Tortura, tiros e 'tribunal do crime': membros do CV são condenados por homicídio na Praia do Futuro

Somadas, as penas dos réus chegam a 90 anos de prisão.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
(Atualizado às 12:07)
forum clovis bevilaqua homem saindo fachada.
Legenda: Na madrugada do dia 3 de novembro de 2021, a vítima foi abordada e levada pelo trio até a casa de um homem conhecido como 'Gago'.
Foto: Kid Júnior.

O Tribunal do Júri decidiu condenar três membros do Comando Vermelho (CV) por um homicídio na Praia do Futuro, em Fortaleza. Somadas, as penas de Paulo Renato Silva de Almeida, o 'Renato Bombado'; Ítalo Facundes Martins, o 'Ventão'; e Isabele Cristina da Silva Sousa,  'Tatuada', chegam a 90 anos de prisão.

O trio é apontado como autor do homicídio de Antônio Ronney Gomes da Silva, o 'Antônio Cará'. De acordo com a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), a vítima foi levada a um terreno baldio, torturada e em seguida teve a morte decretada pelo 'Tribunal do Crime' da facção. Ronney foi atingido com cinco disparos de arma de fogo.

A vítima supostamente vendeu um celular fruto de um roubo na área do 'Comando Vermelho', o que desagradou a facção. "Além de serem sentenciados por homicídio duplamente qualificado (por motivo torpe e com emprego de recurso que impossibilitou a defesa da vítima), os réus foram condenados também por integrar organização criminosa, cárcere privado e tortura", disse o MP.

Veja também

'ULTRAVIOLÊNCIA'

O promotor de Justiça Luís Bezerra Neto destaca que "o mecanismo de funcionamento dos 'tribunais do crime' valem-se da ultraviolência para punir todos aqueles que infringem 'regras' das facções. Deliberam sobre a morte de pessoas demonstrando alto grau de desprezo pela vida".

"A resposta do conselho de sentença a esse tipo de crime é um sinal claro que o Estado democrático de direito não se curva ao interesse dos criminosos. Todo aquele que atente contra a vida de forma injusta vai receber a reprimenda que merece pelo Tribunal do Júri".
Luís Bezerra Neto
Promotor de Justiça do MPCE

Os acusados sentaram no banco dos réus no último dia 28 de abril, em sessão realizada na 2ª Vara do Júri de Fortaleza. O MP foi representado no julgamento por promotores de Justiça integrantes do Grupo de Apoio ao Júri (Gajuri).

Paulo Renato Silva de Almeida é apontado como uma liderança local da facção e foi condenado a 33 anos, dois meses e 23 dias de prisão; Ítalo é tido como o autor dos disparos que vitimaram Antônio Ronney, e também foi sentenciado a 33 anos de prisão. 

Já Isabele Cristina recebeu pena de 22 anos, sete meses e 15 dias de prisão; As defesas dos réus não foram localizadas pela reportagem para comentar sobre a condenação.

O DIA DO CRIME

Na madrugada do dia 3 de novembro de 2021, a vítima foi abordada e levada pelo trio até a casa de um homem conhecido como 'Gago'.

"Nesse local, a vítima foi mantida em cárcere pelo citado indivíduo e outros ainda não identificados. O ofendido Antônio Ronney foi submetido ao denominado "Tribunal do Crime". Gago estabeleceu contato com o réu Paulo Renato Silva de Almeida e outros integrantes da organização criminosa Comando Vermelho-CV, a fim de decidirem se matariam ou não a vítima", segundo a denúncia.

Ronney foi torturado e supostamente confessou o roubo realizado na 'Comunidade do Luxou'. Isabele teria enviado mensagens ao grupo de Whatsapp questionando qual seria a decisão do 'Conselho' sobre o que fazer com a vítima e instigando Paulo Renato para que determinasse a morte de Ronney.

"Na tarde do dia 3 de novembro de 2021, o réu Renato e outros chefes da organização criminosa Comando Vermelho-CV na região, determinaram a morte da vítima. O réu Ítalo deu cumprimento à ordem dos chefes da facção"
MPCE

Quando preso, os policiais apreenderam o celular de Paulo Renato, que passou por análise e extração de dados após autorização judicial. O conteúdo obtido a partir do aparelho auxiliou nas provas técnicas. 

"No que se refere à motivação, verificou-se ser torpe, consistente em ação da organização Comando Vermelho-CV visando assegurar a autoridade e o domínio na região do crime, notadamente pelo fato de os réus acreditarem que a vítima estava cometendo roubos na região. Assim, pelo que restou apurado, todos os réus, de forma livre e consciente, e agindo de forma a prestar apoio mútuo, concorreram para o delito, seja quando dos atos de mando, ajuste e planejamento, seja na abordagem e execução da vítima", segundo a acusação.

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados