Jovens afirmam que eram incentivados a cortar relações fora de seita espiritual

Relatos dão conta de que abusos sexuais, físicos e psicológicos eram recorrentes na Comunidade Afago

Comunidade Afago não tem uma sede fixa em Fortaleza
Legenda: Comunidade Afago não tem uma sede fixa em Fortaleza
Foto: Foto: Arquivo Pessoal

Jovens que integravam a Comunidade Afago revelaram, nesta segunda-feira (20), que eram incentivados a cortar relações com pessoas de fora da seita espiritual. Elas procuraram a Polícia Civil do Ceará (PCCE) para prestar depoimentos sobre o caso. Relatos dão conta de que abusos sexuais, físicos e psicológicos eram recorrentes na Comunidade, em Fortaleza.

Uma garota, que preferiu não se identificar, passou cerca de dois anos na Comunidade. "Houve diversas situações, com outros membros que me humilharam ou me segregaram de alguma forma. Outros que abusaram psicologicamente de mim. Eu era levada a acreditar que a culpa era minha, que não sabia perdoar, que eu precisava silenciar mais, guardar isso para mim", relata.

Ela gostava das ações sociais realizadas pela Comunidade e, mesmo sofrendo abusos psicológicos, tinha receio de abandonar a seita: "Eu pensei em sair várias vezes. Mas como nós éramos incentivados a cortar relacionamentos de fora, eu senti que não teria amigos. Principalmente amigos que me avisaram que não seria bom eu estar nesse lugar. Como eu tava muito deslumbrada com as ações sociais e com o acolhimento de algumas pessoas, eu pensava que estava em um lugar bom".

Um rapaz, que também não quer ser identificado, afirma que se encantou pelas ações sociais realizadas pela Comunidade Afago, voltadas para pessoas em situação de rua, vítimas de violência e crianças abandonadas. Mas, com o tempo, ele começou a desconfiar de algumas "culturas" sustentadas pelo criador da seita, o estudante de Filosofia, Pedro Ícaro de Medeiros, conhecido como 'Ikky'.

"Existia muito a 'muralha do silêncio', por medo de retaliação espiritual e da própria comunidade. Éramos incentivados a deixar de ter amigos e de nos relacionarmos amorosamente, com pessoas que não fossem da comunidade. Se você quebrasse essa muralha, ia ser completamente excluído, e ele ('Ikki') dizia que Jesus ia castigar a gente", revela.

O jovem ainda se diz vítima de um golpe, ao se matricular em um curso de terapia holística: "Cheguei a pagar um valor bem alto, mais de mil reais, que era só o primeiro semestre. Nós necessitávamos do segundo semestre, segundo ele, para nos tornarmos um terapeuta completo, o que não aconteceu. Ele simplesmente cancelou o curso, e a gente ficou sem qualquer perspectiva de certificado e ressarciamento".

O 26º DP (Edson Queiroz) investiga o caso. Em nota divulgada na manhã desta segunda-feira (20), a Polícia Civil afirmou que três pessoas já prestaram depoimento e outras devem ser ouvidas nesta semana.

"A PCCE ressalta a necessidade daqueles que se sentirem vítimas comparecerem à delegacia para formalizar o procedimento, no intuito de subsidiar as investigações já em curso", conclui a Instituição.

Denúncias de assédio sexual e agressão física

Outros integrantes da Comunidade Afago denunciaram ter sofrido assédio sexual e agressão física, em reportagem veiculada pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo (19).

O Ministério Público do Ceará (MPCE) requisitou à Polícia Civil a abertura de um inquérito para investigação do caso. Os depoimentos começaram a ser coletados na última quinta-feira (16), segundo a jurista Thayná Silveira. “Ele (Ícaro) pegou esses jovens que estavam querendo pertencer a alguma coisa, que estavam em busca de cura de traumas sexuais, de traumas familiares e as manipulou”, afirma.

Entre os relatos feitos à reportagem do Fantástico, denúncias de agressão e estupro. “Não só pra mim, mas para uma roda de pessoas, ele dizia muitas vezes que o p... (órgão sexual) dele era mágico”, disse uma vítima do sexo masculino. Outro homem afirmou que Ikky o obrigou a ter relações sexuais. “Eu estava chorando, sangrando e eu esperava dele um pouco de humanidade. O que ele fez foi tirar minha blusa e colocar minha blusa na minha boca para que parasse de chorar e ele pudesse continuar”.

Já uma mulher, também de identidade preservada, comentou os impactos negativos em sua saúde mental após as vivências no lugar. “Eu entrei na Afago já num momento frágil psicologicamente. E fui ficando cada vez mais frágil e culminou numa crise de depressão muito intensa”.

As acusações também miram a prática de estelionato. Segundo a recepcionista Pamela Magalhães, a única a mostrar o rosto em entrevista ao Fantástico, “a cada semestre ele aumentava o valor desses cursos, tanto que quando eu entrei era R$50 e quando eu saí um determinado curso já era R$ 1.500”.

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