Acusada de usar encontro em motel no Ceará para atrair jovem à morte deve permanecer presa
A Justiça destaca risco de fuga já que "há registros da mulher em deslocamentos e postagens na comunidade Rocinha, no Rio de Janeiro".
A Justiça do Ceará decidiu manter presa Ludmila Sampaio Santos. A mulher é uma das acusadas pela morte de um jovem, vítima de uma emboscada, em Fortaleza.
A decisão foi publicada no Diário da Justiça Eletrônico (DJE) dessa quarta-feira (8). O colegiado de magistrados da 6ª Vara do Júri indeferiu o pedido da defesa e acolheu o parecer ministerial.
Conforme a acusação, Ludmila seria membro da facção criminosa carioca Comando Vermelho (CV) e marcou um falso encontro íntimo em um motel para levar João Rennan Lima dos Santos ao local do crime.
A defesa da denunciada insiste na soltura alegando que a mulher é a única responsável pela sua filha, uma menina de quatro anos, que necessita de cuidados específicos devido a uma doença.
O Ministério Público do Ceará (MPCE) pondera que a substituição da prisão preventiva pela domiciliar é vedada neste caso, sendo o crime cometido com violência ou grave ameaça à pessoa.
“A jurisprudência pátria consolidada é firme no sentido de que o benefício da prisão domiciliar para mães de crianças menores não possui caráter automático e deve ser analisada à luz das circunstâncias concretas do caso, sendo plenamente admissível o indeferimento quando presentes elementos que demonstrem risco à ordem pública ou envolvimento com organização criminosa, exatamente como reconhecido na decisão combatida”
De acordo com a decisão, há registros da mulher em deslocamentos e postagens na comunidade Rocinha, no Rio de Janeiro, e “tais circunstâncias geram risco iminente de fuga deliberada e demonstram a periculosidade da agente e a necessidade da manutenção da segregação cautelar para garantia da ordem pública e da instrução criminal, sendo as medidas cautelares diversas da prisão insuficientes para o caso”.
Ludmila está presa desde o dia 6 de janeiro deste ano. A defesa dela diz aguardar a produção de provas e o fim da instrução criminal.
PLANO DE VINGANÇA
João Rennan Lima dos Santos, conhecido como 'Puro Amor', de 20 anos, foi assassinado a tiros em uma emboscada no bairro Vila Manoel Sátiro, em Fortaleza.
De acordo com documentos que o Diário do Nordeste teve acesso, João era integrante da facção rival Guardiões do Estado (GDE), atualmente ligada ao Terceiro Comando Puro (TCP).
O homicídio teria sido uma vingança contra a morte de uma mulher chamada Grazielly, ligada ao CV. "Puro Amor" era apontado como um dos executores do crime, como descreve a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), enviada à Justiça no último mês de dezembro.
Um dos motivos que levou a Polícia Civil a solicitar a prisão preventiva da mulher foi o fato de ela ter sido classificada como "judas" pela facção GDE, por atrair Rennan à morte.
Segundo a investigação da Polícia Civil, Ludmila fez uso de uma técnica conhecida no meio criminoso como "cheiro do queijo", empregada quando uma pessoa atrai outra para um local onde ela será executada. Ela marcou data, local e horário, e pediu que Rennan não se atrasasse.
Conversas entre a vítima e a mulher no Instagram, obtidas pelo Diário do Nordeste, revelam que ela o convidou para sair e, de acordo com o inquérito policial, depois eles iriam para um motel.
Câmeras de segurança mostraram que "Puro Amor" cumpriu o combinado com Ludmila. Minutos após chegar ao local marcado, os executores apareceram e efetuaram diversos disparos de arma de fogo contra a vítima.
Segundo a investigação, a participação de Ludmila é reforçada, pois ela se afastou da vítima e fugiu na direção contrária, "sem demonstrar reação de pavor ou surpresa".
EXECUÇÃO DO CRIME
Outros dois réus no mesmo processo, estes apontados como executores do crime, são: Francisco Roberty Souza Galeno e Antônio Cristian Monteiro de Oliveira.
Roberty é classificado pela acusação como "soldado" do CV, por envolvimento em múltiplos homicídios conectados à disputa territorial do CV com a GDE nas adjacências da Vila Manoel Sátiro.
Ele foi preso em novembro de 2025, antes da denúncia criminal ser ofertada pelo MPCE, devido a um mandado de prisão por outro homicídio.
Antônio Cristian, também integra o CV e, conforme as investigações, é reconhecido pela inteligência policial e por testemunhas como participante de disputas armadas na região onde ocorreu a morte de "Puro Amor". A reportagem apurou que ele foi identificado durante as investigações, mas não foi localizado, apesar de a Justiça ter ordenado a prisão preventiva dele.
Em nota de esclarecimento, a defesa de Cristian afirmou que a acusação se baseia em "interpretações que não encontram suporte em provas materiais robustas e inquestionáveis".
Os advogados Catharine de Marilac e Dayvid Martins, alegaram que as informações citadas pelo MPCE na denúncia são "insuficientes e inconclusivas", e disse que será demonstrado durante a instrução que ele não possui ligação com o crime.
"A defesa confia que o Poder Judiciário analisará o caso com a imparcialidade e o rigor técnico necessários. Estamos trabalhando ativamente para demonstrar a verdade dos fatos e garantir que nenhuma injustiça seja cometida contra o Sr. Antônio Cristian", diz nota.
As participações dos suspeitos de serem os executores foram apontadas pelos investigadores por imagens do dia do crime e por uma testemunha sigilosa, a qual afirmou que a dupla vinha fazendo ameaças contra a vítima.
O trio responde na 6ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza pelos crimes de homicídio qualificado, motivado por vingança no contexto de disputa de facções rivais e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima; e organização criminosa.