Entidades apontam acesso para aulas remotas no interior entre 60% e 80%

Pais e gestores da Educação não querem volta às aulas ainda neste ano, segundo levantamento feito por escolas

Áurea Gabriele, 11 ano, faz o 6º ano do ensino fundamental em uma escola da rede municipal e estuda no alependre de casa, na periferia de Iguatu
Legenda: Áurea Gabriele, 11 ano, faz o 6º ano do ensino fundamental em uma escola da rede municipal e estuda no alependre de casa, na periferia de Iguatu
Foto: Honório Barbosa

Na zona rural de Iguatu, na região Centro-Sul cearense, Raíra Maria de Menezes, 9 anos, estuda em casa, conectada à internet. Na periferia da cidade, a estudante, Áurea Gabriele Bezerra, 11 anos, acompanha as aulas remotas por meio de um celular. As duas são alunas do ensino fundamental de escolas municipais e fazem parte de um grupo local em torno de 80% dos estudantes que conseguem acompanhar o ensino remoto.

A realidade de cada município é variável acerca do acesso às aulas remotas. Para a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) 80% dos alunos de escolas públicas municipais conseguem acesso às aulas à distância.

A Federação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal do Ceará (Fetamce) estima para o Ceará uma média entre 60% e 70% dos alunos da rede pública municipal do ensino fundamental estão conectados.

Em relação a rede estadual que oferta o ensino médio regular e profissionalizante cerca de 86% dos alunos utilizam computador, celular ou tablet. Os dados são da Secretaria de Educação (Seduc).

Já para as escolas particulares o alcance é de praticamente 100%, segundo levantamento nas unidades de ensino.

Em meio a pandemia do novo coronavírus que afastou os alunos da sala de aula desde 20 de março passado, há quase sete meses, existe um posicionamento comum à maioria dos pais e professores das redes particular e pública nas esferas estadual e municipal: as aulas presenciais não devem retornar neste ano.

Estudo

Raíra Maria de Menezes, 9 anos, estuda em casa, conectada à internet, no sítio Juazeirinho. A avó, uma professora aposentada, ensina à neta o conteúdo e os exercícios. “No começo foi difícil, mas depois ela foi gostando”, contou. “Eu acho bem melhor na escola, com minhas amigas”, expressou, Raíra Maria.

Em Iguatu, a aposentada, Maria Cleide Lima, avalia como um ano perdido os estudos da neta, Áurea Gabriele Bezerra. “Ela está se esforçando, mas acho que nesse ano se perdeu muita coisa e as aulas não devem voltar mais, já que o ano tá acabando”.

A aluna Áurea Gabriele faz o 6º ano do ensino fundamental em uma escola da rede municipal. “Conheço colegas que não têm a internet e pegam as tarefas na escola”, contou. “As aulas na escola são melhores, têm explicação e queria que voltasse logo”.

Quem reclama das aulas remotas é a aluna Márcia Araújo, no sítio Lagoa Redonda, zona rural de Iguatu. “A gente ver mais tarefa, e tenho dificuldade de entender as matérias”, disse. A mãe, dona de casa, Laura Araújo, lamenta o ano perdido. “O aprendizado foi quase nada”, disse. Mesmo assim, ela é contra o retorno das aulas. “Para esse ano não dá mais”.

Cursando o 1º do ensino fundamental, em uma escola particular, Marina Gomes, 7 anos, tem notebook e o apoio da mãe, Ana Nunes, agente comunitária de Saúde. “No período da tarde, estudo com ela, mas pela manhã uma prima dela acompanha as aulas”, contou. “É um ano importante porque é a alfabetização, mas ela já está lendo algumas palavras e escrevendo”.

Classificação  

A secretária de Educação de Milhã, no Sertão Central, Paula Vieira, informou que por meio de grupos de gestores municipais o acesso à internet chega em média a 87% dos alunos. “Houve uma expansão da internet no interior, e a dificuldade é o compartilhamento de um mesmo celular entre os irmãos”, pontuou.

Para as secretarias municipais de Educação, há cinco tipos de alunos em meio à realidade das aulas remotas. Os que têm acesso e participam efetivamente; os que ficam offline, mas depois assistem e dão retorno das atividades; os que não têm conexão e recebem atividades impressas; outro grupo é daqueles que não têm nenhuma participação – sem acesso e sem receber material e, por último, os que têm acesso à tecnologia online, mas não querem participar.

Para Paula Vieira, há situação é complexa. “Ninguém vê possibilidade de retorno mais este ano às salas de aula”, observou. Luíza Amélia, presidente da Undime. “A maioria (70%) já optou por não retornar às aulas presenciais em 2020”. Carmen Santiago, da Fetamce, também segue esse posicionamento. “Não acreditamos mais nessa possibilidade, quando houver autorização do governo”.

A Associação das Escolas Particulares da Região Centro-Sul indicou que pesquisas feitas pelos estabelecimentos de ensino mostram que 83% dos pais disseram não ao retorno das aulas para o ensino fundamental e 62% para o ensino médio.

O presidente da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece), Nilson Diniz, mostrou preocupação com o retorno às aulas presenciais. “Falta estrutura, condições financeiras aos municípios para adequação dos espaços e do transporte escolar”, frisou. “Defendemos que a decisão deve ser de cada município”.

O presidente do Sindicato dos Professores do município de Iguatu, Pablo Campos, também não vê condições para a volta ao velho normal. “Não há essa possibilidade”, disse. “A pandemia não acabou e temos de continuar preservando vidas”.

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