Acusado de ordenar duplo homicídio para vingar morte do irmão deve ir a júri popular, em Fortaleza

Após mais de uma década, o suposto líder de um grupo de assassinos deve ser julgado pelo 3º Tribunal Popular do Júri da Comarca de Fortaleza.

Escrito por
Geovana Almeida* geovana.almeida@svm.com.br
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Legenda: O duplo homicídio teria sido motivado pela morte do irmão do acusado.
Foto: Natinho Rodrigues/Arquivo SVM.

O homem identificado como Valdenir Pereira Ferreira, o 'Denir', acusado de ser o mandante de um duplo homicídio ocorrido em 2014, na comunidade do Oitão Preto, no bairro Moura Brasil, em Fortaleza, deve sentar no banco dos réus. Segundo documentos obtidos pela reportagem, as execuções foram motivadas por desavenças que começaram anos antes, com o assassinato do irmão de 'Denir'.  

Mais de 12 anos após as mortes, o Juízo da 3ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza pronunciou Valdenir Ferreira - na condição de mandante - pelas mortes de Gilson Cosmo Barroso de Melo Filho e Francimarlon Costa Policarpo. Os dois foram mortos a tiros na tarde do dia 18 de janeiro de 2014, na Rua Adarias de Lima, no bairro Moura Brasil, por um grupo de cinco pessoas armadas. 

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O Ministério Público do Ceará ofereceu denúncia contra os envolvidos ainda em dezembro de 2014. Na ocasião, o MP afirmou que "os réus cometeram homicídio qualificado".  

Em depoimento, testemunhas identificaram as cinco pessoas envolvidas: Samoel Rodrigues Lima Filho, o 'Samoel'; Michael Rabelo dos Santos, o 'Maycon'; Vicente Mateus da Silva Oliveira, o 'Mateus'; Keytilene Rabelo dos Santos, a 'Kate'; e Valdenir Pereira Ferreira, o 'Denir'. 

Dentre eles, 'Denir' é o único que ainda não foi julgado. Por alguns anos ele foi considerado pela Justiça como 'foragido', tendo sua citação e intimações sido realizadas por edital por encontrar-se em "local incerto e não sabido". Populares informaram às autoridades que o homem não morava no endereço que informou "há mais de 10 anos".

'Denir' foi preso em 26 de março de 2026, em um loteamento no Parque Dois Irmãos, em Fortaleza. O homem de 43 anos já tinha antecedentes criminais por tráfico ilícito de drogas, receptação e homicídio doloso, além de três mandados de prisão em aberto.

Ao ser procurada pelo Diário do Nordeste, a defesa de Valdenir Pereira Ferreira afirmou que preferia não se manifestar.

O que aconteceu no dia dos assassinatos? 

As duas vítimas Gilson Cosmo, o 'Gilsin' e Francimarlon Costa eram amigos de infância e residentes da comunidade do Oitão Preto. Segundo depoimento do pai de uma das vítimas, no momento em que foram mortos os jovens estavam em uma moto indo comprar um lanche quando foram abordados por um carro preto com cinco pessoas dentro.

Vicente Mateus da Silva, o 'Mateus', estava dentro do veículo e efetuou os primeiros disparos contra Gilson, que caiu. Segundo documentos obtidos pela reportagem, Gilson teve morte causada por "feridas penetrantes e transfixantes de crânio provocadas por projéteis únicos de arma de fogo".

Durante os primeiros disparos, a segunda vítima Francimarlon Costa correu enquanto outros três envolvidos - 'Maycon', 'Denir' e 'Kate' desciam do carro para persegui-lo. Testemunhas revelaram às autoridades, que após os disparos, os envolvidos teriam chutado a cabeça das vítimas enquanto pareciam estar rindo. 

Samoel Rodrigues Lima Filho, o 'Samoel', foi o único que não efetuou disparos pois estaria na posição de "piloto de fuga". Ele era o motorista do carro utilizado pelos criminosos.

Francimarlon chegou a ser levado por familiares ao Instituto Doutor José Frota (IJF), mas chegou morto na unidade de saúde. A causa da morte foi "hemorragia torácica e
abdominal, secundário a traumatismo penetrante por projétil de arma de fogo".

Os pais de Francimarlon, a esposa de Gilson e outras pessoas presenciaram o atentado que aconteceu em via pública. Na época dos assassinatos, testemunhas revelaram ter medo de falar com as autoridades, pois os executores eram "perigosos, frios e conhecidos na comunidade".

Por que os dois foram mortos? 

Segundo a investigação, o duplo homicídio seria apenas mais uma etapa de um ciclo vicioso de "vinganças". Em depoimento, testemunhas que moram na comunidade afirmaram que a primeira morte que desencadeou a onda de assassinatos foi a de um homem conhecido como 'Papel'. 

