Nas redes sociais, uma linguagem secreta que promove organizações criminosas cresce por meio de emojis, sinais manuais e os chamados ‘hinos de facção’. Esse fenômeno, conhecido como ‘Narcocultura Digital’, é estudado por especialistas, denunciado por forças de segurança e consumido diariamente por jovens de todo o Brasil.

As expressões que antes eram utilizadas apenas por aqueles que viviam a “vida do crime”, agora são replicadas milhares de vezes em plataformas como TikTok, Instagram e Spotify. É nesse discurso de poder, status, proteção e ascensão social que milhares de jovens brasileiros têm encontrado pertencimento e cultivado fascinação.

Por que tantas crianças e adolescentes têm se identificado com símbolos e discursos das facções nas redes e quais são os impactos desse consumo? Foi em busca dessas respostas que a reportagem analisou vídeos, fotos e conteúdos virais, além de conversar com autoridades, especialistas no assunto e jovens cearenses. 

A disputa de facções que existe nos territórios do mundo material foi expandida para o mundo digital.
Artur Pires
Doutor em sociologia e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC).

Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) afirmou: "Por intermédio da integração entre trabalho ostensivo, investigação e inteligência das Forças de Segurança do Ceará, o estado registrou um aumento de 21,4% nas capturas em flagrante ou mandado por organização criminosa, durante o primeiro quadrimestre de 2026". 

Por meio de uma estética produzida com ferramentas de IA e trends virais, o crime organizado conseguiu impulsionar a veiculação de conteúdos como 'decretos' de morte, 'editais' de batismo e 'comunicados' de tomadas de territórios, no Ceará. 

O objetivo é claro: “A utilização desses menores de idade serve à expansão das organizações criminosas, à reposição de seus quadros, ao fortalecimento de sua base territorial e à redução dos riscos penais suportados por seus líderes”, aponta um relatório sigiloso da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE).

O Diário do Nordeste selecionou emojis, sinais manuais e códigos numéricos que seriam possíveis conteúdos com “promoções de organizações criminosas” para serem analisados. As únicas fontes capazes de explicar o significado exato de cada um deles foram: autoridades policiais e um grupo de três jovens cearenses de 14 anos, que terão as identidades preservadas.

Afinal, quais são esses símbolos?

Ao todo, a equipe de reportagem apurou sete emojis que são apontados como supostas marcas das organizações criminosas: Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC), Terceiro Comando Puro (TCP) e Tudo Neutro/Massa Carcerária (TDN). 

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Os três jovens cearenses entrevistados afirmaram conhecer quase todos os emojis, que ainda segundo eles, são compartilhados com frequência nas redes sociais. Para eles, o mais famoso é o emoji do urso, que faz referência a Edgard Alves de Andrade, conhecido como 'Urso' ou 'Doca'

Mais de 550 mil
Vídeos foram publicados com a #CV, no TikTok.

O homem de 55 anos é investigado por mais de 100 assassinatos, incluindo execuções de crianças e desaparecimentos de moradores. O 'Urso' era o principal alvo da megaoperação que vitimou 121 pessoas no Rio de Janeiro, em 2025. Apesar das tentativas, o homem segue foragido. 

Os emojis de bandeira também estão entre os mais populares. A exemplo disso, a facção carioca Terceiro Comando Puro (TCP) utiliza a bandeira de Israel como sua principal marca. Antes de virar emoji e ser amplamente veiculado, o símbolo já era reproduzido nas paredes de comunidades, em tatuagens e até em capas de músicas virais como o funk 'Moço Perigoso', apontado como hino do TCP. 

O Terceiro Comando Puro é popularmente chamado de "facção evangélica", termo defendido pelo principal líder do grupo: Álvaro Malaquias Santa Rosa, o 'Peixão', que, atualmente, está foragido. Em uma proposta semelhante, a facção cearense Tudo Neutro/Massa Carcerária (TDN) utiliza a bandeira branca na tentativa de demonstrar "neutralidade" frente aos conflitos violentos.

