´Milagre da Hóstia´ desencadeou romarias

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A primeira romaria para Juazeiro data-se de 7 de julho de 1889. Cerca de 3 mil pessoas chegaram ao povoado

Crato Nos anos de 1988 e 1989, o sertão nordestino vivia uma forte seca, só comparada a de 1977, causadora de muitas mortes. Diante de tal quadro era comum as pessoas recorrerem à religião como sinal de esperança para a reversão da situação. Os padres, por sua vez, faziam à pregação, própria do tempo, de conversão súbita para se alcançar a misericórdia divina.

Preocupado com a calamidade, o Padre Cícero escrevia para as autoridades, chamando a atenção do flagelo que, segundo ele, poderia riscar do mapa o Estado do Ceará. Toda dia morria gente de fome nas cidades e na zona rural. Ele denunciava o que classificava de incúria criminosa do Governo Federal. Os flagelados deixavam suas cidades de origem em busca de emprego e comida. Para as vítimas da seca, Juazeiro era o "chão sagrado, a terra prometida", o abrigo dos desvalidos.

O contexto histórico foi determinante para a crença no milagre ocorrido em Juazeiro do Norte, quando a hóstia consagrada pela Padre Cícero teria se transformado em sangue na boca da beata Maria de Araújo. A partir de então, foram desencadeadas romarias à cidade.

O jornalista Lira Neto, autor do livro "Padre Cícero, Poder e Guerra no Sertão", descreve que os moradores das cidades e localidades mais próximas chegavam de forma espontânea ao minúsculo povoado, atraídos pelas narrativas que davam conta do sangue de Jesus Cristo derramado em pleno agreste. Mas foi em 7 de julho de 1889, um domingo que marcava o ápice da tradicional festa cristã do Precioso Sangue, que Juazeiro assistiu pela primeira vez à chegada maciça e ordenada de milhares de peregrinos. Foi a primeira de todas as romarias. Naquela manhã, cerca de 3 mil pessoas, quase dez vezes a população do lugarejo, apinharam-se nas estreitas e diminutas ruelas do local.

A maioria era proveniente do Crato e vinha sob as bênçãos expressas do novo reitor do seminário, monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro. Conhecido pela oratória inflamada, monsenhor Monteiro conduziu uma procissão até a Capela Nossa Senhora das Dores, naquele dia, adornado com velas, flores e fitas coloridas.

Ao término da missa, com sua autoridade clerical e o estilo ardoroso de sempre, Monteiro fez um sermão histórico, durante o qual exibiu, com gestos arrebatados, uma toalha manchada de sangue. Segundo ele, não havia dúvidas de que aquele era o verdadeiro sangue de Jesus Cristo.

No principio, as romarias eram, na maior parte, organizadas por padres que depositavam fé no milagre. Em 1894, com a proibição de D. Joaquim de culto aos panos e de que qualquer padre realizasse algum sacramento em Juazeiro, a não ser nas casas, mas nunca na Igreja, a configuração da romaria mudou. Os rituais próprios já existiam, mas ganharam mais força depois deste "afastamento" dos padres e da suspensão de ordem do Padre Cícero. Entraram em cena os beatos e beatas como mediadores espirituais do povo.

Sem o auxílio dos sacramentos, os romeiros buscavam novos rituais, que substituíssem as práticas de fé anteriores. Um exemplo destes é a confissão. O Juazeiro era visto como a terra da redenção, onde se deixavam os pecados para receber a graça. Na impossibilidade de receber a absolvição, o peregrino fazia penitências físicas, para purificar-se dos seus pecados.

Com a Igreja Matriz fechada, também por ordem do bispo, a Rua do Padre Cícero passa ser o "templo". Ali os romeiros aglomeram-se a sua espera.

O ritual comum era o recital do rosário, um sermão do Padre, a sua bênção, algumas oferendas lhes eram feitas e, por fim, distribuía alguns conselhos particulares. No começo, ele os atendia, um a um. Com o crescimento das romarias, este contato particular ficou impossibilitado para o padre.

Fique por dentro
Como chegar

Romeiros e visitantes podem chegar a Juazeiro do Norte pela BR-116, passando pelas rodovias federais 230 e 122, além das estradas estaduais CE-138, CE-371, CE-269 e CE-385, vindo de carro. O serviço de transporte intermunicipal é oferecido pela Expresso Guanabara. A empresa disponibiliza diversos horários saindo da Capital, rumo à Juazeiro, nos turnos manhã, tarde e noite. A viagem dura, em média, 9 horas, com percurso de cerca de 565 Km. Para os que preferem chegar mais rápido à terra do Padim, tem voos saindo diariamente de São Paulo, pela empresa Gol, com saída às 9h30 e chegada prevista para 14h. O viajante tem a opção de fazer escala em Recife ou Fortaleza. A Azul Linhas Aéreas e a Ocean Air também oferecem voos diários para Juazeiro do Norte.

TURISMO X PEREGRINAÇÃO
Pastoral defende o evento como movimento de fé

A exemplo dos hebreus, que fugiram da seca e da guerra, o romeiro encontra em Juazeiro o espaço sagrado para suas convicções. Durante a romaria, a cidade se converte num centro de devoção com missas, bênçãos, procissões, novenas, peregrinações e visitas aos locais considerados sagrados.

No entanto, esta manifestação religiosa foi vista com reservas pela Igreja oficial em razão do fanatismo e da exploração política e comercial. Foi dom Fernando Pânico, em sua 2ª Carta Pastoral, denominada de "Romarias e Reconciliação", que abriu as portas da Igreja para o acolhimento aos romeiros. "Mais do que nunca, é necessário reconhecer as romarias como uma profunda experiência de Deus e legítima experiência de fé", disse o bispo diocesano.

Na prática, quem abriu o coração para receber os romeiros foi a "Pastoral das Romarias", liderada pela freira belga, Annette Dumoulin, que faz uma distinção entre as romarias e o turismo religioso. Ela adverte que o Governo Federal parece querer "transformar" a Romaria (que não dá muito dinheiro) em turismo religioso, distorcendo e desrespeitando a originalidade da romaria dos pobres da Mãe das Dores e do Padre Cícero, e, num certo sentido, eliminando o que é próprio à história e a cultura da Cidade do Padre Cícero.

Experiência

A freira explica que o turista quer ver coisas interessantes, bonitas, o romeiro quer viver uma experiência de penitência e de fé. A satisfação do turista depende de uma boa cama, boa comida, bonitos passeios, espetáculos interessantes de folclore e religiosidade popular, enfim: prazeres que o divertem. A satisfação do romeiro é bem diferente: o seu prazer é espiritual, é religioso, é íntimo. Sua alegria é vivida num clima de solidariedade, de partilha, de simplicidade, mesmo se ele espera ser bem recebido e encontrar um mínimo de conforto nos ranchos e pousadas.

Outra diferença fundamental é a visão de turismo e peregrinação. O romeiro quer subir a ladeira do Horto num gesto de penitência, seguindo a Via Sacra e os passos do Padrinho Cícero e, quando chega ao alto da colina, ele experimenta que a Serra do Catolé é um espaço sagrado, encantado. O turista vai querer subir ao Horto de teleférico, para ter a vista bonita do Cariri e achar, lá em cima, um bom restaurante, de preferência com piscina.

Annette esclarece que não é contra o desenvolvimento e a modernização de Juazeiro, mas é preciso saber qual desenvolvimento "sustentável" e qual "modernização" valorizarão e não destruir o tesouro histórico e religioso dessa cidade.

Antônio Vicelmo
Repórter