'Com o São Francisco, chega a esperança', diz pescador cearense com a chegada das águas ao Castanhão

Em Jaguaribara, a população acredita no reaquecimento de sua economia, principalmente pela piscicultura, com a chegada das águas do Velho Chico

Os pescadores de Jaguaribara já festejam a chegada das águas do Velho Chico São Francisco Ceará
Legenda: Os pescadores de Jaguaribara já festejam a chegada das águas do Velho Chico
Foto: Honório Babrosa

A chegada das águas do São Francisco no açude Castanhão, ontem (10), além de ser a grande esperança de segurança hídrica para a Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), animou a população de Jaguaribara, que acredita no reaquecimento de sua economia, principalmente pela piscicultura. O Município, que possui pouco mais de 10 mil habitantes, há cinco anos mergulha em uma de suas maiores crises pelo baixo volume que o maior reservatório do Estado apresenta. 

Em 2013, Jaguaribara chegou a ser o maior produtor de tilápia do Brasil com 1,5 toneladas por mês, concentrando 8,3% da produção nacional, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vivendo seu auge, a atividade gerava renda para cerca de três mil famílias, entre empregos diretos e indiretos. A piscicultura entrou em declínio, a partir de 2016, com o baixo volume do Castanhão, que chegou em 2018 a sua pior marca: 2,1%. Isso obrigou os piscicultores a se reinventarem, apostando em novas tecnologias

Açude Castanhão
Foto: Wandenberg Belém

Desde ontem (11), o maior reservatório do Ceará recebe as águas do ‘Velho Chico’ em situação melhor, mas ainda alarmante, com 10,35% de sua capacidade. “Embora vivemos um momento de pandemia, pelo menos uma notícia boa para nós e para todo o povo do Ceará”, exalta o prefeito de Jaguaribara, Joacy Alves dos Santos Junior.

“A chegada da água traz expectativa de, ainda este ano, termos um aporte significativo e, tão logo, nossa principal atividade econômica possa retomar, que é a produção de tilápia”, completa o gestor. De acordo com a estimativa da Prefeitura, a piscicultura é responsável por 70% a 80% da economia local.  

Neste período de crise, Joacy conta que a população teve que se reinventar para conseguir se manter. Uma saída foi o retorno da bovinocultura leiteira e a fabricação de confecções, que emprega entre 60 a 70 pessoas. Mesmo assim, não foi fácil: “Ainda depende muito da piscicultura”, reforça.  

Açude Castanhão
Foto: Honório Barbosa

Chuvas de esperança

Com as chuvas de 2020 que elevaram o volume do Castanhão, alcançando pouco mais de 16% de sua capacidade, nível que não alcançava desde 2015, muitos piscicultores e pescadores retomaram a atividade, que estava praticamente paralisada. Outros, aguardam uma segurança hídrica maior e um auxílio govrnamental para reparar as perdas dos anos anteriores.

Um desses que se mantém é Carlos Antônio da Silva, que chegava a produzir tilápia em 50 gaiolas. Agora, a criação se reduz a 15 gaiolas. “Produzia 3 mil quilos e agora só mil. Com o São Francisco, chega a esperança. Fico feliz, já que as chuvas daqui a média sempre foi baixa. Vai dar certo para nossa atividade voltar ao normal”, acredita.  

Açude Castanhão
Foto: Wandenberg Belém

Também piscicultor, Antônio Laldo Clementino explica que o volume maior no açude cearense produz mais oxigênio e torna a água mais limpa, naturalmente, impactando na criação dos peixes. “Para produzir na gaiola tem que ter água”, enfatiza. Por causa da queda no reservatório, voltou a trabalhar na roça, mas sem o mesmo sucesso.

“O Castanhão para nós é uma mãe e uma pai. Trabalho, renda, produção. Para quem não tem estudo, a pesca é boa. O custo é grande”,  diz o pisciultor Antônio Laldo.  

Com a esperança de que a renda a partir do reservatório aumente, os próprios comerciantes imaginam um impacto positivo pela maior circulação de renda na cidade. “Muitas famílias dependem dessa água. Acredito que dias melhores virão. Esses últimos anos foi difícil, nossa cidade é pequena. Mesmo meu comércio tendo variedade, está morto”, descreve Cleidismar Soares Aquino, que mora há 14 anos em Jaguaribara. 

A empresária Gerlânia Pereira do Santos também espera um momento de fartura na região novamente. “Quando chegamos, em 2006, era uma riqueza grande, barragem cheia, muita gente de fora. A cidade tinha muito futuro, mas se encontra em calamidade. Não tem renda nenhuma”, lamenta.  

Açude Castanhão
Foto: Wandenberg Belém

Liberação das águas 

A liberação das águas do São Francisco pelo chamado “eixo emergencial” do Cinturão das Águas do Ceará (CAC), aconteceu no último dia 1º, mudando o cenário de riachos e rios que cortam o Cariri, também enchendo a esperança de agricultores e pescadores naquela região. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), o volume fornecido é de 10m³/s. No entanto, em campo, será avaliado a capacidade de ampliar para 12m³/s, suficiente para a segurança hídrica da RMF.  

A decisão de liberar a água neste mês de março foi motivada, justamente, para minimizar a perda de água durante o percurso. “As calhas dos rios estão bem úmidas e com algum fluxo natural, contribuindo para diminuir as perdas por infiltração, evaporação e por retiradas. Ninguém irriga na chuva. Deste modo, o tempo de viagem da água será menor do que seria no segundo semestre, com leitos dos rios secos”, explicou o secretário de Recursos Hídricos do Estado, Francisco Teixeira.   

A Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) tem monitorado o trajeto da água desde seu desemboque, em Missão Velha, até o Castanhão. Porém, ainda não foi calculado o volume que, naturalmente, foi perdido durante o percurso de aproximadamente 294,1 quilômetros. “É necessária uma série de dados mais alongada para fazer este cálculo. Ademais, está havendo, em maior ou menor monta, contribuição de chuvas ao longo do percurso”, explicou em nota.  

Açude Castanhão
Foto: Honório Barbosa

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