Testemunhas relatam o medo por "saber demais"

Reféns que presenciaram a ação em Milagres e outras testemunhas que tiveram a casa invadida continuam preocupados. Familiares de Edneide temem por suas vidas desde que relataram a ação dos policiais na madrugada

Escrito por Melquíades Júnior, melquiades.junior@diariodonordeste.com.br

Segurança

O peso da verdade dói de diferentes formas para Genário. Perdeu a irmã e a paz. Viu o que não queria, mas não consegue negar o que lhe veio aos olhos. Não bastasse tudo, viu suas palavras no centro de reportagens em todo o País: “vocês mataram minha irmã”. ‘Vocês’ seriam os policiais, os mesmos que minutos antes tentaram lhe matar também, mas só não conseguiram “porque Deus não deixou”, conforme disse um dos PMs em depoimento, por tê-los confundido com os criminosos. As balas corriam a miúdo em sua direção e na de seu pai, Fernandes, enquanto estavam deitados próximo ao Bando do Brasil, de frente para o Bradesco. “Deu pra ver tudo”. ‘Tudo’, agora, tem a ver com os cinco parentes de Serra Talhada feitos de escudo pelos assaltantes.

Do chão onde estava, viu um dos adolescentes ser atingido com um tiro na cabeça: a mulher refém grita. Era Claudineide em desespero. Logo após, vem uma sequencia de disparos de fuzis, fazendo toda a família tombar. Enquanto isso, dois suspeitos tentam se esconder da chuva de balas atrás do poste, cravejado com balas e pintado com sangue. No alto, um cartaz pregado anunciando “Hercólubus, o gigante planeta vermelho se aproxima da Terra”. Vermelho ficava o poste. Genário e Fernandes também observaram a movimentação dos policiais para retirar as imagens das câmeras dos estabelecimentos ao redor.

Mas viram que antes de apagar as cenas tentaram as palavras: um dos policiais que atirou contra o Celta preto tomado pelos criminosos teria confirmado para outros que restaram um homem e uma mulher mortos no carro.

— Você matou minha irmã.
No mesmo instante à conclusão de Genário, o PM retira o que disse, agora “não tinha mulher no carro não”.

— Você matou minha irmã.

Sua irmã e os outros. E Genário viu. Fernandes viu. Ficaram com medo, mas não querem recusar o compromisso com a verdade. “Nós somos evangélicos, sabemos que será feita a justiça divina, pois Deus é maior que tudo. Queremos deixar quieto agora. O que tivemos ali foi um livramento grande. Mas na vida a gente tem que ser verdadeiro. Uma criança no meio disso aí, uma mulher, os trajes que eles estavam dava pra qualquer um reconhecer. A parte não estava escura. Aquela área estava toda clara. Dava pra ver bem. Estavam de mãos dadas, andando em fila. E os bandidos por detrás deles”.

O segundo descaminho

Fernandes pergunta a um dos policiais onde estariam sua esposa e a filha. Um dos agentes convida para irem procurar. Entram na viatura e seguem por mais de 20 minutos por estradas carroçáveis. Estavam com os homens que efetuaram os disparos contra eles próprios e os outros. O tempo passava e o grupo rodava entre uma carroçável e outra.

Os ex-reféns ficaram assustados, porque pela segunda vez eram levados para um lugar que não sabiam qual. Dessa vez pela Polícia, aquela mesma que fez tudo o que viu e ouviu. O medo só continuou.

Foram as primeiras declarações de Genário, Fernandes e Lurilda, a mãe de Edneide, que desconstruíram a fala da Polícia: de uma operação exitosa que frustrou ataque a bancos. Não foi bem assim, e desde então o que era trágico virou muito pior.

De mudança

Pelo menos duas famílias mudaram de casa e de bairro por conta da ocorrência em Milagres. Contamos suas histórias, com exclusividade, ainda no mês de dezembro. Têm em comum a presença dos suspeitos dos ataques em algum momento da fuga. A primeira invasão deu-se na casa de Adilânia Pereira.

Às duas da madrugada, sem sono, estava de frente para a TV fazendo o crochê para venda. É seu passatempo e renda. Os tiroteios começaram, mas ela achou que fossem fogos. Inapropriados “numa hora dessas”. Abre a porta e já vê um homem entrando na rua, correndo em sua direção. Não deu tempo fechar. O fugitivo (de nome Robson, que depois seria o primeiro capturado) empurra a porta e faz entrarem os dois em casa.

A essa hora, uma das filhas, de 7 anos, grita desesperadamente. Além dela, Adilânia tem um bebê de um ano, uma menina de 11 e um menino de 13. O homem ordena silêncio, e que apaguem as luzes.

— Vão pro quarto!

Robson observa toda a movimentação da Polícia pela janela veneziana. Os PMs vão e voltam na rua em busca do fugitivo. Procuram até nos telhados, e nada.

Uma das irmãs de Adilânia liga para saber se também ouvia os tiros. Tomada de refém, dizia apenas que ‘sim’, enquanto era acompanhada para qualquer lugar que fosse dentro de casa. Quando a PM vai embora, Robson liga para a “mãe”, dizendo que muitos morreram, e precisa de dinheiro para sair.

Quando o dia amanhece, Robson ordena que Adilânia siga até a Lotérica e saque uma quantia com um cartão que lhe entregou. Temendo pelos filhos, a mulher obedece. Passa em frente à cena do crime, vê a movimentação policial. Vai à Lotérica e volta com R$ 340. Entrega a Robson.

— Agora, preciso de uma roupa do seu filho.
Troca-se com bermuda jeans, blusa amarela e chinela marrom do menino de 12 anos. Sai da casa em busca das topics “de linha” que levam a Brejo Santo.

Aliviada, Adilânia corre pra casa da mãe com os quatro filhos e conta tudo. Logo a Polícia é avisada e consegue prender Robson dentro do coletivo na estrada.

A ex-refém é chamada à Delegacia para reconhecer o suspeito. Robson é colocado frente a frente com ela e a mãe, sendo esta encarada por ele. “Deu um medo muito grande. Ele ficou encarando assim, a gente”, disse Terezinha, apavorada e, ao mesmo tempo, aliviada que não fez nada com os netos. “O trauma que fica”.

Lugar amaldiçoado

A outra mudança de residência foi de José da Silva, o ‘Dé’, na localidade de Campo agrícola, às margens da BR 116, em Milagres. Revelamos sua história com exclusividade ainda em dezembro. Um dos suspeitos, desarmado e rendido, foi executado dentro da casa de José pela PM, que, em relatório, alegou “confronto”.