‘Hinos de facção’: criminosos do CE encomendam músicas que podem chegar a R$ 50 mil
Uma fonte sigilosa revelou ao Diário do Nordeste detalhes sobre o mercado clandestino que financia e impulsiona funks ligados ao crime organizado no Ceará.
Os 'hinos de facção' são músicas compostas em homenagem a organizações criminosas, em grande maioria, feitas para prestigiar lideranças ou "tropas" desses grupos. Por meio dessas canções, alguns dos maiores criminosos do Ceará são retratados como protagonistas de narrativas de prestígio, luxo e admiração.
Foram presos no Ceará, nos últimos seis anos.
Essas músicas são encomendadas por integrantes de facções que pagam milhares de reais para que elas sejam escritas por MCs e DJs "famosos" e veiculadas em festas, vídeos, trends e plataformas musicais. Do outro lado dessa engrenagem, crianças e adolescentes reproduzem essas canções milhares de outras vezes, desenvolvendo sentimentos de pertencimento e fascinação.
Existe alguma alternativa a esse movimento que permita a livre expressão artística sem expor adolescentes e jovens ao crime? Foi em busca dessas respostas que a reportagem analisou perfis nas redes sociais, vídeos virais, músicas denunciadas pelas autoridades e conversou com especialistas no assunto, fontes sigilosas e jovens cearenses.
Para o doutor em sociologia e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), Artur Pires, a criação de ‘hinos’ faz parte de um comportamento estratégico das facções que buscam “construir uma identidade coletiva”. “Não à toa, por exemplo, todo país, todo estado e até clube de futebol tem um hino”, compara o especialista.
É muito simbólico como a facção consegue penetrar na subjetividade e na construção identitária do jovem periférico.
As organizações criminosas encontraram no funk um espaço para ampla veiculação de narrativas criminais e um ponto de conexão com a juventude, construindo parte do que os especialistas entendem como ‘Narcocultura Digital’. Nas redes sociais, essas facções disputam “por meio de músicas, discursos e mensagens, quem tem mais armas, poder e prestígio", comenta o pesquisador.
Para a professora do departamento de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Grupo de Estudos em Linguística e Discurso Narrativo - GELDA/CNPQ, Sandra Maia, o funk tem escancarado uma realidade de violência extrema, que “vive ao lado” e que muitos brasileiros não aceitam enxergar.
Quem financia e quanto custa um ‘hino de facção’?
No Ceará, os ‘hinos de facção’ costumam ser encomendados e pagos pelos próprios líderes das facções criminosas, que contratam DJs e MCs famosos nacionalmente para dar vida às homenagens. Esse contato acontece normalmente por meio de mensagens e ligações, que são analisadas por oficiais de investigação.
É a média de preço de um 'hino de facção', no Ceará.
Essas músicas são utilizadas como uma das principais ferramentas para demonstrar "poder e status dentro de uma comunidade", afirma uma fonte sigilosa, em entrevista ao Diário do Nordeste. No Ceará, figuras de liderança — em sua maioria escondidas em comunidades do Rio de Janeiro — costumam contratar cantores cariocas para compor e gravar as músicas em estúdio.
Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), afirmou que: "Por intermédio da integração entre trabalho ostensivo, investigação e inteligência das Forças de Segurança do Ceará, o estado registrou um aumento de 21,4% nas capturas em flagrante ou mandado por organização criminosa, durante o primeiro quadrimestre de 2026".
O exemplo mais recente do sucesso de um desses hinos no Ceará é a música "Tropa do Alok", banida recentemente das plataformas Spotify, YouTube, Instagram e TikTok, mas que já acumulava mais de 200 mil reproduções em apenas uma plataforma quando foi excluída.
A canção foi banida das plataformas digitais alguns dias após a prisão de um dos cantores creditados na composição, identificado como João Vitor da Costa Minervino, ou 'MC Black da Penha' — dono de outras músicas apontadas como hinos do Comando Vermelho (CV).
É o número de reproduções em uma das músicas do MC, também apontada como ‘hino de facção’.
O ‘MC Black da Penha’ foi preso no final do mês de abril, após realizar um show no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Durante a apresentação, o artista carioca cantou a música “Tropa do Alok”, enquanto parte dos fãs fazia sinais manuais e postagens com símbolos relacionados à facção Comando Vermelho (CV).
O que se viu durante o show foi uma promoção indiscriminada dessa organização criminosa. O que é diferente da apologia ao crime.
Em nota enviada à reportagem, a equipe de defesa do cantor afirmou que: “O palco é um espaço de arte, não de crime. Transformar um show em uma acusação criminal é um equívoco que fere não apenas um artista, mas toda uma cultura que encontra na música sua voz e sua identidade”.
Segundo a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), a "Tropa do Alok" é uma música de homenagem ao cearense Ivanildo Sousa Freitas, o 'Alok' — apontado como liderança do CV nos bairros Bela Vista, Rodolfo Teófilo, Planalto Pici e no município de Maracanaú.
A equipe de reportagem apurou que o ‘MC Black da Penha’ teria afirmado às autoridades policiais que o valor pago pela canção variou entre R$ 10 mil e R$ 50 mil. Ainda segundo ele, a composição teria sido feita por um DJ cearense — que não está creditado oficialmente na música.
Legalmente, o cantor carioca foi autuado pelo crime de favorecimento ao domínio social estruturado — tipificado pela Nova Lei Antifacção (Lei nº 15.358/2026), também conhecida como Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, sancionada em 24 de março de 2026.
É a pena prevista para o crime cometido pelo MC.
