Chacina das Cajazeiras completa três anos; acusados seguem presos e não há previsão para julgamento

No dia 27 de janeiro de 2018, 14 pessoas foram assassinadas em um dos massacres mais sangrentos no Estado e que teve repercussão internacional. Há quase dois anos, o processo segue em fase de instrução

No ataque que entrou para a história da Segurança Pública do Ceará, 14 pessoas foram assassinadas
Legenda: No ataque que entrou para a história da Segurança Pública do Ceará, 14 pessoas foram assassinadas
Foto: JL Rosa

Quase três anos após a Chacina das Cajazeiras, a Justiça ainda não foi feita. E ela segue sem data para acontecer. Mais de mil dias depois, o processo que já conta com mais de três mil páginas segue em fase de instrução, na qual são colhidas provas com o objetivo de levar os acusados ou não a julgamento.

> Acusado de ordenar Chacina das Cajazeiras alega inocência

No ataque que entrou para a história da Segurança Pública do Ceará, 14 pessoas foram assassinadas. No dia 27 de janeiro de 2018, membros de uma facção criminosa fundada no Estado colocaram em ação um plano minuciosamente pensado para assustar, para mostrar aos rivais quem mandava no território: "Aqui é tudo três", gritaram ao invadir o Forró do Gago, efetuando disparos de arma de fogo, indiscriminadamente.

O Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou 15 pessoas pela série de assassinatos. Uma delas morreu. Outras foram transferidas para presídios federais, de Segurança Máxima. Nesse meio tempo houve até acusado que conseguisse retornar à unidade prisional no Ceará. Enquanto isso, a resposta do Judiciário segue a mesma fornecida há um ano: "o processo encontra-se em fase de instrução e tramita na 2ª Vara do Júri de Fortaleza".

Para o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), a "tramitação do processo segue constante e célere". De acordo com nota do TJCE, o caso faz parte de iniciativas que visam acelerar o julgamento de processos sendo, como: Programa Tempo de Justiça e o Movimento de Apoio ao Sistema Prisional (Masp).

Espera

Além das 14 vítimas mortas na chacina, outras nove ficaram feridas. Dentre elas uma jovem de 19 anos, sem antecedentes criminais. A mãe da sobrevivente, que pede para não ser identificada temendo represálias, alerta que o descaso do Poder Público vai além da morosidade da Justiça. Segundo a dona de casa, desde o episódio, a filha não consegue assistir a televisão, dormir com a luz apagada e sair com os amigos.

As dores vividas pela família vão desde dificuldade para conseguir atendimento psicológico gratuito até retomar a rotina de antes do ataque. "Minha filha fez 22 anos agora nesse último domingo. Ela tem uma placa no fêmur e ficou com uma bala alojada nas costas. Chora quase todos os dias e convive com isso. Me mandaram procurar um psicólogo em um posto de saúde. Ela foi. Semanas depois a psicóloga disse que não precisava mais ir, que ela estava ótima. Só quem sabe", reclama a dona de casa.

A mãe da jovem sobrevivente diz acreditar que um dia a Justiça na terra será feita, "enquanto isso, Deus toma de conta". Quando a jovem decidiu ir ao Forró do Gago naquela noite, ela estava em companhia de uma amiga. A família morava há poucos meses nas redondezas da casa de shows e não tinha conhecimento se o local costuma ser ou não frequentado por criminosos.

"Chegamos de Beberibe em 2017, e em janeiro de 2018 tudo aconteceu. Agora já tem três anos e ninguém sabe de nada. Já quisemos ir embora para o Interior, mas lá não tem estrutura para ela. Posso ser bem sincera? Eu não tenho o menor interesse em saber onde estão os bandidos que fizeram isso. Eles não tinham o direito de tirar a vida de ninguém. Sinto tristeza por tudo. Nós fomos jogados às traças e ficou por isso mesmo", disse a mãe da jovem.

Além das 14 vítimas mortas na chacina, outras nove ficaram feridas
Legenda: Além das 14 vítimas mortas na chacina, outras nove ficaram feridas
Foto: Thiago Gadelha

Trâmite

Em agosto de 2018, foram denunciados pela chacina: Auricélio Sousa Freitas, Ayalla Duarte Cavalcante, Deijair de Souza Silva, Ednardo dos Santos Lima, Fernando Alves Santana, Francisco de Assis Fernandes da Silva, Francisco Kelson Ferreira do Nascimento, João Paulo Felix Nogueira, Joel Anastácio de Freitas, Misael de Paula Moreira, Noé de Paula Moreira, Rennan Gabriel da Silva, Ruan Dantas da Silva, Victor Matos de Freitas e Zaqueu Oliveira Silva.

A defesa de Deijair de Souza solicitou à Justiça desmembramento do processo. O pedido foi aceito e desde então o caso dele tramita a parte no Judiciário cearense, também seguindo na fase de instrução. Já o nome de Rennan Gabriel da Silva não consta mais no andamento do processo. Rennan faleceu de tuberculose nos leitos do hospital São José, em Fortaleza, um ano após o crime.

Deijair, Misael, Noé, e Zaqueu foram apontados na investigação como líderes da facção que ordenou o massacre. Todos eles foram transferidos para a Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Deijair conseguir retornar ao Ceará e os demais seguem em unidade de segurança máxima.

O MPCE destaca que o processo principal sobre a Chacina das Cajazeiras tem mais de três mil páginas. Segundo o Tribunal, 12 réus apresentaram defesa preliminar e após esta fase de instrução caberá ao juízo determinar a pronúncia ou não dos acusados.

Ainda conforme o TJCE, nos últimos anos foram registrados "vários pedidos de liberdade provisória e revogação de prisão preventiva; e a desistência de vários advogados. Por determinação do Tribunal de Justiça do Ceará, foi formado um colegiado composto por três juízes e um suplente para atuação no caso".

A reportagem solicitou ao TJCE e ao MPCE entrevistas com fontes que atuam no caso. Ambos os órgãos negaram concessão de entrevistas, e optaram por se posicionarem por meio de notas.

Defesas

A advogada Paloma Gurgel, representante da defesa de Deijair, afirma que a investigação se apegou ao testemunho de uma pessoa com identidade preservada, que apenas ouviu dizer ter visto Deijair no entorno da cena do crime.

"Quando ele estava em domiciliar, em casa, houve a Chacina das Cajazeiras. A Polícia foi lá sem autorização judicial porque disseram que ele estava na chacina. Quando chegaram lá viram que ele estava de tornozeleira. Tiraram foto e tudo. Foram embora. Logo depois foi um pessoal vestido de Polícia e tentou matar ele. Pedi pro Deijair sair de casa, pedi ao juiz, e ele decidiu não sair, decidiu ficar cumprindo a pena. Foi quando a Polícia veio novamente, dessa vez com mandado de prisão temporária em virtude da investigação da chacina. Quando chegou lá ele estava armado com uma .40. Ele se armou para se defender do pessoal que foi lá tentar matar ele", contou Paloma.

André Quezado, defensor dos irmãos Misael e Noé, também falou à reportagem. O advogado pontuou que seus clientes são inocentes das acusações e "desde quando tomaram ciência que seus nomes estavam figurando no inquérito policial como participantes da chacina se sentem desesperados, pois sabem que são acusações gravíssimas e ambos alegam inocência, corroborando pela inexistência de provas na ação policial, portando, estão confiantes que serão absolvidos". O advogado considera que a demora no andamento do caso é "injustificável e fere diversos princípios processuais"

Quero receber conteúdos exclusivos sobre segurança