Para o doutor em sociologia, Artur Pires, escolher emojis de bandeiras e encomendar 'hinos de facção' são exemplos de estratégias que buscam "construir um sentimento de coletividade", atraindo os jovens, muitas vezes em situação de vulnerabilidade, por meio da sensação de pertencimento a um grupo. 

A maioria dos emojis citados pertence ao Comando Vermelho (CV), que tem ocupado protagonismo nessa disputa digital e cultural. Segundo os adolescentes entrevistados, que nunca tiveram contato físico com armas, drogas ou violência extrema, o CV é a mais famosa facção criminosa do Brasil, pois tem “mais postagens, mais emojis e mais músicas”. 

'Decretos' de morte e atualizações de conflitos viralizam no CE

Na maioria dos conteúdos criminosos que viralizam no TikTok, os perfis utilizam ferramentas de Inteligência Artificial (IA) para produzir imagens e vídeos contendo 'decretos' de morte, ameaças de invasão e até homenagens a chefes do crime organizado.

Em um dos perfis mais populares, nos quais os posts com 'decretos' de morte acumulam entre 60 mil e 158 mil visualizações, os usuários divulgam detalhes como nomes e endereços de criminosos rivais, além de frases como "onde pegar é aço", em referência a tiros. 

Em outra conta, um comunicado de comemoração pelo recente domínio do Comando Vermelho (CV) no Ceará foi publicado em dezembro de 2025. O post, com mais de 100 mil visualizações, traz na legenda as seguintes frases: "Sejam todos bem-vindos a família CV CE. Paizão está feliz por todos".  

O 'Paizão' referenciado no post é o cearense Anastácio Pereira Paiva, também conhecido como 'Doze' ou 'Paulinho Maluco', que integra a lista de mais procurados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS-CE), e é apontado pela Pasta como homicida e traficante.  

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Legenda: Criminosos utilizam ferramentas de inteligência artificial para confeccionar posts que viralizam.
Foto: Reprodução/Redes Sociais.

Em outro vídeo viral, com mais de 130 mil visualizações, um homem conhecido como 'Abóbora' foi homenageado. A equipe de reportagem apurou que o 'Abóbora' é Felipe Pereira Silva, apontado como líder do CV no bairro Vicente Pinzón e atualmente preso em uma penitenciária cearense.

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Nos comentários, os usuários comentaram emojis de trem, urso, abóbora, "tudo dois" e pedidos pela liberdade do preso. Em outro post, dessa vez vinculado ao PCC, os comentários trazem emojis de bandeiras e dos nomes de bairros cearenses disputados pelas facções. 

Sinais manuais e códigos numéricos são proibidos em bairros rivais

"O simples fato de você postar qualquer emoji ou sinal relacionado a esses grupos criminosos pode ser considerado um ato de promoção da organização criminosa, podendo sofrer represália estatal", afirma uma fonte da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), entrevistada sob condição de anonimato.

Dois exemplos dessa represália estatal aconteceram no último dia 15 deste mês, quando dois homens foram presos em Fortaleza, após veicularem conteúdos de "promoção e fortalecimento simbólico de facção criminosa”. Os dois foram capturados no mesmo dia, mas em ações distintas da Delegacia de Combate às Ações Criminosas Organizadas (Draco).

Um deles chegou a publicar vídeos empunhando armas de diversos calibres, incluindo uma submetralhadora israelense tipo-UZI, ao som de um 'hino de facção' cearense, recentemente banido das plataformas digitais.

Antes dos emojis, os sinais manuais eram os principais símbolos de identidade para as facções criminosas. O sinal que antes representava “paz e amor”, agora tem um novo nome: o “tudo dois”, referência direta ao Comando Vermelho (CV).  Algumas outras variações de símbolos feitos com as mãos representam alusão às facções PCC, TCP e TDN - todas utilizando o chamado “tudo três”. 