Posteriormente identificado como Samuel Pereira Ferreira, 'Papel', foi morto em novembro de 2012, também no Moura Brasil. 'Papel' era irmão de Valdenir Pereira Ferreira, o 'Denir' e companheiro de Keytilene Rabelo dos Santos, a 'Kate'. 

Na época, a Polícia Judiciária revelou que 'Papel' foi morto após uma longa disputa por pontos de vendas de droga e que Gilson Cosmo, o 'Gilsin', seria o suposto assassino do homem. 

No dia em que 'Papel' foi morto, populares relataram que 'Denir' e ' Maycon' teriam "metralhado" a parede de uma lanchonete onde o corpo da vítima foi encontrado, além de ter "jurado de morte" o suposto assassino, Gilson Cosmo.

'Papel' tinha antecedentes criminais por tráfico ilícito de drogas, homicídio doloso e roubo. Após sua morte, diversos assassinatos, incluindo o duplo homicídio, teriam acontecido na região "por vingança". 

A esposa de Gilson chegou a confessar em depoimento que o companheiro teria matado 'Papel' por ter sido ameaçado pelo mesmo. Já Francimarlon, apontado apenas como "amigo de Gilson" não tinha antecedentes criminais e, segundo testemunhas, foi morto por "pura perversidade".

Como foram julgados os envolvidos? 

Keytilene Rabelo dos Santos, a 'Kate' 

A única mulher envolvida nos homicídios foi presa em janeiro de 2015, no bairro Prefeito José Walter. Na ocasião, 'Kate' foi presa por tráfico de drogas após ser flagrada na posse de um pacote com 200 gramas de crack. 

Mas somente em novembro de 2020, Keytilene Rabelo foi submetida ao julgamento do Tribunal do Júri. Ela foi condenada a 29 anos de reclusão, em regime inicialmente fechado. 

'Kate' foi condenada pelo crime de homicídio qualificado duas vezes e pelo crime de associação criminosa. A defesa da mulher tentou recorrer e pedir por uma prisão domiciliar ao informar que Kate era mãe de três crianças, mas a mulher segue presa no Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa (IPF), em Aquiraz. 

Michael Rabelo dos Santos, o 'Maycon'

'Maycon' foi o primeiro do grupo a ser preso ainda em 2014. Em 2020, ele foi sentenciado a 26 anos de reclusão pelo duplo homicídio. 

Ele tinha antecedentes criminais por tráfico ilícito de drogas, associação para o tráfico, corrupção de menores, receptação, uso de documento falso, falsa identidade e adulteração de sinal identificador de veículo. 

'Maycon' também já tinha sido submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri em outro caso de homicídio ocorrido em 2012, em que foi absolvido.

Em 2016, a Unidade Prisional Agente Penitenciário Luciano Andrade Lima (CPPL 1) informou que Maycon teria empreendido fuga da unidade. Alguns meses depois, em abril de 2017, ele foi recapturado. 

Samoel Rodrigues Lima Filho, o 'Samoel'

Apontado pelas testemunhas como o "piloto de fuga", 'Samoel' também foi submetido ao Tribunal do júri. Ele foi absolvido de todas as acusações. Inclusive, pela acusação de associação criminosa. 

As investigações apontaram que ele seria integrante da "Quadrilha do Maycon", no bairro Moura Brasil, grupo que era temido por moradores e suspeito de praticar vários outros homicídios na comunidade do Oitão Preto. 

Durante a instrução do processo, 'Samoel' foi recorrentemente identificado como foragido, com mandados de prisão preventiva expedidos contra ele em 2014 e 2018. Em 2020, a Justiça ainda tentava intimá-lo por edital, pois ele se encontrava em local "incerto e não sabido".

'Kate', 'Maycon' e 'Samoel' foram julgados juntos, sendo o último citado o único a ter sido inocentado pelo júri popular. 

Vicente Mateus da Silva Oliveira, o 'Mateus'

Em 2021, Vicente Mateus da Silva, o 'Mateus', foi submetido ao Tribunal do Júri no qual foi condenado a maior pena aplicada aos envolvidos, 32 anos de reclusão, em regime inicialmente fechado.

Em seu nome, constam processos de homicídio, furto, porte ilegal de arma de fogo, além de roubo consumado e tentado. 

Ele foi preso preventivamente em decorrência do duplo homicídio de 2014, tendo passado por unidades prisionais como a CPPL I e pela Unidade Prisional Stenio Gomes de onde foi requisitado para o seu julgamento em plenário. 

*Estagiária supervisionada pelo jornalista Emerson Rodrigues.

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