Servidores são investigados por favorecimento de consultas no HGF

Operação da Polícia Civil cearense apura um suposto esquema conduzido por terceirizados da unidade para dar vantagem a pacientes na fila de consultas. O hospital abriu processo administrativo e colabora com as investigações

Legenda: Polícia busca identificar outros envolvidos nas práticas criminosas e recuperar valores oriundos das mesmas
Foto: FOTO: Kilvia Muniz

Um grupo de funcionários terceirizados do Hospital Geral de Fortaleza (HGF) é acusado de cobrar ilegalmente taxas de pacientes e familiares deles para marcar consultas e exames, bem como garantir o fornecimento das medicações contínuas necessárias a pessoas transplantadas. A unidade realiza transplantes de órgãos como fígado, rins e pâncreas.

Uma operação da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) foi deflagrada na manhã dessa quinta-feira (3) para averiguar os integrantes da suposta organização criminosa.

O HGF informou que, em junho deste ano, registrou um Boletim de Ocorrência depois de receber uma denúncia de que "funcionários terceirizados estariam cobrando pela marcação de consulta ofertada gratuitamente pelo serviço público de Saúde". À época, a direção do hospital também abriu um processo administrativo para apurar a conduta dos colaboradores, que foram chamados para depor.

A Delegacia de Combate à Corrupção (Decor) deflagrou a Operação "Hígia", nas primeiras horas da manhã de ontem, para o cumprimento de seis mandados de busca e apreensão. Ao todo, 40 agentes da Decor, com o apoio de outras unidades da PCCE, efetivaram as decisões judiciais contra os alvos da operação, em Fortaleza.

Com as ações, a Polícia Civil tenta desmontar o esquema criminoso e identificar outros possíveis envolvidos na rede de corrupção, bem como recuperar valores oriundos das práticas criminosas. Segundo o órgão, os envolvidos poderão responder pelos crimes de concussão, peculato e organização criminosa.

Em nota, o HGF declarou que, desde junho, "passou a colaborar com todas as investigações em andamento pela PCCE, prestando as informações necessárias".

Para o médico cearense Huygens Garcia, presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), os servidores envolvidos em qualquer esquema de venda ou facilitação de consultas devem ser investigados e punidos. Contudo, afirma que o caso "em nenhum momento abala a credibilidade do sistema de transplantes do País" porque, segundo ele, "é impossível furar a fila de transplantes".

"Os procedimentos estão acontecendo de maneira absolutamente correta e obedecendo às leis. Mais de 95% deles são financiados pelo SUS (Sistema Único de Saúde), que disponibiliza consultas e medicamentos imunossupressores gratuitos", declara.

Indignação

O representante de uma associação de apoio a pacientes na fila de transplante do Ceará, que preferiu não ser identificado, também revela indignação com o esquema de beneficiamento individual. No entanto, para ele, o caso não gerou tanta surpresa diante de um serviço de grande procura como o do Hospital.

"Eu vou hoje, faço a consulta, o médico solicita os exames. Se eu perder a próxima consulta, para remarcar, é no mínimo de dois meses pra frente", exemplifica. "Nisso, você já perde 60 dias só para apresentar o resultado dos exames e atrasa sua chegada na fila de transplante, então, infelizmente, acontecem essas coisas".

O médico Huygens Garcia, da ABTO, rebate a demora e garante que as consultas de transplantes geralmente são marcadas para um prazo inferior a 15 dias, porque os candidatos "têm prioridade e não podem esperar muito". "No acompanhamento pós-transplante, a maioria é consulta semanal e já fica marcada para a próxima. Há uma preocupação de todos os serviços de agilizarem esse acesso", afirma.

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