O trio de adolescentes entrevistados afirmou conhecer esses sinais e dois deles revelaram que tiram fotos reproduzindo os símbolos, sem perceber o risco. Em 2024, um jovem paulista, apenas dois anos mais velho do que os entrevistados, foi morto em Jericoacoara, a 300 km de Fortaleza, após postar imagens reproduzindo o “tudo três". 

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Legenda: Além do sinal manual, o adolescente teria utilizado uma camisa com o símbolo ying-yang - vinculado ao PCC.
Foto: Reprodução/Redes Sociais.

Na época, as investigações apontaram que o adolescente, natural de Santos, em São Paulo, foi assassinado após postar fotos onde estaria fazendo o sinal da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), em uma área conflagrada pelo Comando Vermelho (CV). Imagens de uma câmera de segurança capturaram o momento em que sete homens sequestraram o adolescente.

Por que as facções lutam pelo domínio digital?

A criação de bandeiras, símbolos e códigos comumente utilizados para a construção de identidades coletivas e a veiculação em redes sociais explicitam os dois principais objetivos dessa "guerra" simbólica: recrutar jovens vulneráveis para ações criminosas e transformar aqueles que não foram cooptados em uma “torcida organizada”. 

A gente, enquanto estado e sociedade, está muito distante dessa juventude, para disputar esse simbolismo. A gente está muito distante e o crime está muito próximo.
Artur Pires
Doutor em sociologia e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC).

Segundo a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), crianças e adolescentes são cooptados pelas facções criminosas para atuar como “olheiros, transportadores de entorpecentes e armas, arrecadadores de valores, mensageiros, vigilantes territoriais e, em situações mais graves, executores de atos violentos”. 

Esses “soldados” ocupam a linha de frente dessas organizações, enquanto os líderes podem se resguardar de conflitos armados e responsabilizações penais.

Dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp) apontam que, nos últimos onze anos, entre 2015 e 2026, mais de 33% das vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), no Ceará, tinham entre 12 e 23 anos de idade. 

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crianças e adolescentes (entre 12 e 17 anos) foram vítimas de homicídio entre 2015 e 2026, no Ceará.

Para o pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), Artur Pires, esses menores “recrutados” pelo crime para participar de conflitos territoriais armados “são jovens normalmente de periferias, que crescem diante de muitas despossessões materiais e simbólicas, com o ego fragilizado, sem saber seu lugar no mundo”.

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Legenda: Conteúdos de crianças e adolescentes fazendo o "tudo dois" e "tudo três" têm viralizado.
Foto: Reprodução/Redes Sociais.

Em meio a uma realidade social e econômica de abandono, as facções oferecem a possibilidade de acesso a armas, dinheiro e atenção dentro da comunidade. “Mas não é só a questão econômica. É essa questão simbólica do poder, do prestígio, do status que muda na vida desses jovens”, pontua o especialista. 

Para o doutor em sociologia Artur Pires, outro resultado da difusão dessa ‘Narcocultura Digital’ pode ser observado no comportamento de muitos jovens de periferia que não são integrantes das facções, mas que “vivenciam esse universo como se fossem uma torcida organizada”.

Nas redes sociais, eles conversam sobre isso, sabem dos últimos acontecimentos, das últimas mortes, das últimas invasões de território, dos nomes dos líderes e dos bairros que pertencem a cada grupo. “É muito curioso esse fenômeno de como a facção conseguiu capilarizar os seus efeitos e as suas influências para além dos jovens que estão dentro dos grupos”, conclui o especialista.

Os adolescentes entrevistados afirmam que só têm conhecimento sobre as disputas territoriais promovidas pelas facções no Ceará por conta das redes sociais e que as informações surgem em suas timelines sem que eles procurem por elas. "Isso não era para ser uma cultura, mas está virando", finaliza um dos adolescentes. 

*A equipe de reportagem utilizou ferramentas de Inteligência Artificial (IA) para confeccionar a imagem da capa. 

*Estagiários supervisionados pelo jornalista Emerson Rodrigues.