Tortura, tiros e 'tribunal do crime': membros do CV são condenados por homicídio na Praia do Futuro
Somadas, as penas dos réus chegam a 90 anos de prisão.
O Tribunal do Júri decidiu condenar três membros do Comando Vermelho (CV) por um homicídio na Praia do Futuro, em Fortaleza. Somadas, as penas de Paulo Renato Silva de Almeida, o 'Renato Bombado'; Ítalo Facundes Martins, o 'Ventão'; e Isabele Cristina da Silva Sousa, 'Tatuada', chegam a 90 anos de prisão.
O trio é apontado como autor do homicídio de Antônio Ronney Gomes da Silva, o 'Antônio Cará'. De acordo com a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), a vítima foi levada a um terreno baldio, torturada e em seguida teve a morte decretada pelo 'Tribunal do Crime' da facção. Ronney foi atingido com cinco disparos de arma de fogo.
A vítima supostamente vendeu um celular fruto de um roubo na área do 'Comando Vermelho', o que desagradou a facção. "Além de serem sentenciados por homicídio duplamente qualificado (por motivo torpe e com emprego de recurso que impossibilitou a defesa da vítima), os réus foram condenados também por integrar organização criminosa, cárcere privado e tortura", disse o MP.
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'ULTRAVIOLÊNCIA'
O promotor de Justiça Luís Bezerra Neto destaca que "o mecanismo de funcionamento dos 'tribunais do crime' valem-se da ultraviolência para punir todos aqueles que infringem 'regras' das facções. Deliberam sobre a morte de pessoas demonstrando alto grau de desprezo pela vida".
"A resposta do conselho de sentença a esse tipo de crime é um sinal claro que o Estado democrático de direito não se curva ao interesse dos criminosos. Todo aquele que atente contra a vida de forma injusta vai receber a reprimenda que merece pelo Tribunal do Júri".
Os acusados sentaram no banco dos réus no último dia 28 de abril, em sessão realizada na 2ª Vara do Júri de Fortaleza. O MP foi representado no julgamento por promotores de Justiça integrantes do Grupo de Apoio ao Júri (Gajuri).
Paulo Renato Silva de Almeida é apontado como uma liderança local da facção e foi condenado a 33 anos, dois meses e 23 dias de prisão; Ítalo é tido como o autor dos disparos que vitimaram Antônio Ronney, e também foi sentenciado a 33 anos de prisão.
Já Isabele Cristina recebeu pena de 22 anos, sete meses e 15 dias de prisão; As defesas dos réus não foram localizadas pela reportagem para comentar sobre a condenação.
O DIA DO CRIME
Na madrugada do dia 3 de novembro de 2021, a vítima foi abordada e levada pelo trio até a casa de um homem conhecido como 'Gago'.
"Nesse local, a vítima foi mantida em cárcere pelo citado indivíduo e outros ainda não identificados. O ofendido Antônio Ronney foi submetido ao denominado "Tribunal do Crime". Gago estabeleceu contato com o réu Paulo Renato Silva de Almeida e outros integrantes da organização criminosa Comando Vermelho-CV, a fim de decidirem se matariam ou não a vítima", segundo a denúncia.
Ronney foi torturado e supostamente confessou o roubo realizado na 'Comunidade do Luxou'. Isabele teria enviado mensagens ao grupo de Whatsapp questionando qual seria a decisão do 'Conselho' sobre o que fazer com a vítima e instigando Paulo Renato para que determinasse a morte de Ronney.
"Na tarde do dia 3 de novembro de 2021, o réu Renato e outros chefes da organização criminosa Comando Vermelho-CV na região, determinaram a morte da vítima. O réu Ítalo deu cumprimento à ordem dos chefes da facção"
Quando preso, os policiais apreenderam o celular de Paulo Renato, que passou por análise e extração de dados após autorização judicial. O conteúdo obtido a partir do aparelho auxiliou nas provas técnicas.
"No que se refere à motivação, verificou-se ser torpe, consistente em ação da organização Comando Vermelho-CV visando assegurar a autoridade e o domínio na região do crime, notadamente pelo fato de os réus acreditarem que a vítima estava cometendo roubos na região. Assim, pelo que restou apurado, todos os réus, de forma livre e consciente, e agindo de forma a prestar apoio mútuo, concorreram para o delito, seja quando dos atos de mando, ajuste e planejamento, seja na abordagem e execução da vítima", segundo a acusação.