrada a fase de instrução processual.

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A depender do posicionamento do MP e da defesa, na sequência deve vir a decisão judicial que indicará se o réu vai ou não a Júri Popular pela morte da contadora. Os advogados do acusado não foram localizados pela reportagem para comentar sobre o processo.

RELACIONAMENTO EXTRACONJUGAL

De acordo com documentos a que a reportagem teve acesso, "vítima e réu tinham um relacionamento amoroso conturbado, como amantes, com idas e vindas. Essas situações estão bem narradas nos depoimentos das testemunhas, tendo inclusive relatos de ciúmes por parte da vítima com outras mulheres com quem o réu mantinha relacionamento".

"Por meio da análise das comunicações telefônicas do réu e vítima, que ambos se deslocaram ao local do crime no mesmo horário e circunstâncias e que o réu um dia antes do crime teria ido até a localidade de Ladeira Grande, em Maranguape, exatamente nas proximidades do 'açude do Bu'"

O casal tinha se conhecido anos antes do crime, em uma igreja evangélica, em Fortaleza.

Para conseguir encontrar o amante, a contadora dizia à família que estava passando por tratamento de saúde e que em algumas quintas precisava se ausentar e dormir no hospital "porque tomava uma medicação muito forte".

O esposo da vítima disse à Polícia que desconfiava de um relacionamento extraconjugal, porque a esposa vinha apresentando comportamento estranho.

De 15 em 15 dias Maria Enilda e Evilson Alves se encontravam e iam até o açude. No dia 1º de dezembro de 2011 a contadora desapareceu.

Horas depois, o corpo dela foi encontrado por um pescador a 13 quilômetros de Palmácia. Maria vestia biquíni e estava boiando no açude. 

No rosto dela havia ainda uma lesão compatível com produzida por objeto pontiagudo, provavelmente uma caneta. O exame pericial mostrou que a contadora travou luta com o criminoso.

Um ano após o crime, o suspeito foi preso em Maracanaú.

COMO A POLÍCIA CHEGOU AO SUSPEITO

O carro da vítima, um EcoSport, foi abandonado no cruzamento das ruas Eduardo Barroso e Rio do Carmo, no bairro Siqueira. A descrição feita por testemunhas mostraram que Evilson Feitosa tinha as mesmas características físicas da pessoa vista saindo do carro da vítima.

carro prata ecosport da vitima estacionado em garagem.
Legenda: O carro da vítima passou por perícia.
Foto: Reprodução.

Na sequência, 'Bira', foi identificado por amigos do casal como o 'amante' da mulher e chamado até à delegacia para depor. Ele assumiu o envolvimento com a contadora, mas disse aos investigadores que quando ela foi morta eles já não estavam mais juntos.

Na versão do suspeito, eles tinham terminado o relacionamento dias antes e a mulher já estava com outro amante, um ex-presidiário, que segundo ele tinha apelido de 'Louro', e que vinha extorquindo e ameaçando a vítima.

sandalia vermelha banco de carro, pericia.
Legenda: O carro da vítima foi encontrado abandonado no bairro Siqueira, em Fortaleza.
Foto: Reprodução.

Enquanto o único nome apontado como autor do crime negava a participação no homicídio, a Polícia trabalhava para desvendar o assassinato.

Evilson teve o celular apreendido e foi submetido a um exame de corpo de delito para fornecer seu material genético para um futuro exame de DNA.

A estação rádio base (ERB) do aparelho telefônico do suspeito (a antena da respectiva operadora da telefonia celular) apontou que assistente administrativo estava no mesmo local de Enilda quando o crime aconteceu, derrubando o álibi que ele havia apresentado.

Nas amostras coletadas nas unhas da mão esquerda de 'Bira' foi identificado uma mistura de perfis genéticos, com a presença do perfil genético compatível com o da contadora.

Em 2016, Evilson foi indiciado. A Polícia Civil concluiu pelo indiciamento "de acordo com tudo que restou apurado nos autos, levando em consideração a conduta do agente, os depoimentos das testemunhas, as circunstâncias do fato e da prisão e as condições em que se desenvolveu a ação criminosa, bem como as provas técnicas produzidas com a quebra do sigilo telefônico dos celulares da vítima e do suspeito, além do exame de DNA".

Inquérito da Polícia Civil considerou que o suspeito fez um levantamento do local onde iria matar a vítima "demonstrando que o mesmo premeditou o crime".

Em 2017, o homem foi denunciado pelo Ministério Público do Ceará e na semana seguinte já estava na condição de réu no Judiciário. 

De acordo com a acusação, o crime aconteceu por motivo fútil, consistente no ciúme e mediante dissimulação, atingindo a cabeça da vítima com um instrumento contundente e em seguida a jogou no açude, tendo ela morrido afogada.

Desde então testemunhas e o acusado são ouvidos em juízo, exceto o esposo de Enilda, que foi intimado diversas vezes e não compareceu alegando "questões de saúde".

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