O crime de “promover organização criminosa” foi tipificado pela primeira vez em 2013, por meio do artigo 2º da Lei de Organização Criminosa (Lei nº 12.850/2013), que institui pena de três a oito anos de reclusão para o delito. Antes disso, essas músicas eram enquadradas apenas como ‘apologia’, que é um crime previsto no Código Penal Brasileiro, com pena de três a seis meses de reclusão.
Nos últimos seis anos, outros cinco MCs foram presos pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), do Ceará, pela composição de músicas que enaltecem organizações como CV, GDE e TCP. São eles: MC Dym, MC Dick, MC PQD, MC GG e MC Fabuloso.
Como identificar um hino de facção?
Para além dos conceitos de apologia, os 'hinos de facção' se diferenciam dos funks comuns ao trazerem detalhes das rotinas e funções de um líder, uma “tropa” — que protege ou serve a esse líder — ou de uma organização criminosa em si. "Fala do bairro, da quebrada, de onde ele manda e do que ele manda fazer e não manda, por exemplo", afirma a fonte sigilosa.
Na "Tropa do Alok", alguns versos citavam os bairros Bela Vista e Planalto Pici como locais que estavam sob o domínio do protagonista da canção. Outro exemplo dessa riqueza de detalhes foi observado pelas autoridades nas músicas do MC PQD: “ele tinha uma música para cada líder de quebrada, dizendo qual a rua que era daquela pessoa e enaltecendo os tipos penais”, relembra a fonte.
Outra música apontada como ‘hino de facção’ é o funk “Favela Santiago Barra do Ceará” de Francisco Anderson Mendes, o MC Dym, preso em 2025. A canção foi lançada em novembro de 2023 e seria uma “comemoração” ao fim de disputas territoriais que aconteciam na localidade.
"Marca mais uma no mapa, lacrada no vermelho, pra nós é questão de honra dominar o Ceará inteiro", afirma o cantor no refrão da música.
Ao serem perguntados, os jovens entrevistados pela reportagem, que nunca tiveram contato com armas, drogas ou violência extrema, destacaram que conhecem vários ‘hinos de facção’. Um deles sabia cantar mais de três funks que supostamente homenageiam criminosos — um com mais de 400 mil reproduções no Spotify e cantado por um MC conhecido nacionalmente.
É o número de ouvintes mensais que um desses cantores tem no Spotify.
Para o doutor em sociologia, Artur Pires, parte da juventude periférica tem encontrado na cultura das facções uma “fascinação simbólica”. Ao escutar “as histórias de líderes do passado, líderes atuais, de suas conquistas e das tomadas de território”, o jovem passa a sentir a necessidade de se aproximar e pertencer a esse grupo, explica.
A professora Sandra Maia complementa essa reflexão ao afirmar que as organizações criminosas “colonizaram” as periferias do Brasil, oferecendo a essa juventude vulnerável uma realidade de proteção e medo ao mesmo tempo. “Então, a pessoa que vive debaixo desse guarda-chuva, terá muita dificuldade de não ser envolvida por essa situação”, explica a pesquisadora.
Existe um grande desafio para o Estado e para as políticas públicas para saber como disputar esse simbolismo com a facção.
Os jovens entrevistados apontam que, antes das narrativas do funk "influenciarem os jovens a entrar para a vida do crime”, outros fatores, como o abandono estatal e familiar, já os empurraram para esse abismo. “Quando o Estado não chega com omissão, chega com violência, a partir da ação policial. Então, esse jovem, ele já cresce revoltado com o Estado”, reafirma o doutor em sociologia.
Todo funk é ‘hino de facção’?
O gênero musical funk nasceu no Brasil na década de 70, como uma ferramenta política de protesto e crítica social, explica o pesquisador. Com o passar dos anos, a indústria cultural “se apoderou dessa capacidade de contestação do funk e alienou o conteúdo cultural das letras”, inserindo narrativas criminais e de sexualização - sobretudo do corpo feminino.
Ao serem perguntados, os jovens entrevistados destacam que nem todo funk tem o princípio de glorificar condutas criminais, mas aqueles que glorificam, apenas “contam a realidade que está acontecendo nas favelas”. Os adolescentes destacam que também consomem os chamados “funks conscientes”, que retratam a realidade econômica e social das periferias em tom de crítica e argumentação.
“O funk mostra essa realidade, ele mostra que quem manda na comunidade não é o governo. Quem manda na comunidade são as facções”, comenta a pesquisadora, Sandra Maia. Para ela, o “meio intelectual”, que decide quais músicas, filmes e obras são ou não “culturais”, já teria “segregado e compartimentalizado” o funk dos outros estilos musicais, desde sua criação.
Ainda segundo a especialista, as narrativas de apologia sempre existiram em diversos gêneros musicais, como nas músicas “Ideologia” de Cazuza, “Lança Perfume” de Rita Lee e até no sucesso internacional “Lucy in the Sky With Diamonds” dos Beatles, mas só começaram a ser criminalizadas quando essa apologia passou a ser feita através do funk.
“O funk é um patrimônio imaterial das pessoas das periferias, das favelas, das comunidades. Será que são elas que devem ser criticadas, purgadas da sociedade? São as únicas dignas de processo judicial?”, indaga a especialista.
A professora enxerga que parte das legislações atuais que são feitas para “destruir o funk”, não passam de hipocrisia e puritanismo. “A punição sempre vai pro favelado, pro periférico, quando a gente sabe que quem sustenta o mercado da droga e da narcocultura mora na Beira-Mar”, conclui a especialista.
*A equipe de reportagem utilizou ferramentas de Inteligência Artificial (IA) para confeccionar a imagem da capa.
*Estagiários supervisionados pelo jornalista Emerson Rodrigues.