Guru espiritual é denunciado por crimes sexuais e charlatanismo

Polícia Civil concluiu inquérito e Ministério Público já realizou a denúncia, menos de uma semana após jovens relatarem ter sido vítimas de abusos, na Comunidade Afago. O acusado nega o cometimento dos crimes

O juiz da 15ª Vara Criminal de Fortaleza já está em mãos com a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE) contra o guru espiritual Pedro Ícaro de Medeiros, o 'Ikky', por violação sexual mediante fraude, crime sexual para controlar o comportamento social ou sexual da vítima, charlatanismo e curandeirismo. E deve decidir se o torna réu ou não, nos próximos dias. O processo está sob segredo de Justiça.

A denúncia, elaborada pela promotora de Justiça Grecianny Carvalho Cordeiro, foi entregue à Justiça na última sexta-feira (24). 'Ikky' é estudante de Filosofia e é apontado como o criador da Comunidade Afago, onde teria abusado sexual, físico e psicologicamente de jovens de aproximadamente 20 anos, entre 2018 e 2019, em Fortaleza.

O Ministério Público ressaltou, em nota, que as vítimas do guru espiritual estão se apresentando e prestando depoimentos junto ao Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência (Nuavv), coordenado pela promotora de Justiça Joseana França.

A acusação foi feita após a conclusão de um inquérito policial pelo 26º DP (Edson Queiroz), da Polícia Civil do Ceará (PCCE). Também em nota, a Instituição informou que 18 pessoas prestaram depoimento sobre o caso e mais devem ser ouvidas nos próximos dias. 'Ikky' também compareceu à Delegacia, na última quarta-feira (22), para prestar esclarecimentos, mas segue respondendo em liberdade.

A Polícia Civil reforçou "a necessidade daqueles que se sentirem vítimas comparecerem à delegacia para formalizar o procedimento, no intuito de subsidiar as investigações que estão dentro do prazo processual".

As denúncias de crimes ocorridos dentro da seita espiritual vieram a tona com uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, exibida no último dia 19 de julho. Em menos de uma semana, a Polícia Civil concluiu o inquérito e o MPCE denunciou o suspeito. "Ele ('Ikky') pegou esses jovens que estavam querendo pertencer a alguma coisa, que estavam em busca de cura de traumas sexuais, de traumas familiares e as manipulou", resumiu a advogada Thayná Silveira, que acompanha algumas vítimas.

A Comunidade Afago atraía os jovens pelo tratamento espiritual, participação em projetos sociais e cursos terapêuticos. "Não só pra mim, mas para uma roda de pessoas, ele dizia muitas vezes que o p... (órgão sexual) dele era mágico", disse uma vítima do sexo masculino.

Outro homem afirmou que 'Ikky' o obrigou a ter relações sexuais: "Eu estava chorando, sangrando e eu esperava dele um pouco de humanidade. O que ele fez foi tirar minha blusa e colocar na minha boca para que parasse de chorar e ele pudesse continuar".

Ritual

As vítimas relatam que havia um ritual de batismo que deixava cicatrizes. "Você era batizado com água no chuveiro na casa dele e, se você fosse teimoso ou desobediente, ou qualquer uma dessas características rebeldes, era queimado com uma pedra quente atrás da nuca, no pescoço", contou um jovem.

O grupo também tinha uma hierarquização. Para progredir, o jovem tinha que passar por provas violentas, como a troca de tapas, que promoviam "o crescimento pessoal e espiritual".

Defesa

Procurado, o advogado de defesa de 'Ikky' não se manifestou sobre a denúncia do MPCE até o fechamento desta matéria. Em entrevista ao Fantástico, o acusado negou os crimes e disse que registrou Boletim de Ocorrência (B.O.) por ser vítima de calúnia e difamação, por parte de pessoas que deixaram a Comunidade Afago. Segundo ele, as relações sexuais eram consensuais.

"Muitas das acusações foram racistas. Não me chamavam só de mago negro, de magia negra. Eles falavam realmente que eu era um fascista. Houve crimes com relação a isso: a eu ser homem, ser negro e ser gay", complementou.

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