População não percebe a serra

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Redação producaodiario@svm.com.br

Em Itatira, a consciência da preservação ambiental ainda não chegou e talvez já seja tarde

Itatira, município localizado a 216,8 quilômetros de Fortaleza, entre Monsenhor Tabosa e Canindé, deve seu nome aos grandes espigões de pedra da região. Mas, há tempos atrás, chegou a ser denominado Serra do Machado e, posteriormente, Serra da Samambaia, devido à abundância da planta à época.

Esse tempo já vai tão longe que os moradores parecem não perceber que vivem numa cadeia de serras. Verde, para eles, é sinônimo de plantação, ainda que se utilize agrotóxico, que não faça sombra e que não haja animais silvestres. Enquanto isso, sem que percebam, a semi-aridez toma conta da região.

Amor pela terra

Entre a sede e o distrito de Lagoa do Mato fica a Fazenda Arapuca, propriedade de José Nery de Sousa, 68 anos. Ele, que foi morar em Brasília há 50 anos, nunca deixou a terra que aprendeu a amar e, com o firme propósito de preservar a natureza, foi readquirindo as terras da família, vendidas pelos herdeiros.

Ele conta que o que não replantou, vai deixando brotar naturalmente. Também aproveita parte das terras para a criação de bodes e carneiros.

Além disso, permitiu que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) instalasse um Centro de Pesquisas na propriedade, para o cultivo de cajueiro anão precoce, aproveitando, para isso, área já desmatada.

A paixão pela terra é tamanha que Seu Nery viaja uma vez por mês de Brasília para Itatira numa Toyota ou numa Rural, que ele mesmo remontou com peças de sucata.

Seu sonho, talvez não alimentado pela segunda mulher e pelas filhas gêmeas, de 12 anos, é voltar a morar definitivamente na fazenda, onde pretende abrir um restaurante e estimular o turismo ecológico.

Apesar da riqueza ainda existente na região e de iniciativas como a do Seu Nery, praticamente toda a área de mata na sede de Itatira foi devastada, prática que ainda continua. A agressão mais recente, de fácil visualização, teve como objetivo fornecer piçarra para melhorar o acesso a algumas localidades e distritos.

A secretária de agricultura do município, Antônia Cláudia Guerra Almeida, sobrinha do Seu Nery, reconhece que as coisas podiam melhorar, mas ainda há muito a ser feito.

CAATINGA AVANÇA - Mata úmida está sumindo

À medida em que a mata úmida vai sendo retirada, para atividades agropecuárias, construções e outros fins, a proteção do solo, pela sombra e pela matéria orgânica nele depositada, vai desaparecendo e, com a incidência dos raios solares, a semi-aridez vai avançando. O processo é perceptível tanto na Serra das Matas quanto na Serra do Machado, onde a vegetação do bioma caatinga começa a se sobressair entre as espécies nativas da Mata Atlântica, entre elas, barrigudas, mandacarus e xiquexiques.